A vida da designer Flávia*, 21, virou de cabeça pra baixo quando ela recebeu uma mensagem no Instagram. Era um print de uma postagem feita por seu ex-namorado no Facebook. No post ele divulgava um formulário para receber respostas de mulheres que sofreram com  abuso sexual , violência e agressão.


mulher com mão pintada de vermelho na boca
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'Ele me fazia de boneca', diz mulher que foi violentada por homem que, hoje, quer lutar pelo direito das mulheres


A intenção é projetar uma startup para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Engenharia da Computação. No texto, ele afirma que se trata de um “projeto inovador” que aborda “um tema complexo, mas muito relevante que é a violência contra à mulher ”.

A indignação e a impotência tomaram conta de Flávia, já que ela teve um relacionamento com esse mesmo rapaz. De acordo com ela, a conduta dele é muito diferente do que ele defende. Ao iG Delas, ela narra como foi passar quase dois anos convivendo com chantagens emocionais, traições , violência sexual e ameaças de estupro.

Atenção: Esse relato pode conter gatilhos emocionais.

Nós passamos quase dois anos juntos na época da escola. Eu tinha acabado de fazer 15 anos e ele era só um ano mais velho que eu. As pessoas da nossa idade estavam fazendo festas em condomínios e esse meu ex organizava alguns eventos. Eu estudava em um colégio de “boyzinho” e a galera morava em edifícios de luxo. Um dia me convidaram para uma festa que seria no condomínio dele, e como todo mundo o conhecia ele desceu e a gente ficou.

Começamos a conversar muito. Ele era insistente e queria sempre sair comigo. Eu lembro que nessa época eu estava um pouco afim dele, mas não era nada demais. Eu lembro que até achava ele meio feio, mas minha mãe achava fofo e incentivou que a gente saísse.

Ele me pediu em namoro e fez a maior cena na sorveteria que estávamos, com buquê de flores e tudo mais. E eu só pensei “meu Deus, mas eu não quero namorar”, me senti pressionada. Hoje eu penso e parece que eu meio que fui levada a entrar nesse relacionamento.

No começo era tudo lindo e, aos poucos, eu comecei a me apaixonar por ele. Na época eu era virgem, tinha acabado de sair da igreja e falava que ia casar virgem. Namorei com ele sem transar por seis meses, mas ele sempre entrava na minha mente para “fazer umas safadezas”.

O abuso ficou mais perceptível depois que eu comecei a transar, porque ele fazia propostas esquisitas para um adolescente de 16 anos. Ele falava sobre os  fetiches  dele e sempre gostava de me deixar em uma posição bastante vulnerável. Às vezes ele me mostrava alguns pornôs com coisas meio gore [filmes que apresentam muita violência gráfica], e eu estava sempre batendo palma para ele.

A mãe dele estava ficando doente na época e ele usava isso para me colocar nessas situação, em um pretexto de que “a minha mãe está doente e você precisa me dar isso”. Ele chegou a pedir para me queimar com uma vela porque ele achava legal. Ele sempre se justificava afirmando que curtia muito BDSM. Eu era muito manipulada , porque eu não conseguia identificar que ele estava passando dos limites.

Eu achava que era normal porque ele me falava que gostava de mim. Às vezes ele chorava, falava que me amava, que eu o trocaria por uma mulher e que tinha medo disso. Também falou que nunca ia me abandonar, que mesmo separados estaríamos sempre juntos. Às vezes parecia mesmo que tudo eram flores, mas eu não podia nem falar com meus amigos. Eu ia para a casa de um grupo depois da aula e ele não podia saber, porque ficava p*to.

Mas as coisas desandaram mesmo quando eu descobri, no dia da formatura dele, que ele estava me traindo. Eu peguei o celular dele na maior inocência para me mandar umas fotos e vi que ele estava conversando com uma menina. Ele prometeu que tinha sido só dessa vez, mas era mentira e eu só descobriria isso mais para frente. Como uma boa vítima de abuso psicológico , aceitei as desculpas e o choro de arrependimento.

Continuamos o cronograma de sexo esquisito. Ele falava para mim que ia me estuprar a qualquer momento , que tinha muito tesão em estupro e que faria quando eu estivesse dormindo. Como era uma “fantasia”, eu disse que a gente devia pensar em uma palavra de segurança. Ele respondeu que não ia ter palavra nenhuma porque ele estaria me estuprando de verdade.

Ainda bem que isso nunca aconteceu, mas ele já tentou fazer sexo anal sem meu consentimento. Doeu muito e eu chorei demais. Disse que ele me machucou e ele ficou rindo, para ele foi divertido.

Ele também tinha fetiche com fisting [inserção de mão e/ou antebraço] e ele queria colocar a mão inteira dentro da minha vagina. Eu só pensei “isso não vai entrar”. Ele então pegou um vidro de remédio e falou que ia colocar aquilo. Ele inseriu e o vidro ficou preso dentro de mim. Eu lembro que eu comecei a rir de nervoso, porque eu não sabia o que fazer, e ele riu porque achou engraçado. Consegui manter a calma e tirar depois, mas aquilo estava dentro de mim, podia estourar e me machucar porque as pílulas eram ácidas.

Eu fico chocada em como normalizei essas coisas, porque eu acho que na época eu contava para minhas amigas que isso era uma aventura sexual, porque por mais que ultrapassasse dos limites era como eu considerava. Mas hoje em dia eu olho para trás e era tudo abuso. Era só abuso. Ele me fazia de boneca, porque ele enfiava o que ele quisesse em mim, ele me machucava, ele me tratava do jeito que quisesse e eu estava sempre achando que tudo estava bem.

Aliás, conversei com uma ex-amante da época em que estávamos juntos e ela me lembrou que, em uma das festas que ele organizou, uma menina apareceu completamente nua e inconsciente, acusando o cara de estupro. Esse dia deu até polícia. Parece que teve um pequeno processo, mas foi abafado porque ele era menor de idade, o pai é médico e a mãe era coordenadora de uma das faculdades privadas mais conceituadas da cidade e do país.

Na época ele negou tudo e disse que esse dia foi estressante. Mas penso que se ele dizia para a parceira dele com todas as letras que tinha fetiche em estupro, quem não garante que ele me manipulou na época para pensar que não tinha estuprado?

Uma época percebi que aquilo estava sendo abusivo , que foi quando eu comecei a conhecer o feminismo. Ele percebeu que eu estava me impondo mais e me protegendo e isso afetou muito ele. Ele até começou a namorar outra menina enquanto estava comigo e eu tive que provar para a amante que eu realmente era a namorada oficial dele . Inclusive, ele justificou que trai porque eu estava o abandonando, que deixei ele sozinho quando a mãe dele morreu.

Depois do término, eu descobri que naqueles primeiros seis meses de namoro ele usava minha virgindade como justificativa para trair. Eu estava no ápice da paixão e ele falava que me amava, que a gente ia casar, mas estava sempre me traindo. Isso foi perigoso porque ele sempre se recusou a usar camisinha, falava que não gostava. Eu só me protegia com o anticoncepcional, que uma época começou a me fazer mal e eu tive que parar. Então a gente usava os métodos da tabelinha e do coito interrompido, e eu tinha muito medo de engravidar.

Ele me dizia que eu faria o aborto se ele engravidasse, mas isso nunca chegou a acontecer. Eu fiquei com medo porque a namorada do melhor amigo dele ficou grávida e ele achou uma ótima ideia  chutar até que ela perdesse o bebê. Meu ex não teria dúvidas e me bateria para tentar tirar o bebê se fosse comigo.

Acho que a coisa que mais me f*deu foi que depois que eu terminei eu nunca mais me relacionei com ninguém. Eu terminei em 2017 e, desde então, eu não tenho capacidade de confiar em ninguém, eu sinto muita culpa o tempo todo.

O meu erro, o meu grande erro, foi que em 2018 eu tentei voltar com ele. Tentei voltar porque achei que eu tinha evoluído e não sofreria mais abuso. No começo era casual, mas aí ele começou a aparecer na minha casa para jantar sempre. Só que dava a hora do rolê dele e ele ia embora.

Perguntei se assumiríamos um relacionamento novamente e ele me respondeu que não poderia namorar comigo porque estava ganhando R$ 8 mil de salário e eu ainda ganhava muito pouco, que eu não estudava o suficiente. “Você não está conseguindo me acompanhar. Eu estou com a minha viagem para a Europa marcada e você vai acabar ficando para trás”, ele justificou.

Isso é a fonte da minha cobrança. Eu sempre acho que eu estou sendo insuficiente no trabalho, nos estudos, nas minhas relações pessoais. Eu nunca pedia para ele me pagar nada, eu sempre dividia as coisas. Até hoje minha psicóloga precisa me lembrar que eu só tenho 21 anos, que uma pessoa nessa idade normalmente não ganha R$ 12 mil.

Nesse segundo término, eu descobri que ele estava me traindo de novo. Ele disse que estava fazendo isso porque eu era gorda e não era baixa o suficiente. Esse dia eu saí do meu corpo e dei o maior soco no nariz dele, sangrou muito. Foi um refresco, o soco mais lindo e certeiro que já dei na minha vida.

Ver que ele está trabalhando em uma startup para ajudar mulheres em situação de violência me traz uma sensação de impotência. Não vou falar que eu estou surpresa. Eu não acho que ele está fazendo isso porque está com a consciência pesada, mas porque ele sabe que vai conseguir muito dinheiro. Ele vai surfar em uma pauta que está em alta, a mulherada vai bater palma. Parece que no fundo ele sabe que não vai acontecer nada com ele, que ele é inalcançável porque tem poder aquisitivo, ser homem e ser branco.

Eu acho que na verdade eu não sou capaz de confiar em homem. Por trás do que eles falam, defendem e parecem ser, eles estão procurando alguma coisa para se beneficiar. Sempre que vejo na mídia as “resoluções dos homens poderosos para ajudar e salvar mulheres”, para mim é sempre enganação. Nenhum homem “feministo” está sendo sincero ou honesto.

Meu irmão gostava muito dele e ainda o segue no Instagram. Vi que hoje ele tem uma namorada. Eu fiquei mal, não porque eu ainda gosto dele, mas porque me pego pensando se ele faz o mesmo com ela ou se ele a respeita de verdade. Penso se a culpa não foi minha, porque eu não coloquei limite na nossa relação. Por mais que eu tenha sido vítima essas coisas sempre voltam para mim como se eu tivesse permitido isso.

Tudo bem, eu não sou uma mulher bem sucedida aos 21 anos. Eu não ganho uma bolada de grana, mas sabe? A vida não é só isso. Eu consegui atingir uma plenitude, uma paz que eu sei que esse cara nunca vai atingir. Ele nunca vai ter paz. Eu estou livre. Ele me causou algumas sequelas muito grandes, mas que vou lidar e vai passar. Não vou falar que “ok, vivi para aprender” porque eu preferiria não ter aprendido nada do que vivi. Mas se eu puder tirar algo de bom disso, aprendi o que não devo aceitar nunca mais.

*Este nome foi alterado para preservar a identidade e segurança da vítima

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