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Questionar pessoas que passaram por uma violência a respeito da veracidade das situações ou das limitações que os traumas geram na vida delas não ajuda em nada e pode fazê-las reviver algo desagradável

De acordo com um levantamento divulgado pelo Datafolha em março deste ano, 40% das mulheres brasileiras acima dos 16 anos (número que soma quase 30 milhões) já sofreram algum assédio, categoria que inclui assédio físico no transporte público, toques sem consentimento e assédio verbal nas ruas (a famosa cantada). Dados da mesma pesquisa ainda mostram que, dentre o total de vítimas de violência contra mulheres, 52% delas não fizeram nada a respeito.

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Questionar pessoas que passaram por uma violência - como assédio ou abuso - a respeito da veracidade das situações ou das limitações que os traumas geram na vida delas não ajuda em nada e pode fazê-las reviver algo desagradável
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Questionar pessoas que passaram por uma violência - como assédio ou abuso - a respeito da veracidade das situações ou das limitações que os traumas geram na vida delas não ajuda em nada e pode fazê-las reviver algo desagradável

Não é incomum encontrar aquele tipo de gente que considera distúrbios mentais – como depressão e ansiedade – e traumas como problemas que podem ser curados em um passe de mágica, ou (pior ainda) que são uma frescura. Situações envolvendo assédio e abuso, por sua vez, podem impactar negativamente a vida de uma mulher, e demonstrar descaso ou descrença perante relatos só faz com que elas se calem mais ainda.

Ouvir comentários abertamente ofensivos, porém, não é a única coisa que desencoraja vítimas de abuso sexual que sofrem com os traumas gerados por essas situações. De acordo com a médica de família e comunidade Luiza Cadioli, que também é uma das diretoras do Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde, o tabu em torno do assunto faz as pessoas entenderen e perguntarem pouco sobre ele. Às vezes, mesmo que no intuito de ajudar, as pessoas fazem comentários e questionamentos nada bem-vindos que podem agravar ainda mais o desespero da vítima. Veja sete coisas que se deve evitar falar para essas pessoas:

1. “Você tem certeza de que isso aconteceu?”

Pessoas que sofrem de estresse pós-traumático podem apresentar dificuldades em discutir e até em lembrar-se claramente do que aconteceu, mas isso não quer dizer que ela está mentindo ou inventando. É em razão de situações como essas que existe a terapia regressiva , processo que recorre a técnicas como hipnose clínica e uso de florais para tentar acessar lembranças “perdidas” no cérebro e sanar traumas.

Ao perceber a própria falta de clareza a respeito das lembranças e lidar com uma sociedade que culpabiliza vítimas de abusos a toda hora, é comum que essas pessoas se sintam naturalmente confusas quanto a experiência. Após um desabafo – que pode ser bastante difícil de se fazer – tudo o que essas pessoas não precisam é de alguém questionando a veracidade da situação. Além disso, você não ganha nada bancando o Sherlock Holmes para cima de alguém que está sofrendo, certo?

2. “Por que você não reagiu?”

Quantas vezes você já ouviu um comentário desagradável e não deixou o descontentamento transparecer por qualquer motivo que seja? Não é incomum que o assédio venha da parte de alguém superior – como um chefe no trabalho – ou daquela pessoa de quem menos se espera uma atitude dessas – uma pessoa da família, amigo querido ou até um parceiro –, tornando o ato de “reagir apropriadamente” um tanto quanto complicado. Aqui, é necessário ter empatia: se você nunca passou por uma situação como essa, com que propriedade vai criticar a reação que a outra pessoa teve?

3. “Já passou, você precisa viver a vida”

De acordo com Luiza, situações de abuso ou assédio afetam as pessoas de formas completamente diferentes. “Cada experiência de violência deixa suas marcas de forma característica e imprevisível”, afirma a médica. Alguns assuntos, atitudes, toques e até gestos de carinho podem fazer com que a pessoa reviva o trauma e, muitas vezes, isso gera dificuldades em diversas áreas da vida.

Porém, da mesma forma que situações de violência têm consequências diferentes de uma pessoa para outra, cada um tem seu tempo e sua maneira de superá-las. Passar por cima de um trauma não é algo que acontece em um estalar de dedos e vítima alguma precisa se sentir fraca por não conseguir “viver a vida”.

4. “Pense que isso te fez crescer como pessoa”

Esse tipo de conclusão é algo que apenas a própria pessoa que passou pela situação pode tirar. “Tudo o que se diz a respeito do outro sem saber como esse outro realmente se sente é negativo. A pessoa pode ter crescido com aquilo? Claro. Mas só ela pode dizer. Esse tipo de conselho é um pouco vazio e não aborda o ‘x’ da questão, que é entender os sentimentos, os limites”, explica Luiza. Conclusão: não tire conclusões sobre a vida alheia.

5. “Você PRECISA falar sobre”

Sim, falar a respeito de experiências traumáticas é uma forma de fazer com que elas deixem de ter controle sobre a vida de alguém, mas nem todo mundo é capaz de fazer isso, e agir como se ela fosse obrigada a tocar na ferida urgentemente só faz com que a pessoa se sinta ainda mais aflita.

Segundo Luiza, o importante é gerar um espaço confortável para que a pessoa se abra. “É importante falar do assunto, principalmente se a pessoa que sofreu assédio desejar. Na dúvida, pergunte se há abertura para falar do tema. Esse termômetro só o outro pode nos dar. Em um relacionamento ou em uma consulta, a vítima fala quando há espaço”, comenta a médica.

6. “Você não devia falar sobre isso com qualquer um”

Da mesma forma que “obrigar” a pessoa a conversar sobre um assunto com o qual ela não se sente confortável não ajuda em nada, agir como se ela precisasse sentir vergonha de si mesma e “esconder” a experiência também é prejudicial.

Se você tem uma amizade ou um relacionamento com uma pessoa que tem esse tipo de bagagem e sente que ela é muito afetada pelo trauma, é importante prestar atenção nas vontades dela. Se ela se sente mais confortável tratando o tema com naturalidade e falando sobre essa experiência com muitas pessoas, isso deve ser incentivado, não vetado. “A vítima de assédio tem direito de ser preservada, mas também de ser escutada. Se ela fala, não deve ser calada. O mais interessante é saber o que faz o outro sofrer”, afirma a médica.

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7. “Ué, você não gosta de sexo?”

Muitas vezes, a sexualidade é uma área bastante afetada pelo trauma em pessoas que foram vítimas de assédio e abuso. “Elas podem evitar o contato sexual, ter dificuldade em se obter prazer ou ainda sentir repulsa ao ato. Existem mulheres que relembram momentos do assédio durante os momentos de intimidade. Pode ser consciente, mas pode ser uma memória do corpo, um gesto parecido, um gatilho que faz o corpo reagir mostrando desagrado”, afirma Luiza.

Se você se relaciona com uma pessoa que tem esse tipo de reação ao trauma, não é nem um pouco aceitável questionar as dificuldades que ela tem em relação ao sexo. Se ela não se sente confortável com alguma posição, algum tipo de toque ou assunto, ela não deve ser obrigada a fazê-lo e muito menos ser questionada a respeito disso como se fosse culpada de algo. “Sentiu algo que não foi prazeroso? Lembrou da violência? O melhor é parar e negociar com o parceiro ou parceira formas diferentes”, aconselha a médica.