Márcia Muccini, 52 anos, precisou ser bem firme para educar as filhas sem usar os tapas

Márcia entre as filhas: palmada não foi recurso para elas
Arquivo pessoal
Márcia entre as filhas: palmada não foi recurso para elas
“Eu não sou a favor da palmada. Lembro que as minhas filhas, a Verônica e a Mariana, me tiraram do sério algumas vezes quando pequenas, mas a sistemática de casa nunca foi na base da palmada. Houve conflitos e situações que me deixaram muito brava, mas eu e o pai delas sempre preferíamos falar firmemente e, depois do “chega!”, era para elas se aquietarem. Então respirávamos fundo e só depois, mais tarde, voltávamos a conversar sobre o que elas estavam aprontando. Dávamos aquele gelo, e funcionava.

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Elas sabiam que, quando ficávamos muito incomodados a ponto de darmos aquela gelada no ambiente, a atenção que elas estavam querendo chamar não viria em forma de carinho, mas em forma de braveza ou castigo. Com o pai delas principalmente: bastava usar a voz com um pouco mais de seriedade que pronto, o limite estava posto. Então elas não precisavam de palmada, talvez também pelo temperamento que tinham. Por isso também não quero dizer que sou completamente contra. Não vejo tanto problema na palmada, mas os pais têm que saber a medida. Se o adulto se descontrola, facilmente passa do limite. E é isso que não pode: se desequilibrar emocionalmente”.

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Olhar firme e castigo sem violência

“Durante a minha infância, com meus irmãos, foi bem parecido. Bastava o meu pai olhar para nós que já parávamos com qualquer bagunça. Ele sentava e conversava conosco e por isso acredito ter levado essa mesma concepção para a criação das minhas filhas. Com elas, o gelo e a indiferença eram o bastante para se darem conta do que estavam fazendo de errado. E assim interrompíamos o atrito. Se fizéssemos um enfrentamento com elas na hora, aquilo só tenderia a crescer.

Bastava o meu pai olhar para nós que já parávamos com qualquer bagunça. Ele sentava e conversava conosco e por isso acredito ter levado essa mesma concepção para a criação das minhas filhas.

Além disso, as crianças precisavam entender que nem sempre as coisas aconteceriam na hora que elas quisessem. Portanto, às vezes a resposta era “não” e ponto final. O adulto tem que carregar esse peso consigo.

Lembro uma vez que, em um final de ano, a Verônica, hoje com 25 anos, caiu e machucou o joelho enquanto corria atrás de um Papai Noel na rua. Mas não foi um simples machucado: o joelho dela começou a sangrar muito e, sem pensar duas vezes, ela levantou e continuou indo atrás dele. Eu, mãe de primeira viagem ainda, me desesperei.

Tive que correr atrás dela para fazer com que parasse e, quando a alcancei, no meio daquela bagunça toda que ela estava fazendo, fiz com que ela ficasse quieta e só voltamos a conversar mais tarde. Ela tinha que aprender a ter aquele limite e expliquei que não podia sair correndo daquele jeito, mesmo que fosse atrás do Papai Noel. Eu não dava palmada, mas vira e mexe elas ficavam de castigo ”.

Chacoalhão com limites

"Lembro que às vezes eu chegava em casa e elas tinham inventado de usar as minhas panelas para brincarem de casinha, e as enchiam de areia. Eu expliquei diversas vezes que aquelas eram as minhas panelas e elas tinham as delas, até que elas aprenderam. Se eu tivesse dado umas palmadas em algum momento de impulso, se desse um chacoalhão em alguma situação específica, talvez até funcionasse também para a educação delas. Mas sempre soube que o grande desafio do adulto é saber qual é o limite deste chacoalhão.

Se eu tivesse dado umas palmadas em algum momento de impulso, talvez até funcionasse. Mas sempre soube que o grande desafio do adulto é saber qual é o limite deste chacoalhão.

Espancar uma criança é errado, mas tem horas em que elas precisam ser contidas de alguma maneira. Eu não condenaria uma mãe que desse duas palmadinhas no filho pequeno caso ele tenha se desgarrado dela e tentado atravessar a rua sozinho. Eu nunca precisei fazer isso, mas imagino que o nervoso seria muito grande.

Uma vez a Mariana, hoje com 21 anos, tentou atravessar a rua sozinha e, quando não a deixei, ela disse: “mas eu não tenho medo”. Respondi que quem tinha medo era eu e expliquei as razões. Isso foi o bastante para contê-la.

Agora, na casa do meu padrinho, quando eu era criança, tinha um relho pendurado na parede. Os filhos dele sabiam que iriam apanhar de relho se fizessem algo de errado, isso era usual e comum. Hoje eu já não acho que isso caiba na educação da criança. Pode não trazer resultados negativos, mas pode deixar uma marca. Por isso eu não sou a favor: é possível educar de outra forma hoje em dia”.

(Depoimento para Renata Losso, especial para o iG São Paulo)

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