Partos cirúrgicos superam naturais pela primeira vez no País e estão 37 pontos acima do indicado pela Organização Mundial de Saúde

Gestante a ter suas escolhas respeitadas
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Gestante a ter suas escolhas respeitadas
As mulheres brasileiras estão optando por cesarianas em vez de partos normais no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2010, pouco mais da metade dos partos no País foram cirúrgicos: 52% do total de 3 milhões. O percentual supera – e muito – o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 15%.

 Os índices crescentes – em 2009, as cesarianas já representavam metade dos partos brasileiros – preocupam especialistas e o próprio Ministério da Saúde. Além dos riscos para a mãe, os médicos acreditam que as cesáreas podem ser responsáveis pelo crescente número de bebês nascidos com baixo peso.

Por comodidade, médicos e pacientes marcam a cirurgia com antecedência. No entanto, mesmo no período correto para o parto (a partir de 38 semanas), o bebê pode não estar pronto ainda, alerta José Fernando Maia Vinagre, presidente da Comissão de Parto Normal do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Vinagre diz que muitos bebês nascem antes da formação completa. Além do baixo peso, os recém-nascidos podem ter problemas respiratórios e ter de passar por Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ele lamenta que o método tenha se tornado “normal” em vez do parto natural.

“Queremos que, pelo menos, a mulher entre em trabalho de parto antes de fazer uma cesariana. A fisiologia do trabalho de parto é importante para a mãe e o bebê. Muitas internações poderiam ser evitadas caso as crianças estivessem na idade correta para nascer”, afirma Vinagre.

Ainda não há dados claros sobre a relação entre as cesarianas e o número de bebês prematuros e com baixo peso nascidos no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, na última década, o percentual de crianças nascidas com menos de 2,5 kg (baixo peso) teve ligeiro aumento. Em 2000, eles representavam 7,6% dos bebês nascidos vivos. No ano passado, o índice subiu para 8,4%, de acordo com dados preliminares do ministério.

A Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz está, inclusive, fazendo um grande estudo para mapear esse impacto. Ao todo, 23.580 mulheres que deram à luz em hospitais públicos e privados de todo o Brasil foram entrevistadas ao longo do ano. Os pesquisadores queriam saber em que condições elas tiveram seus filhos, os tipos de parto, como decidiram por eles e os efeitos desses partos na saúde de mães e bebês.

“Vários estudos mostram que o parto cesariano traz prejuízos para a vida reprodutiva futura da mulher, aumentando o risco de implantação anormal da placenta e ruptura uterina. Para o recém-nascido, pode causar problemas respiratórios e prematuridade”, ressalta a coordenadora da pesquisa "Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento", da Fiocruz, Maria do Carmo Leal.

Ela conta que, as conclusões iniciais da pesquisa mostram que, segundo as mulheres entrevistadas, a menor parte delas escolheu fazer uma cesariana por medo da dor do parto normal (4%). A maioria (25%) diz que a cesárea foi escolhida por falta de dilatação. Outras 16% disseram querer a cesárea ou a escolheram para ligar as trompas e 8,5% tiveram de fazê-la por problemas de pressão alta.

Epidemia

Helvécio Miranda Magalhães, secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, classifica o número crescente de cesáreas como uma “epidemia”. Há dez anos, em 2000, elas representavam 38% dos partos realizados no País. Na rede pública, responsável por 65% dos partos, as cesarianas também cresceram bastante, passando de 24% dos partos em 2000 para 37% em 2010.

“Em todo o mundo, esses índices diminuem. No Brasil, aumentam. Estamos muito preocupados com essa verdadeira epidemia de cesarianas”, afirma. Para o secretário, será preciso adotar estratégias de curto, médio e longo prazo para mudar esse cenário.

No caso dos médicos, além de rever a remuneração paga por partos normais (no Sistema Único de Saúde eles são mais bem pagos), Helvécio defende mudanças na formação universitária. “Muitos alunos se formam sem ter feito um parto normal sequer. Como vamos exigir desse médico que o faça depois?”, comenta o secretário.

Ele defende que as pacientes precisam ser melhor informadas sobre as vantagens do parto normal. “Será necessário mudar o modelo de investimentos. Vamos discutir as experiências realizadas em outros países, especialmente com enfermeiras obstetras, apoiar as parteiras tradicionais”, diz. Até 2014, serão criados 250 centros de partos normais no País.

“Não pode demonizar a cesárea, porque ela salva vidas. Mas tem de haver indicação para realizá-la, o que se inverteu hoje em dia”, ressalta Vinagre. Para ele, é preciso melhorar a qualidade do pré-natal oferecido hoje às mulheres brasileiras, especialmente na rede pública, e mudar práticas simples, como incluir o preenchimento de um cartão da gestante nas rotinas médicas.

 Em janeiro, um estudo feito pelo CFM com obstetras e ginecologistas de todo o País deverá mostrar a perspectiva dos médicos sobre o tema.

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