O momento de perda da virgindade pode ser um motivo de dúvida para as mulheres lésbicas e bissexuais
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O momento de perda da virgindade pode ser um motivo de dúvida para as mulheres lésbicas e bissexuais











“Era a primeira vez que ia naquele ginecologista. O médico começou a me fazer algumas perguntas até que quis saber se tinha namorado. Eu respondi: ‘Não, tenho relações sexuais com mulheres’”, conta a enfermeira Beatriz Furlanetto, de 23 anos. 

“Então você é virgem”, respondeu o médico. “Ele me ignorou totalmente e não me olhou mais nos olhos. A consulta deve ter durado uns 30 minutos porque mal conversamos. Ele estava extremamente desconfortável comigo e eu com ele”.




Após essa situação, Beatriz passou por mais duas  consultas ginecológicas e sempre era questionada sobre relações com homens. “Quando eu dizia que só me relacionei com mulheres, a pergunta era sempre a mesma: ‘Você é virgem, né?’”. 

Casos como a de Beatriz são comuns entre mulheres lésbicas e bissexuais , que relatam histórias de preconceito e desinformação sobre a virgindade e orientação sexual dentro e fora do consultório. 


Virgindade é uma construção social

O conceito da virgindade está há décadas ligada à penetração do pênis na vagina e ao rompimento de uma pequena membrana conhecida como hímen. O momento de perda da virgindade pode ser um motivo de dúvida para as mulheres lésbicas e bissexuais.

Para a estudante Elisa Bachega, de 23 anos, o processo de perder a virgindade a deixava apavorada. “Nunca me imaginei com um homem e não tinha noção nenhuma de como era transar com uma mulher. Mais velha, eu já sabia como funcionava, mas eu nunca senti vontade de penetração”, conta a estudante.

“Minha primeira vez foi com uma menina e ela foi um amor, disse que não precisava de penetração para transar, coisa que até o momento eu achava que era essencial. Por muito tempo eu me sentia insegura em falar que não era virgem porque tecnicamente eu tinha hímen”, explica.

Quando jovem, a fisioterapeuta Thalita Gondim, de 28 anos, também acreditava que a penetração era o ponto essencial para a perda da virgindade. “Eu sofria uma pressão religiosa de que eu precisaria casar virgem e, caso isso não acontecesse, eu poderia ser punida por Deus. Namorei uma menina escondida, mas nossas relações não podiam ter penetração, até porque, pela falta de informação, eu também acreditava que a virgindade se tratava apenas do hímen”, relembra.

Thalita conta que as relações com penetração aconteceram apenas depois do casamento com seu atual marido. “Dessa maneira poderia dizer que casei ‘virgem’”, relembra a fisioterapeuta.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde, a virgindade é uma construção social, cultura e religiosa que reflete a discriminação de gênero contra as mulheres. “A expectativa social de que meninas e mulheres devem permanecer virgens é baseada em noções estereotipadas de que a sexualidade feminina seja restringida no contexto do casamento”, afirma em artigo. 

A ginecologista Ana Thais Vargas, voluntária da Casa 1 -- centro de acolhida para a população LGBTQIA+ em São Paulo -- acrescenta que o termo virgindade não deve ser usado na área médica. 

“O médico até consegue identificar quando o hímen está rompido, mas isso não significa nada. Perder a virgindade não significa ter sexo com penetração. Têm meninas que nascem sem hímen e algumas que nascem com hímen totalmente fechado”, explica Vargas.

Sexo lésbico não é preliminar

A visão de que relacionamento sexual entre mulheres não é sexo, e sim preliminar, prejudica também as mulheres lésbicas e bissexuais quando buscam por um atendimento ginecológico. 

A estudante Anita Godoy*, de 27 anos, relata que após se relacionar sexualmente pela primeira vez com uma mulher, a ginecologista se recusou a realizar exames de ISTs. “Disse que não se pegava IST em relações entre duas mulheres e que era completamente desnecessário. Tive que recorrer à médica da família para conseguir fazer os exames”, lembra.

Elisa afirma que já passou pela mesma situação. “Nunca me passaram nenhum exame e é bem frustrante. Eles falam que eu não preciso porque nunca tive relação com penetração”, diz.

Além disso, é comum os relatos de mulheres lésbicas que foram orientadas a tomar pílula. “Eles sempre assumem que sou hétero. Normalmente eu tenho que falar que sou lésbica porque, como eu tenho ovários policísticos, sempre falam para eu tomar anticoncepcional para regular a menstruação e proteger de uma gravidez”, comenta Elisa. 

“Quando eu digo que sou lésbica, eles ficam: ‘Então o que você gostaria de fazer aqui hoje?’ Como se eu não tivesse motivo para estar lá”, detalha.

Segunda a ginecologista Ana Thais Vargas, os médicos devem pedir que as mulheres lésbicas e bissexuais realizem todos os exames na mesma periodicidade que as heterossexuais, já que as infecções sexualmente transmissíveis podem ser transmitidas durante as relações sexuais entre duas mulheres.

“Mesmo que você use os dedos ou que não tenha penetração, se tem troca de secreção você pode contrair um HPV, por exemplo, que é responsável pelo câncer no colo de utero”, explica.

Caso nunca tenha havido penetração, a ginecologista explica que a coleta do papanicolau deve ser feita mesmo assim, existem equipamentos específicos que podem ser utilizados para não gerar incômodo na paciente. 

“As mulheres lésbicas e bissexuais devem ser atendidas e tratadas dentro dos protocolos. Todas merecem e precisam de um atendimento de qualidade e é responsabilidade do profissional de saúde estudar para poder cuidar melhor dos pacientes de diversas identidades de gênero e orientações sexuais.”

Lésbicas e bissexuais devem ter um atendimento ginecológico de qualidade
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Lésbicas e bissexuais devem ter um atendimento ginecológico de qualidade



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