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Natália Mauadie ficou conhecida após relatar relacionamento abusivo no Twitter. Ao Delas, ela lembra os detalhes da relação, conta as diversas vezes que recebeu ameaça de morte e fala das feridas que esse namoro deixou

"Você prefere ficar sem o teu cabelo ou você prefere perder a tua vida?". A pergunta foi feita para Natália Mauadie em 2013, pelo seu então namorado. Na época, ela tinha 17 anos, estava grávida e não havia descoberto ainda que estava em uma relação abusiva.

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Vítima de relacionamento abusivo teve cabelo raspado por ex-namorado arrow-options
Arquivo pessoal
Natália desabafa sobre os traumas que viveu durante a relação abusiva e sonha em poder ajudar outras mulheres


Parte da história de Natália, que é do Rio de Janeiro, ficou amplamente conhecida por causa de uma de suas postagens no Twitter. Na publicação, que se tornou viral, ela desabafou sobre a "relação abusiva" que vivia. "Só não se tornou um feminicídio porque tive ainda a escolha de morrer com meu filho na barriga ou ter meu cabelo raspado e ser exposta para o Brasil todo", dizia o tuíte.

Natália conversou com o Delas e detalhou tudo o que aconteceu até chegar a quase perder a vida nas mãos do ex-namorado. Os dois se conheceram no final de 2012, perto do começo de 2013. Enquanto a jovem ia completar 17 anos, o rapaz já estava com 24 anos.

O início do namoro foi marcado por muito carinho entre eles, e a carioca conta que chegou a abandonar a escola por causa do amor que sentia pelo companheiro. "Ele me tratava como uma princesa no começo. Ele me chamava de 'minha bebê'. Só enxergava ele na minha vida", conta ela.

A mulher, que trabalha como confeiteira, já tinha um filho naquele período e afirma que o relacionamento entre o namorado e sua família dela era muito bom. "Ele gostava bastante do meu filho e eu gostei muito da família dele por serem pessoas humildes, simples. Eles também mostraram que gostavam bastante de mim e ali começou um laço entre a gente que eu fui me apaixonando muito", pontua.

Agora, seis anos depois, Natália declara que não tinha conhecimento do que era o amor de verdade. "Fiquei completamente apaixonada. Eu deixei de me amar para amar outro alguém", explica a jovem.

Os primeiros sinais de alerta

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Reprodução/Twitter
Natália tinha 17 anos quando tudo ocorreu, e o relacionamento dela com o rapaz durou um ano

Apesar do início encantador, logo os primeiros abusos psicológicos apareceram. "Ele não gostava que eu usasse roupas curtas. Quando a gente saía, ele só permitia que eu ficasse na frente dele, não podia dançar, não podia curtir com as minhas amigas... Se eu falasse que iria ao banheiro era motivo de ele falar que eu estava procurando homem", diz ela.

A situação se agravou ainda mais quando o rapaz agrediu Natália fisicamente pela primeira vez. "Nós tivemos uma discussão e eu resolvi sair para curtir com algumas amigas minhas. Ele foi até lá e simplesmente esperou a noite passar e, no final da noite, me deu uma coça, me bateu muito mesmo", acrescenta.

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A família dela tomou conhecimento que o namorado bateu na jovem e decidiu intervir. Em conversa com os pais do homem, os parentes da confeiteira deixaram claro que não queriam mais os dois juntos. Contudo, Natália voltou a se relacionar com ele por "achar que amava ele loucamente e acreditar nas juras de amor que ele dizia".

Para completar, a carioca descobriu que estava grávida dele. "Foi muito complicado porque eu já tinha um filho, ele não tinha nem um ano ainda e eu tinha acabado de passar por esse episódio [agressão]", conta.

Natália também afirma que não foi simples para ela e seus parentes aceitarem toda a situação. "Ele e a família dele ficaram muito felizes com essa notícia. Já para a minha família e eu foi muito difícil de aceitar. Tanto que a gente só voltou ao nosso relacionamento quando eu já estava com cinco meses de gestação", salienta.

Ele piorou após a primeira agressão

Depois de reatarem o namoro, o cenário piorou muito, em especial com as agressões. Se a jovem falasse algo que não agradava o homem, ela apanhava. Chegou ao nível da confeiteira precisar esconder os sinais da hostilidade que sofria com maquiagem.

Além da violência física, surgiram também as ameaças. Frases como "vou te mostrar o que é homem de verdade" e "se eu descobrir que você está mentindo para mim, tu vai ver o que vai te acontecer" começaram a ser frequentemente ouvidas pela carioca.

Pouco mais de um mês após voltarem, o casal se desentendeu novamente e, dessa vez, a sequência de acontecimentos foi determinante para o rapaz acabar preso. Natália Mauadie explica o ocorrido: "Eu praticamente morava na casa dele, com a família dele, e ele estava dormindo em um dia normal, eu acordei e fui mexer no computador que tinha na casa dele", inicia.

"Quando eu fui mexer no computador, demorou poucos minutos e ele acordou e ele já veio por trás de mim e perguntou o que eu estava fazendo no Facebook, o que eu estava querendo esconder dele para eu estar mexendo no Facebook escondido só porque ele estava dormindo, mas, na verdade, eu não estava mexendo escondido, foi algo normal", esclarece ela.

Não adiantou tentar argumentar. A primeira reação do namorado foi enforcar a jovem e a pressionar para abrir uma conversa que tinha com sua amiga. "Ele não sossegou enquanto eu não tomei a atitude de deixar ele ler toda a nossa conversa", afirma.

"Eu era uma menina um pouco ingênua, então tinha coisas na conversa: 'amiga, tal fulano me mandou mensagem hoje e tal' na época que a gente estava separado, porque eu tinha medo dele e eu também não tinha olhos para outras pessoas, então eu nunca vi necessidade nenhuma de trair. Mas, na mente dele, acho que ele acreditou que tinha coisas ali que poderiam fazer com que ele descobrisse uma traição ou uma mentira minha", argumenta a carioca.

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Assustada com o modo como ele poderia reagir ao ler as mensagens, Natália não pensou duas vezes: correu descalça mesmo e buscou refúgio em um comércio da região. Contou tudo o que estava acontecendo para uma das pessoas do estabelecimento, que entrou em contato com a família dela.

A jovem estava muito nervosa e com sete meses de gestação, e isso contribuiu para que ela passasse muito mal. "Quando minha irmã atendeu o telefone, não deu tempo de falar o que estava acontecendo. A única coisa que eu falei, foi: 'Natasha, pede para alguém vir me buscar, eu estou em tal lugar e estou passando mal, estou perdendo líquido'. Foi só isso, eu não falei o que estava acontecendo", relata.

A irmã acreditou que a situação entre Natália e o namorado estava sob controle, ligou para ele socorrê-la no local e, em menos de cinco minutos, o rapaz chegou até lá com um carro que havia emprestado do vizinho. "Eu lembro que ele apareceu lá com um carro, veio me arrastando pelo cabelo, falando: 'Você está passando mal, né? Está passando mal? Então vou te levar para o hospital já que você está passando mal'".

Natália partiu para o hospital com muito medo, principalmente porque o homem não demonstrava nenhuma reação durante o caminho. No pronto-socorro, ela foi atendida rapidamente e disse apenas que havia passado por um momento de estresse, sem entrar em detalhes.

"Eu errei bastante, mas acredito que eu era tão ingênua e estava tão assustada que não conseguia nem relatar à médica o que estava acontecendo. Poderia ter me ajudado muito se eu tivesse falado que eu estava com medo dele me levar embora e me matar, me bater", reflete.

Após ser medicada, ela recebeu alta e, a partir daquele momento, o namorado começou a demonstrar o que estaria por vir. "No meio do caminho ele começou a falar assim: 'Então, quer dizer que tal pessoa foi lá na sua casa, vocês ficaram lá conversando... Então você mentiu para mim, né, Natália, porque você falou para mim que não tinha conversado com ninguém, né'", narra ela.

A confeiteira explicou que não havia feito nada de mais, porém o rapaz não se acalmou. "Na volta para casa, ele acabou me dando um chute e a minha sorte foi de eu ter segurado aquele negocinho do carro porque eu ia cair no meio da pista. E assim eu tentava imaginar o que estava por vir", relata.

Ele tirou a bateria do celular dela e foi junto com Natália devolver o carro aos vizinhos. Na tentativa de pedir socorro, ela fez um bilhete com os dizeres: "Liga para a minha mãe urgente porque ele vai fazer alguma coisa comigo", colocou o número da mãe e entregou à dona da casa. Os vizinhos, porém, não fizeram nada.

"Eu só vou parar depois que eu te ver morta", disse o namorado

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Arquivo pessoal
A jovem se manteve forte diante de toda a situação e relatou, inclusive, que não chorou ao ter o cabelo raspado


Ao chegar à casa do namorado, os dois foram direto para o quarto. Assim que entrou no cômodo, Natália sentiu o que poderia acontecer. "Tinha um espelho enorme e eu olhei para o lado já tinha uma máquina de cortar cabelo ligada na tomada. Ele me chamou e sentou do meu lado e falou assim: 'Eu já não tinha falado, que se você mentisse para mim eu iria fazer com você o que eu menos queria?'. E eu comecei a pedir para ele não fazer nada comigo", conta a confeiteira.

Depois de colocar a jovem sentada em frente ao espelho, o namorado indagou: 'Eu ainda vou te dar escolha: você prefere ficar sem o teu cabelo, porque eu vou raspar ele na zero, ou você prefere perder a sua vida? Porque a minha vontade é de fazer você ter esse filho hoje, mas você me conhece e você sabe que, se eu começar, eu não vou querer parar. Eu só vou parar depois que eu te ver morta'".

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Como resposta, ela disse que ele poderia fazer o que quisesse com o cabelo, desde que não encostasse nela, pelo bem dela e do filho. A carioca ressalta não saber de onde tirou força, mas não chorou em nenhum momento.

"Eu lembro que, conforme ele raspava meu cabelo, perguntava assim: 'Você não vai chorar não? Está gostando do que eu estou fazendo? Quero ver algum homem te achar bonita agora. Quero ver algum homem olhar para você e te querer agora'", diz.

O rapaz ainda fez questão de fotografar Natália após cortar o cabelo dela e postar no Facebook. Ela enrolou na cabeça uma blusa que estava usando e saiu da casa, mas o namorado a "pegou pelo braço" e foi andando com no bairro para mostrar como a menina havia ficado.

O homem só retornou para casa depois que os amigos o criticaram e até brigaram com ele pelo ocorrido. Uma pessoa, inclusive, acompanhou Natália até a casa dela. "As pessoas me viam naquele estado, eu vi mulheres até chorando, mas ninguém fez nada. Ninguém me ajudou, só essa pessoa que veio e me levou em casa", desabafa a jovem.

A família dela ficou arrasada com a situação e rapidamente a levaram na delegacia. "Quando chegamos na delegacia, eu passei muito mal e me levaram, no carro da polícia mesmo, para o hospital. E justamente para o hospital onde eu havia sido atendida mais cedo, e quem estava lá era a médica que me atendeu", relata.

"Elas se emocionaram muito ao me ver naquele estado, e me fizeram um monte de pergunta, o por quê que eu não abri a boca para falar que eu achava que ele iria fazer aquilo... Eu não tinha nem reação", relembra Natália.

Ela prestou depoimentos e o rapaz foi declarado foragido, mas sempre dava um jeito de ligar para ela, então a polícia grampeou o celular da jovem para tentar descobrir a localização. O medo era cada vez mais frequente na vida da carioca e da família dela.

"Lembro que a minha mãe dormia com um facão enorme do lado dela e eu só podia dormir perto dela... A gente viveu dias de tortura e de medo de ele aparecer lá e tentar fazer algo contra mim". Para alívio geral, o ex-namorado se entregou depois de quatro dias e ficou preso por seis meses.

Mais uma chance ao casal, apesar de tudo

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Arquivo pessoal
Natália já havia dado à luz quando decidiu perdoar o ex, mas percebeu que ele não havia mudado

De início, Natália e a mãe dela até acreditaram que o rapaz havia mudado e que estava melhor depois do tempo que ficou recluso e perdoaram ele. "Após uma semana solto, eu pedi muito a ele para irmos em uma igreja", conta a confeiteira.

"Eu comecei a me arrumar, meu cabelo estava curtinho. Ele me viu arrumada e falou: 'Para onde você pensa que você vai assim?'. Eu falei: 'Eu vou para a igreja', e ele falou: 'Não, você não vai para a igreja assim. E essa maquiagem? Para quê se arrumar tanto desse jeito para ir em uma igreja?'", complementa.

Naquele momento ela e a mãe entenderam que o rapaz não mudou e, novamente, o medo tomou conta. Natália começou a trabalhar e o ex-namorado a acompanhava de perto, até que a mãe dela precisou buscar a filha todos os dias.

"Eu cheguei ao ponto de não conseguir olhar mais para ele. Eu tenho até vergonha de falar que voltei com ele depois disso tudo, mas é o que mais acontece, e é nessa que a gente paga para ver e, pagando para ver, é onde chega ao ponto de acontecer a morte da mulher", reconhece a jovem.

Muitos momentos de sofrimento e desespero se passaram até que o homem começou a se relacionar com outra mulher. Pouco depois, em dezembro de 2013, o ex-namorado foi assassinado.

"Foi outro baque para mim, meu filho tinha nove meses na época e as acusações da família dele, dizendo que foi a minha família [que o matou], mas até hoje ninguém sabe de nada, ninguém descobriu nada, e ninguém procurou saber de nada. Eu carreguei o peso da culpa da morte dele durante anos e anos", pontua Natália.

Traumas da adolescência viram sofrimento na vida adulta

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Arquivo pessoal
A carioca ainda sente os efeitos do trauma, mesmo após seis anos, e sofre de depressão: "Vivo chorando, me lamentando"


Na época, a jovem não procurou ajuda psicológica e sente que os traumas da adolescência vieram à tona agora, na fase adulta. "Só a minha família, minha mãe, meu marido, meus irmãos e meus filhos sabem o quanto eu estou debilitada, ao ponto de não conseguir sair de dentro da minha casa porque eu estou em um quadro de depressão. Eu vivo chorando, me lamentando", comenta ela.

Segundo a psicóloga Cláudia Puntel, o que acontece com Natália Mauadie é conhecido como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). "É uma pessoa que, enquanto ela estava vivendo a violência, provavelmente não conseguiu nem confrontar e nem fugir. Então, ela dissociou e congelou e enfrentou essa situação como se ela tivesse conseguido dar conta disso, mas foram inúmeras situações traumáticas repetitivas", explica Cláudia.

Um relacionamento abusivo pode gerar baixa autoestima, falta de coragem de fazer as coisas, ausência de autoconfiança, sensação de ser insuficiente, inadequação, entre outros sintomas. Claudia diz que a melhor forma de superar os traumas é se cercar de pessoas boas. "Buscar vínculos nutritivos que ajudem ela a se confirmar como pessoa, pra ela poder rever seu valor. Pessoas que a valorizem, que a amem, onde ela se sente acolhida, que pode relaxar e confiar", destaca a psicóloga.

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Palavras de ordem: amor, força e união

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Arquivo pessoal
Natália Mauadie sonha em poder ajudar outras mulheres a se recuperarem de um relacionamento abusivo

Agora Natália deu a volta por cima, está casada e sonha em ajudar outras mulheres a superarem um relação abusiva . Ela salienta que é importante ter amor próprio e ser forte para abandonar tudo o que faz mal.

Além disso, a carioca clama para que as mulheres registrem denúncias e fortaleçam umas às outras, até para evitar o feminicídio .

"Peçam ajuda porque, se você ficar calada, não vai ter como mostrar para outras pessoas que você está querendo ajuda, que você não sabe como sair desse relacionamento. Do fundo do meu coração, não permitam que ninguém mande em vocês. Não permitam que ninguém tente ofuscar o brilho que as mulheres têm nos olhos, no coração, acreditem sim que vocês vão vencer", completa Natália Mauadie.