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"Sempre disse para ele que não sentia nada por ele", diz Carla*.


Quando Carla*, 53, tinha 22 anos, trabalhava como  garota de programa em uma boate para sustentar seu filho de 2 anos. Na época, morava com as irmãs e passava as noites bebendo e conversando com os homens que frequentavam o bar.

Certa noite, um homem perguntou se Carla tinha vontade de mudar de vida e se ofereceu para alugar uma casa para ela e o filho morarem. Um mês depois, este homem apareceu com uma mala cheia de roupas. De uma hora para outra, ela passou a dividir o teto com o desconhecido. Começou aí o que seriam duas décadas de um casamento por conveniência .


Ao longo dos vinte anos, ela afirma ter tido uma vida infeliz, sem carinho e por conveniência. Durante esse tempo, os dois tiveram mais dois filhos. Carla tolerou o abuso de bebidas alcoólicas por parte do marido, que chegou a agredi-la fisicamente. “Nesses momentos ele dizia ‘eu te amo’, e eu dizia ‘mas eu não te amo, você sabe disso e eu não vou te mentir”.

Ao iG Delas, Carla relata como foi a experiência de viver um casamento de fachada, que ela define como um “casamento sem amor” e “anos de sufoco”. Leia o relato a seguir.

“Eu trabalhava em uma boate há quatro meses quando o conheci. Tinha um filho de 2 anos, estava recém-separada e morava com as minhas irmãs. Um dia, ele foi beber com minhas irmãs e elas me convidaram para ir junto. Durante a conversa, ele perguntou onde eu trabalhava e o levei até a boate. ‘Você faz programa?’, ele perguntou. ‘Não, eu só bebo muito com os homens’, eu respondi. Nessa época eu estava lidando com alcoolismo.

Passamos a conversar bastante, mas não transamos nem nada. Ele perguntou se eu gostava de trabalhar lá e eu disse que não, que queria sair. No outro dia, a mãe dele me mandou recado dizendo que eu deveria ir ao centro da cidade, onde ele trabalhava, para tirar meus documentos, que ele me daria o dinheiro.

Duas semanas depois, ele mandou eu procurar uma casa para alugar para morar sozinha com meu filho. Me deu todo dinheiro e eu aluguei a casa. Um mês depois, ele apareceu na porta com uma mala de roupas, perguntando se eu tinha espaço para guardar lá. Achei que fosse mercadoria, porque ele era vendedor ambulante. Quando abri vi que eram roupas dele. Ele veio morar comigo sem me avisar.

Nós éramos totalmente estranhos desde o começo. Eu fiquei sem entender nada, pensando ‘meu Deus, ele veio morar comigo’. Foi nesse momento que a gente transou pela primeira vez. E aí ele morou comigo por 20 anos.

Eu era muito cabeça fraca, novinha. Fui criada sem mãe, porque ela me abandonou. Meu pai tentou abusar de mim e saí de casa. Fui estuprada pelo pai do meu primeiro filho, apanhei muito dele. Então vi que aquilo era uma alternativa, fui empurrando. Passei a diminuir a bebida, porque esse meu marido bebia demais e eu pensava muito no meu filho.

Apesar disso, ele foi um pai maravilhoso para o meu filho, tanto que até hoje ele é chamado de pai, mesmo sabendo que não é o pai dele de verdade. Meu filho é mais próximo dele do que de mim. Quatro anos depois eu tive uma filha. Oito anos depois dela, tive outro menino. Ele dizia para os meus filhos: ‘a sua mãe não gosta de mim, veio viver comigo para dar um lar para o teu irmão’.

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Sempre disse para ele que não sentia nada por ele. Não tinha sentimento, não tinha amor, mas mesmo assim sempre respeitei ele. Eu não aproveitei a minha vida, nunca saí, sempre tive aquela dor dentro de mim por não ter amado.

Todo mundo sabia que ele bebia e nesses momentos ele dizia ‘eu te amo’, e eu dizia ‘mas eu não te amo, você sabe disso e eu não vou te mentir’. Mas quando ele estava bêbado ele também dava em cima de outras mulheres na minha frente. Nunca aconteceu troca de carícias, aquela coisa de dar um carinho, de dizer que me ama ou que algo caía bem em mim, que eu tava bonita. Ele  chegou a me trair com outra mulher e isso não foi algo que alguém me contou, foi algo que eu vi.

Aí quando deu 17 anos de casamento ele me agrediu. Me deu um soco. ‘De hoje em diante, terminou tudo que poderia ter entre a gente’, disse para ele. Eu fui vivendo aquela vida por viver. As pessoas sabiam de tudo, mas quando perguntavam se a gente tava bem eu sempre dizia que sim.

Cheguei a entrar em uma depressão profunda. Tentei me suicidar quatro vezes, perdi todos os meus dentes, envelheci. Tudo o que eu queria era morrer porque eu nunca tinha tido amor, não queria suportar mais isso.

Agora tem 11 anos que nos separamos. Depois da separação eu fui feliz, aí que eu tive paz. Depois dele tiveram outros casos com outras pessoas às quais eu me apeguei. Me apeguei e namorei sem morar com nenhum deles. Teve um homem que me conhecia quando eu era nova mas não conseguiu ficar comigo por causa do casamento. Saímos quando tivemos oportunidade.

Agora estou namorando com um homem há três meses, vim para a casa dele passar um fim de semana e estou aqui até hoje. Eu trouxe só algumas peças de roupa, ainda tenho minha casa, é tudo independente.

Hoje posso dizer que, infelizmente, conheci o sentimento do amor. Infelizmente porque aprendi que dói e nunca imaginei que amar fizesse a gente sofrer. Quando eu entro em alguma situação eu vou de cabeça, sou muito profunda e muito romântica. Sempre tive aquele sonho de ter uma pessoa que realmente me amasse. Parece bobeira da minha cabeça, mas para mim é algo muito importante

Quando ele me pediu em namoro eu fui sincera e disse: ‘Eu nunca amei, mas eu já te cuido há meses e sinto um amor muito grande por ti’. Ele tem minha idade e retribui o sentimento. Se mostrou uma pessoa totalmente dedicada, carinhosa. Para você ter ideia, eu não ia ao cinema desde que tinha 18 anos e ele me levou. Também me convidava para tomar um chimarrão e dar uma volta na praia.

Dos últimos meses para cá eu tenho sentido ele frio, meio distante, não me chama mais para sair. Ele tem alguns problemas de saúde e está sempre com dores. Eu cheguei a confrontá-lo e ele disse que era só uma impressão minha, minha nora e os filhos dele dizem o mesmo porque sabem que ele me ama. Mas tenho medo, sou uma pessoa muito insegura.

Eu tenho medo de ter outro casamento de fachada, de de repente pegar uma traição.  Todo mundo que o conhece há anos diz que ele não era assim, que ele é quem foi muito traído pela ex-mulher. Essa insegurança dói demais e eu sofro muito.

Meu casamento foi incompleto porque a gente não se entendia em todos os sentidos, mas naquele caso já tinha começado daquele jeito, ficamos por conveniência. Agora é diferente. Entrei no relacionamento porque uma pessoa demonstrou sentimento por mim. Mas isso ia ter que acontecer em algum momento, né? Acho que vale a pena no fim das contas. Vale a pena tentar ser feliz.”

*Este nome foi alterado para preservar a identidade da fonte.

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