A exibição excessiva da maternidade faz parte da valorização do “ter” e da necessidade de aprovação alheia. Especialista ensina como avaliar se você está exagerando

A celebridade apresenta seu filho recém-nascido ao público com a mesma expressão com que anuncia um produto em campanha publicitária; a amiga grávida não para de postar nas redes sociais fotos em que segura a barriga em crescimento como um troféu; a desconhecida mostra registros de suas crianças em seus feitos maravilhosos (uma apresentação de dança, uma corrida na gincana da escola) para todos que estiverem por perto no salão de beleza. Hoje em dia, é praticamente impossível escapar da maternidade-ostentação, aqueles momentos em que as mães usam os filhos como instrumentos para exibição em público.

Se preocupação com a foto que será postada na internet é maior do que com aproveitar a relação amorosa familiar, a mãe deve ficar alerta porque pode estar passando do limite
Thinkstock/Getty Images
Se preocupação com a foto que será postada na internet é maior do que com aproveitar a relação amorosa familiar, a mãe deve ficar alerta porque pode estar passando do limite

A valorização da maternidade não é exatamente nova na sociedade ocidental, mas atualmente tem cores e contornos mais fortes do que em qualquer época. “A maternidade sempre foi considerada um status, uma confirmação”, afirma a psicóloga Nathália Villela de A. Bezerra, coordenadora do Espaço SER Psicologia e terapeuta sistêmica pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ela prossegue, com uma breve contextualização histórica: “Antigamente, as mulheres que não tinham filhos eram vistas como doentes. Com a entrada feminina no mercado de trabalho, ter filhos mais tarde tornou-se comum, mas aquela que escolhe não ter filhos ainda não é bem aceita socialmente. O que muda é que, com o passar do tempo, a cultura foi transformada, juntamente com uma relação cada vez maior de consumo e poder”.

O olhar do outro

Nessa relação de consumo e poder, de acordo com a psicóloga clínica Marcela Pimenta Pavan, especialista em família pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), “tudo pode ser motivo de destaque: uma viagem, uma comida, um pensamento e inclusive a maternidade”. Nathália complementa: “Engravidar, nesses casos, é mostrar poder, pois essa mãe pode ter um filho e ele receberá tudo do bom e do melhor. Postar fotos da gestação e mostrar o quanto a mãe está em forma são maneiras de provar ao mundo esse poder”.

Nathália também aponta a mudança no conceito de família como um fator importante para a maternidade-ostentação. “O imediatismo atual leva os casamentos a acabarem com maior facilidade, e os pais que continuam casados muitas vezes são ‘pais de fim de semana’, com filhos criados por terceiros. Essa é uma das principais causas da maternidade-ostentação, pois os pais, separados ou não, tentam compensar a sua ausência com presentes e exibição”, diz.

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A necessidade de se confirmar socialmente – ou do reconhecimento alheio – é algo que foi se construindo com o passar do tempo. “Antes, o sentido da vida estava ligado à religião. Agora, o ‘ter’ é valorizado, ser bem sucedido é o objetivo de muitos. Quem possui bens vistos como valiosos ganha status e algo importante para o ser humano: o olhar do outro, que pode significar reconhecimento e aceitação”, detalha Marcela.

E, como é notório no dia a dia, as redes sociais colaboram sobremaneira para satisfazer essa busca por aprovação. “Com a TV surgiram as estrelas e o olhar atento do público, mas com a internet surge um novo movimento: todos podem ser olhados, admirados. Todos são artistas do cotidiano”, compara Marcela.

O que leva à ostentação?

A exposição a que se submetem as mulheres na maternidade-ostentação é bem consciente – “Elas escolhem postar fotos em redes sociais, fazer books”, argumenta Nathália –, mas as razões que as levam a tal exibição muitas vezes não é tão consciente assim. “No processo de mudanças na família e valorização do ‘eu’, é natural que a mãe perceba seu filho como muito especial, pois nele existe muito dos pais. Valorizar excessivamente o filho é uma forma de valorizar a si, mas de uma forma não tão direta”, afirma Marcela.

Nathália acrescenta que “a ostentação, de um modo geral, está diretamente ligada a algum sentimento de falta – uma insegurança, uma compensação por ausência, uma dor de não ter recebido algo em sua própria história – que busca ser compensado ao extremo. Mostrar-se ao outro é uma autoafirmação, pois quanto mais ‘curtidas’ uma foto receber em uma rede social, melhor ela será, em sua fantasia, como mãe. A grande questão é que a ostentação não tem limites, pois o reconhecimento do outro causa uma satisfação temporária, mas não preenche o vazio de falta desta mulher”.

As consequências para a criança

Além da falta de privacidade – para a mulher se expor como mãe exemplar, precisa do filho ao seu lado –, a maternidade-ostentação leva para a vida da criança uma cobrança excessiva, pois ela precisará atingir níveis de excelência para poder continuar sendo exibida. “Parece que nunca é suficiente”, conta Marcela. “E a cobrança dos pais pode impedir que o potencial real do filho surja e se desenvolva, pois ele sente que não pode errar, não pode frustrar os pais. Isso traz uma dificuldade para lidar com a frustração. É um peso muito grande para carregar”.

Também pode resultar da maternidade-ostentação a falta de limites infantil. “A criança que tem de tudo não entende que para ter qualquer coisa é necessário trabalho e esforço, então começa a se colocar no mundo como rainha ou rei, não tendo limites e, muitas vezes, nem mesmo respeito pelo outro”, alerta Nathália. Ela ressalta, ainda, que quem se preocupa mais com a foto da família perfeita do que com a vida real “aprisiona o filho em um padrão de comportamento e regras, tirando-lhe a infância, a possibilidade de brincar”.

Como saber se estou exagerando?

Uma vez que a maternidade-ostentação é fruto de questões psicológicas não necessariamente conscientes, como colocado anteriormente, perceber que a está praticando é tarefa difícil. As pessoas ao redor tampouco se arriscarão a criticar amigas com tal padrão de comportamento, por receio de serem tachadas de invejosas.

Para ajudar a mãe a fazer uma autoavaliação e verificar se seu comportamento tem tendências à ostentação, a psicóloga Nathália Villela de A. Bezerra recomenda que se analise:

1. Se a mãe passa o dia em função das obrigações e regras aplicadas às crianças, sem dar espaço para brincadeiras (consideradas perda de tempo ou que vão bagunçar/sujar a roupa);

2. Se a mãe gasta muito dinheiro (que às vezes a família nem tem) e energia para comprar roupas de marca ou luxos para exibir em seus filhos;

3. Se nos momentos passados apenas entre pais e filhos a preocupação com a foto que será postada na internet é maior do que com aproveitar a relação amorosa familiar.

Caso a resposta a uma dessas hipóteses seja afirmativa, vale repensar as atitudes para garantir um crescimento psicologicamente saudável e com autoestima positiva para suas crianças.

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