Os riscos de fumar "socialmente"

Pesquisa mostra que mulheres são mais adeptas do hábito que pode ser nocivo como fumo diário

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

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Especialistas dizem que "fumar só quando bebo" também é prejudicial à saúde
O “não” respondido após a pergunta “você fuma?” pode esconder um hábito eventual que afeta a saúde de forma parecida com os danos provocados pelos cigarros consumidos todos os dias.

Não são poucos os que dizem fumar apenas aos sábados e domingos, quase sempre em parceria com a ingestão de copos e mais copos de cerveja, situação que expõe o organismo às mesmas substâncias tóxicas do tabaco.

A diferença é que o fumante de todo o dia sabe que está em um grupo de risco. Já o autointitulado “fumante social” imagina estar mais protegido da extensa lista de problemas associados ao tabagismo, que inclui câncer, doenças respiratórias, alergias e até infarto.

O primeiro indício de que as baforadas eventuais são mesmo um problema de saúde é que o tema já faz parte das pesquisas científicas. A grande preocupação dos especialistas é que o fumante “de vez em quando”, em geral, quando se propõe a fumar, consome muitos cigarros.

O Instituto do Câncer da Austrália quis mapear o hábito com 800 fumantes e identificou que, na faixa etária entre 18 e 24 anos, 65% dizem fumar mais em um único dia da semana, em geral o sábado. Entre os fumantes sociais, 56% deles eram mulheres e que quase metade (49%) já chegou a fumar 30 cigarros em um único dia (mais de um maço).

A quantidade excessiva de nicotina em um único dia é chamada de “binge” nas pesquisas internacionais – termo que pode ser traduzido ao português como “fumante pesado”.

“Infelizmente, muitas pessoas que fumam uma vez por semana ou só socialmente não percebem que o risco de câncer é tão alto quanto fumar regularmente”, disse Anita Dessaix, gerente do Instituto de Prevenção ao Câncer da Austrália no paper divulgado sobre o estudo.

“Pesquisas internacionais já têm evidenciais de que fumar e beber simultaneamente aumenta de forma significativa os cânceres de cabeça, pescoço e faringe”, completou.

Não é só câncer

A cardiologista do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração, Tânia Ogawa, diz que associar o cigarro a estes momentos de prazer faz com que os pulmões e o nariz sejam os prejudicados de forma imediata.

“Fumar um maço no sábado ou domingo pode provocar intoxicações. Já tivemos relatos de náuseas, tontura, vômito como se fosse uma ressaca”, diz ao completar que a definição de dependente de nicotina não serve apenas para quem fuma diariamente.

“Temos alcoolistas que só bebem de final de semana, assim como dependentes de cigarro que só fumam aos sábados. Se a pessoa não consegue não fumar quando sai para se divertir já pode ser um sinal”, diz.

A pneumologista do Hospital do Coração, Silvia Cury, acrescenta que não há dosagem segura de consumo de cigarro. “Não importa a quantidade para o dano”, afirma ao citar como referência a pesquisa feita pelo Instituto Nacional do câncer (Inca) que calculou os prejuízos provocados pelo fumo passivo. Segundo a entidade, só o fato de aspirar a fumaça do outro fumante faz com que sete pessoas não fumantes morram por dia no País.

A avaliação é que, se o fumo passivo já é tão “poderoso”, o eventual também é suficiente para potencializar problemas graves, em especial alergias, asmas, bronquites e rinites

Além do happy hour

Engana-se quem pensa que o “fumar pesado” pode aparecer só em situação de happy hour. Com as restrições do uso do cigarro em bares, restaurantes e casas noturnas – determinação garantida por lei em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Curitiba e em outras cidades brasileiras – o consumo de muitos cigarros em pouco tempo pode surgir em meio ao expediente.

Em frente ao Conjunto Nacional, prédio na Avenida Paulista, centro de São Paulo, diariamente entre 8h e 18h, passam exemplos do mau hábito. Pessoas acendem um cigarro no outro, imediatamente, para compensar a saída para fumar.

“Descer do escritório quatro, cinco vezes para fumar complicou a vida do fumante, sabemos disso. Em casos de compulsão, alguns preferem em uma saída fumar três cigarros, como se pudessem fazer reservas”, afirma a médica Maria Cristina Megid, coordenadora do Centro de Vigilância Sanitária, responsável pela fiscalização da lei antifumo paulista.

“O que precisamos alertar é que isso pode trazer um efeito desastroso para a saúde, de intoxicação mesmo, além de todos os males já conhecidos do tabagismo.”

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