Em vez de proporcionar descobertas que apimentam a vida sexual, a leitura da saga despertou traumas antigas de Emma Tofi; conheça a história

A série de livros “ Cinquenta Tons de Cinza ” foi, para muitos, o despertar da curiosidade sobre práticas sexuais consideradas tabu, como dominação, submissão, prazer pela dor e outras. É o caso de Charlotte Howard que, após devorar os livros da saga em uma semana, afirma ter observado uma reviravolta na vida sexual.

Para muitos, 'Cinquenta Tons de Cinza' ajuda a alcançar mais liberdade na vida sexual
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Para muitos, 'Cinquenta Tons de Cinza' ajuda a alcançar mais liberdade na vida sexual

“Isso abriu minha mente para a ideia de sexo ‘excêntrico’, me ajudou a sentir mais confiança para discutir sexo com meu marido Richard”, explica a mulher ao jornal britânico "The Sun". Enquanto para pessoas como Charlotte as histórias como “ Cinquenta Tons de Cinza ” representam liberdade sexual, para outras, representam sofrimento.

Para a terapeuta sexual Krystal Woodbridge, narrativas como a criada por E. L. James podem ser particularmente prejudiciais para aqueles que sofreram traumas no passado. “Mulheres com um histórico de abuso ou algum tipo de aversão sexual podem considerar algumas coisas, como cenas de BDSM e estupro, terríveis”, explica ela, também ao jornal.

É o caso de Emma Tofi. Quando ouviu falar da saga que virou febre entre mulheres do mundo todo, a britânica resolveu ler, esperando deparar-se com uma história de amor que a fizesse restaurar a fé nos homens após passar por um relacionamento abusivo. No entanto, o que aconteceu foi justamente o contrário. “Isso despertou todas as emoções que senti durante o abuso”, afirma ela à publicação britânica.

Como tudo começou

Reprodução/Arquivo pessoal
"Foi como ler um diário da época em que eu estava com meu ex", afirma Emma

Emma conheceu o ex-namorado Mark (nome fictício) em 2009. Ela conta que, no início, ele era extremamente encantador, mas, em pouco tempo, o relacionamento se transformou em 18 meses de tortura psicológica.

“Apesar de estar sempre dizendo que me amava, se eu tentasse segurar a mão dele, ele me empurrava e dizia que eu era apenas ‘uma garota com quem ele estava transando’”, lembra a mulher.

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Segundo Emma, o ex-parceiro  sempre culpava uma situação antiga pelo comportamento abusivo . “Uma vez, depois de fazermos sexo, ele disse que eu despertava nojo nele. Mas ele sempre mandava mensagens se desculpando, dizendo que ele era traumatizado por ter sido abusado quando era criança”, conta.

Hoje, a britânica reconhece que deveria ter deixado o então namorado, mas não queria ser “outra pessoa a tratá-lo mal e abandoná-lo”. Por algum tempo, ela achou que poderia “curar” Mark com amor, mas, em vez disso, ele a convenceu de que ela era a culpada por seus atos terríveis.

Foi apenas em 2011, após passar a frequentar um grupo de mulheres vítimas de abuso, que ela “começou a enxergar Mark como ele realmente era”, e decidiu terminar o relacionamento. Quando o primeiro volume de “Cinquenta Tons de Cinza” foi lançado, ela achou que tinha deixado a experiência traumática para trás, mas estava enganada.

“Ler o livro foi como ler um diário da época em que eu estava com meu ex, mas com a história distorcida para parecer glamorosa. Fiquei obcecada por ele, procurando a parte em que Christian pede desculpas para Ana e procura ajuda, mas isso não acontece”, relata.

Krystal explica que o problema está no fato de que a maior partes do livro sobre o assunto seguem um padrão. “Eles assumem que mulheres querem um parceiro dominante em vez de serem dominantes, e isso pode impor certa pressão aos homens”, afirma a terapeuta.

Campanha contra romantização do abuso

Em 2013, Emma descobriu que não estava sozinha. Pela internet, ela encontrou a campanha chamada “Fifty Shades is Abuse” (Cinquenta Tons é abuso), criada para expor como relacionamentos abusivos podem ser retratados como romance.

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Apesar da campanha ter surgido após "Cinquenta Tons de Cinza", Emma conta que o descontentamento é com a literatura erótica em geral. “Poucos autores eróticos retratam personagens masculinos legais porque eles são vistos como ‘tediosos’. Temos de mostrar que mulheres podem ser dominantes e que pode haver uma troca de poderes genuína. Para mim, isso é muito mais sexy”, completa.