Entenda porque as mentiras que as mulheres contam são diferentes das mentiras que os homens contam

Mentira: mulheres e homens têm razões
diferentes para dissimular
Getty Images
Mentira: mulheres e homens têm razões diferentes para dissimular
“Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?” A indagação de Caetano Veloso na música “Dom de Iludir” contempla a natureza da mulher em sua essência. Isso não quer dizer que os homens estejam absolvidos. Mentir é um ato humano. Os animais não mentem. Eles enganam, como a fêmea do chupim que põe seus ovos em ninho alheio. Tapeiam, como as asas da borboleta que imitam olhos de um predador. Disfarçam, como certos peixes que se encobrem de algas. Mas a mentira, esta sim é um “privilégio” exclusivo dos seres humanos.

No geral, o sexo masculino a usa para “contar vantagem”, para ganhar respeito, poder. As mulheres mentem para ganhar tempo ou para tentar saber, antes de responder, o que você espera que elas digam. Durante o período medieval, a inquisição acusava as mulheres pelo poder de provocar o desejo e seduzir. Quem não se lembra da lenda do canto da sereia que atraía os marinheiros para se afogarem no mar?

A cantora Tatiana Rocha, 42 anos, fez uma seleção em seu blog de algumas pérolas que a mulherada não se cansa de dizer por aí: “Fui eu mesma que preparei o jantar. Gostou? Adoro seus amigos. Oh, você é o único que faz isso comigo”, cita ela.

Mulheres mentem a idade, inventam paqueras imaginárias para dizer que são desejadas. “Por isso a mentira feminina é gratuita e ofensiva. Não porque ofenda mais que a masculina, mas porque está centrada no outro, não na preservação de si”, diz o psicanalista Christian Lenz Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP. Ele explica que os três antônimos da verdade – inexatidão, irrealidade e ilusão – aparecem combinados na mentira feminina, como um instrumento para descoberta do desejo do outro e daí do próprio desejo. Aí que a mentira feminina se diferencia da masculina, pois tem a ver com ser, e não com ter.

Perna curta
“Estava voltando a ficar com uma garota e ficando com um menino ao mesmo tempo. Um dia desmarquei um encontro com ela, inventei uma desculpa e saí com ele. Quando estávamos no carro, paramos no sinal e ela estava esperando para atravessar a rua, bem na minha janela”, conta a vendedora Carolina Souza*, 26 anos, prova concreta de que mentira tem perna curta!

Este tipo de artifício – que pode até sustentar uma traição – não é exclusividade das mulheres. “Ela é uma fantasia cuja satisfação é ignorada pelo próprio mentiroso. O prazer de levar vantagem, como sair sem pagar a conta, de causar mal estar, sem ser responsabilizado por isso é apenas um tipo de covardia moral, que em geral termina em depressão”, adverte Christian.

A maior de todas as verdades é que todo mundo mente. Para escapar de uma comemoração com o chefe da empresa, para não enfurecer o marido, para não se constranger com os filhos, para alegrar a amiga. A famosa “mentirinha do bem” não é percebida pela pessoa que mente.

Sinal de alerta
O grau de periculosidade da mentira aumenta quando se torna um meio de vida. Aqui é preciso cuidado. “Este é o nível do ciúme delirante, da invenção de histórias irreais sobre si próprio, da compulsão, no qual tudo o que contrarie ou desminta é recebido agressivamente como ofensa pessoal”, exemplifica o psicanalista.

Por último vem o estágio das distorções de imagem corporal, que terminam nas cirurgias plásticas sem fim, no qual o sujeito vive sua vida como um personagem, acreditando de tal forma nesta identificação que nada pode abalar esta “verdade”. Os fanatismos políticos, religiosos ou estéticos se inserem nesta categoria e trazem consigo o desejo de impor e proliferar esta mentira”, acrescenta.

A corretora Janete Ribeiro*, 30 anos, jura para o namorado que nunca praticou sexo anal. “Tem toda uma questão de posse. Faço um charminho – apesar dos pedidos dele – e ele se sente especial. Além disso, posso até fazer uma chantagenzinha: só faço se você fizer aquilo”, revela a moça.

Em suma, mentimos para os homens como forma de tentar saber se eles de fato sentem o que dizem, se de fato amam, é uma forma de fazê-los reafirmar sua posição. “Mentir para outra mulher é mais complicado, e mais tipicamente feminino, pois é uma forma de descobrir o que ela quer sem ter que dizer o que quer. Esta forma de mentira tem a estrutura de um blefe”, distingue o especialista. Os homens que se cuidem nas mesas de pôquer!

Dicas para desmascarar um mentiroso

- A voz fica com uma impostação mais grave e séria

- A pessoa tenta ganhar tempo com interjeições do tipo “veja bem”

- Surgem indicadores de ansiedade: mexer nos cabelos, arrumar a roupa, tocar o rosto, coçar a cabeça

- O olhar oscila, geralmente desviando-se dos olhos do interlocutor. A tensão aumenta ou diminua a pupila, daí a conhecida expressão: “diga-me olhando nos olhos”

- A postura corporal se agita

- Pode haver agressividade e a inversão de posição, quando o mentiroso se coloca no papel de vítima


* Nomes trocados a pedido das entrevistadas

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.