Gestação psicológica é doença, mas caso da falsa grávida de quadrigêmeos pode ter outra explicação

Nos primeiros dias do ano, uma moradora de Taubaté, cidade do interior de São Paulo, afirmou estar grávida de quatro meninas. O fato gerou interesse instantâneo, já que a gravidez de quadrigêmeos univitelinos é bem rara. Os pais e o marido de Maria Verônica dos Santos, 25 anos e dona de uma escola infantil, demonstraram muita satisfação com a gestação e emissoras de televisão exibiram as imagens do exame de ultrassom dos quatro bebês e os preparativos para o nascimento. Mas o caso sofreu uma mudança radical esta semana. Maria Verônica não está grávida. O advogado Enilson de Castro, que representa a dona da escola, admitiu, em entrevista coletiva concedida nesta sexta-feira (20), que a gravidez era uma farsa.

Maria Verônica: advogado admite que gravidez de quadrigêmeos era uma farsa
AE
Maria Verônica: advogado admite que gravidez de quadrigêmeos era uma farsa
Wilson Vieira de Souza, médico ginecologista de Maria Verônica, confirmou que na última consulta da falsa gestante, no final de outubro de 2011, ela apresentou um ultrassom que não condizia com o exame de uma mulher grávida. “Ela não estava grávida quando se consultou comigo. Não tem possibilidade do exame estar errado”, afirma.

A Polícia Civil também entrou no caso e pediu, na última terça-feira (17), um exame para comprovar a suposta gestação, já desmentida. O pedido foi feito após o marido da pedagoga registrar boletim de ocorrência contra uma emissora de TV.

Gravidez psicológica

Mas, afinal, o que leva uma mulher a mentir uma gravidez? De acordo com Joel Rennó Jr., médico psiquiatra diretor do ProMulher – Programa de Saúde Mental da Mulher – desenvolvido pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), é prematuro emitir opiniões específicas sobre o caso de Taubaté, mas ele explica que algumas mulheres apresentam a condição de pseudociese, mais conhecida como gravidez psicológica.

“Antes de pré-julgar a mulher que se disse grávida de quadrigêmeos, precisamos estabelecer que não conhecemos o histórico, tanto de saúde quanto psíquico, dela”, aponta o médico. Para ele, se este fosse um caso de gravidez psicológica, Maria Verônica acreditaria mesmo estar esperando quatro bebês. “Mulheres com gravidez psicológica têm uma crença efetiva, quase delirante, de que estão realmente grávidas. Pode ser uma mulher com muito desejo de engravidar ou o contrário, um medo enorme de passar por uma gestação”.

A médica psiquiatra Renata Camacho atende gestantes com depressão no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Ela explica que a mulher em uma pseudogravidez chega a ter aumentado o volume abdominal e das mamas e é capaz de produzir leite. “Mesmo confrontada com exames, essa mulher dificilmente vai aceitar que não está grávida. Ela vai precisar passar por um trabalho psicoterapêutico intenso. A gravidez psicológica é uma patologia”.

Leia também: polícia pede exame para grávida de quadrigêmeos comprovar gestação

O ultrassom de Pietro, filho de Ana Paula...
Arquivo pessoal/Ana Paula Muckenberger Alves
O ultrassom de Pietro, filho de Ana Paula...
... e o ultrassom apresentado por Maria Verônica em reportagem na TV
Reprodução
... e o ultrassom apresentado por Maria Verônica em reportagem na TV
Simulação

Outra hipótese para explicar uma gravidez forjada é o que os médicos chamam de simulação. Trata-se de um fingimento de uma doença de forma bastante consciente. A pessoa simula estar com algum problema e consegue, muitas vezes, enganar todos que convivem com ela. “A gravidez não é uma doença, mas fingi-la pode se enquadrar em um diagnóstico de simulação”, esclarece Renata.

Pessoas que simulam uma doença ou condição normalmente o fazem em troca de um benefício. Pode ser um ganho material, afetivo ou mesmo social. “Nem sempre o interesse é só dinheiro. Pode ser atenção ou afeto. Quem simula sabe estar enganando as pessoas ao seu redor. No caso de uma gravidez, a mulher pode induzir vômito, fingir não estar menstruada e, inclusive, falsificar exames que comprovem sua condição”, diz Renata.

Ultrassom roubado duas vezes

Foi o que a mulher que se dizia grávida de quadrigêmeos fez, segundo a administradora de empresas Ana Paula Muckenberger Alves, 29. “Maria Verônica mostrou um ultrassom como sendo das suas quatro filhas, mas esse exame na verdade é meu”, afirma Ana Paula, mãe de Pietro Rhuan, hoje com um ano e quatro meses. Ela teve as imagens da ultrassonografia do filho roubadas duas vezes.

Ana Paula recebeu um email de uma desconhecida alertando que seu exame estava sendo usado por outras grávidas. A primeira vez foi num fórum de discussões voltado para mães. A mesma pessoa contou também que a falsa grávida de quadrigêmeos de Taubaté estava usando o mesmo exame em suas entrevistas.

“Fiquei abismada. Não consegui entender o que estava acontecendo. Não sei o que ela queria com isso. Até tentei entender o que se passava pela cabeça dessa mulher, mas não me parece uma coisa normal”, afirma.

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