Lésbicas e bissexuais devem ter um atendimento ginecológico de qualidade
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Lésbicas e bissexuais devem ter um atendimento ginecológico de qualidade



No sexo entre um homem e uma  mulher cis existe um item fundamental para proteger contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs): a camisinha . Já na relação entre  duas mulheres cis o sexo e a  anatomia são bem diferentes. Por isso, o sexo seguro deve levar em conta como se prevenir de infecções durante o sexo oral, penetração e na famosa tesourinha.




Primeiramente, é necessário desmentir a ideia de que apenas relações com pênis estão suscetíveis a ISTs. A ginecologista, obstetrícia e sexóloga-terapeuta Ana Lúcia Cavalcanti explica que as mulheres podem transmitir infecções durante as relações lésbicas. O mesmo ocorre numa relação hétero entre uma mulher cisgênera e um homem trans .

“A prática sexual de pessoas com vulva é suscetível a transmissão de IST, por meio de sangue, troca de secreções, sexo oral, contato entre os genitais e compartilhamentos de brinquedos”, diz. Apesar disso, há pouquissímas ferrramentas disponíveis sexo seguro para pessoas que tem vagina.

“Nós vivemos numa sociedade patriarcal, de padrão heteronormativo. A invisibilidade das mulheres lésbicas se expressa no cotidiano. Isso explica as poucas pesquisas sobre a sexualidade e produtos para prevenção de IST para mulheres que fazem sexo com mulheres”, explica a ginecologista.

Quais são os riscos?

A ginecologista explica que durante o sexo lésbico (ou entre pessoas com vulva) podem ser transmitidos sífilis, hepatite, clamídia, gonorreia, herpes, HPV e HIV. O sexo oral também está sucetível à transmissão de ISTs, entretanto a transmissão de HIV e a Hepatite B é baixa. Já no contato vulva-vulva, podem ser transmitidos herpes, sífilis, HPV e HIV, além de verrugas genitais. 

O contato de dedo-vulva ou dedo-ânus, há a possibilidade de transmissão de infecções como HIV e hepatite B ou C. “Quando há contato entre o sangue das parceiras, causado por pequenos traumas na introdução do dedo, pode haver transmissão de hepatite B ou C”, explica.

Confira os sintomas e o modo de transmissão de cada ISTs:

Sífilis 

Causada pela bactéria Treponema pallidum. Pode apresentar várias manifestações clínicas e diferentes estágios. A sífilis primária apresenta uma ferida única, na vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca, pênis  ou outros locais da pele, que aparece entre 10 a 90 dias após o contágio. Essa lesão é rica em bactérias, não dói, não coça, não arde e não tem pus. Meios de contaminação: sangue, posição tesoura, oral e brinquedos sexuais (vibradores e outros sex toys). 


Clamídia 

Clamídia é uma bactéria, que na maioria das vezes atinge os órgãos genitais, mas pode afetar também a garganta e os olhos. É a principal causa do incômodo inflamatório pélvico. Meios de contaminação: posição tesoura e sex toys.


Gonorreia

A gonorreia é causada por uma bactéria, a Neisseria gonorrhoeae. Causa infecções na uretra, ânus, colo do útero e vagina. Meio de contaminação: posição tesoura e brinquedos sexuais.


Hepatite

A hepatite B causada pelo vírus HBV no geral não apresenta sintomas e evolui lentamente. Atinge maior transmissão através do sexo e contato sanguíneo e secreção vaginal. Meio de contaminação: sangue e brinquedos. 

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Herpes simples - vírus tipo 1 e tipo 2

Apresenta lesões nos genitais e pode ser adquirido por via sexual, provoca lesões na pele e nas mucosas dos órgãos genitais. A infecção pelo herpes vírus 1 e/ou 2, são lesões elevadas que evoluem para vesículas, dolorosas e de localização variável na região genital. Após os rompimentos das vesículas surgem pequenas úlceras arredondadas. Meio de contaminação: posição tesoura, oral e brinquedos.

HPV  

Abreviação em inglês para papilomavírus humano, são infecções genitais transmitidas predominantemente por via sexual. Nas mulheres, elas podem espalhar-se por todo o trato genital e alcançar o colo do útero.Com mais de cem tipos diferentes, alguns contaminam a pele, outros contaminam preferencialmente as mucosas. Meio de contaminação: sexo oral, posição tesoura, brinquedos.

HIV

HIV é o vírus da imunodeficiência humana que causa a Aids. A ginecologista explica que estudos demonstram que o contato sexual de mulher para mulher é considerado uma prática de menor risco para o HIV. Ainda que o risco seja relativamente baixo, os atos sexuais entre mulheres não são isentos da transmissão do vírus. O compartilhamento de brinquedos sexuais ou pequenos ferimentos que apresentam sangramento podem ser a fonte de transmissão. Meio de contaminação: posição tesoura, sangue e brinquedos.

Como se proteger durante o sexo lésbico?

O momento de perda da virgindade pode ser um motivo de dúvida para as mulheres lésbicas e bissexuais
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O momento de perda da virgindade pode ser um motivo de dúvida para as mulheres lésbicas e bissexuais



De acordo com a Dra. Ana Lúcia Cavalcanti, a prevenção começa com os exames periódicos e idas ao ginecologista.

A médica aconselha evitar o contato com sangue menstrual e lesões genitais visíveis, pois é um dos principais meios de transmitir ISTs. Então nada de transar durante o período menstrual.

Durante a penetração com dedos ou briquedos, a médica recomenda sempre lavar as mãos antes das relações e ter as unhas cortadas e limpas. O brinquedo deve ser usado com camisinha e não alterar entre vulvas e ânus sem antes trocar o preservativo. Para o dedo, é possível usar luvas. “Existem no mercado capas para dedo, as dedeiras, de látex”, diz.

O sex toy após e antes do uso deve ser lavado com água e sabão. “Se o brinquedo for usado por duas pessoas, deve-se fervê-lo ou esteriliza-lo, principalmente os de uso anal”, explica. Ela aconselha a utilizar lubrificantes a base de água para não alterar pH da vagina  e não ter risco de degradação do material do brinquedo. 

Durante o sexo oral, a situação já é mais difícil, já que não há no mercado produtos específicos para essa prática. É recomendado a higiene das mãos, da boca e genitália. Como plano B, a médica comenta o Dental Dam, um produto usado em tratamentos odontológicos, uso de plástico filme e  preservativos masculinos ou femininos cortados na metade em forma de barreira para o sexo oral.  

Dental Dam: produto usado por dentistas, mas plano B para sexo oral
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Dental Dam: produto usado por dentistas, mas plano B para sexo oral


Enquanto ainda faltam opções de proteção durante o sexo lésbico, o importante é se cuidar e cuidar da outra. Caso esteja com suspeita de alguma IST, vá ao ginecologista, faça exames sorológicos e informe com quem você mantém relações. Além de evitar a transmissão, você exerce o autocuidado e o cuidado com quem você gosta.

É importante lembrar que também existem mulheres trans lésbicas. Nesse caso os cuidados devem ser os mesmos adotados nas relações heterossexuais, com o uso do preservativo para evitar ISTs e gestações indesejadas (no caso de uma relação entre uma mulher trans e uma mulher cis). 

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