Filosofia polêmica propõe educar crianças fora de padrões de gênero

Pais adeptos da “criação de gênero neutro” permitem aos filhos usar roupas de fada e às garotas experimentar vivências tidas como masculinas

Flávia Pegorin - especial para o iG São Paulo |

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Antes mesmo de nascer, muitos bebês já ganham um enxoval todo azul ou todo rosa

Antes mesmo de entrar no quarto da maternidade, você já sabe se a nova mãe teve um menino ou uma menina só pelas cores e pelo tema do enfeite pendurado à porta. Mas hoje um movimento contrário aos padrões de gênero ganha espaço: o “gender neutral parenting”. A “criação de gênero neutro”, em tradução livre, não faz distinção entre meninos e meninas, enxergando apenas uma criança – ou seja, um ser de gênero neutro. 

Na prática, esta filosofia vai desde permitir às crianças vivências ligadas ao gênero oposto – como meninos dançarem balé e meninas brincarem de luta – a sequer fazer referências sobre o sexo da criança mesmo para parentes e amigos próximos, a fim de impedir que ela seja tratada dentro dos padrões convencionais.

Permitir experiências de meninas e meninos ‘no campo do outro’ é saudável, mas forçar 100% uma situação de gênero neutro é irreal”, acredita o psiquiatra Alexandre Saadeh.

Os pais adeptos da criação de gênero neutro garantem que pretendem, assim, ampliar as experiências de vida dos filhos e permitir que eles escolham, na hora certa, como querem levar a vida. Para os críticos, a falta de modelos definidos causa uma confusão enorme na cabeça das crianças e pode ter efeitos maléficos mais tarde.

Um dos casos mais polêmicos foi o de Sasha Laxton. Por cinco anos, os pais se recusaram a revelar o sexo da criança. No início deste ano, na iminência do ingresso na escola, o casal finalmente contou que Sasha é um menino. No cartão de Natal enviado pela família nas últimas festas, ele aparece vestido de fada.

Os pais sempre o incentivaram a brincar com o que quisesse, fossem bonecas, caminhões ou peças de encaixar. Eles também dizem que nunca bloquearam ou forçaram qualquer desejo do menino ao escolher roupas, cortes de cabelo e outros artigos do cotidiano. Garantem, enfim, que Sasha sabe que é um menino, mas tem toda liberdade para ser como quiser.

No espectro oposto, Shiloh Jolie-Pitt, a filha de 6 anos de Brad Pitt e Angelina Jolie, só se veste como menino. "Ela quer ser um garoto, então tivemos que cortar o cabelo dela", declarou Jolie à revista Vanity Fair em 2010. Mas a atriz não está preocupada. "Eu era como ela quando pequena", completou.

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Shiloh: a filha de Angelina Jolie e Brad Pitt prefere roupas de menino

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade, de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas, em São Paulo, proporcionar opções à criança é válido, mas o exagero não é saudável. “Permitir experiências de meninas e meninos ‘no campo do outro’ é saudável, mas forçar 100% uma situação de gênero neutro é irreal. Isso pode causar o efeito completamente contrário e gerar um adolescente e um adulto muito confuso, que culpa os pais por isso”, explica ele.

“Muitas pessoas ainda acham que a questão do gênero é cultural, mas hoje sabemos que, a rigor, a identidade é algo fisiológico também”, completa.

A psicopedagoga Irene Maluf concorda. “Nossos hormônios também são responsáveis por nos fazer procurar nossos desejos e nossos iguais”, diz. “Crianças na faixa dos 2 ou 3 anos já começam a se separar em grupos de meninos e meninas por muitos motivos, desde o comportamento até a impostação de voz”.

Irene explica que, mesmo sem saber, as crianças tendem a formular suas distinções de gênero observando o pai e a mãe. “É quase impossível, portanto, que uma criança seja criada completamente assexuada. E isso é bom, pois diferenciar gêneros é uma das bases do desenvolvimento”, completa.

A filosofia da criação de gênero neutro pode ser aplicada com mais naturalidade. É o caso da designer Denize Barros, que sempre permitiu que o filho Teodoro se expressasse sobre seus gostos. Ele entrou em aulas de balé e já usou maquiagem para brincar. “Teo sempre achou injusto que as meninas pudessem fazer judô sem sofrer pressões, mas o achavam estranho por ir ao balé”, lembra a mãe. “Hoje, aos 8, ele é muito ligado aos ‘gostos de menino’, mas ainda tem uma ternura natural e continua contra essa ideia de ‘coisa de menino ou coisa de menina’”, diz.

Arquivo pessoal
Teo e Denize: naturalidade na aplicação da criação igualitária

Na prática

Se a ideia é criar uma criança que não defina mulheres e homens em rígidos estereótipos, a criação de gênero neutro pode também ser usada em níveis mais moderados, como no caso de Denize. Pais que participam de fóruns sobre o assunto na internet recomendam medidas práticas simples, como vestir a criança com roupas intermediárias (nem tão cheias de babados para meninas, nem de estampas violentas para meninos) e decorar o quarto de modo neutro (com referências à natureza, por exemplo).

Muitos pais dizem combinar entre si um revezamento não só ao volante, para abandonar o mito de que os homens são os líderes, mas também na troca de fraldas, na hora do banho, na preparação do jantar. Na TV, há casais que contam revezar até os canais na hora das transmissões de esportes, prestigiando jogos de basquete ou futebol feminino na mesma proporção que o masculino. Frases como “isso é só para meninos” ou “isso não é jeito de uma menina se comportar” são obviamente vetadas.

Se a ideia da igualdade for acordada entre os pais, os mesmos valores e atitudes passarão naturalmente para as crianças. Afinal, o que haveria de estranho em um menino brincar com os colares e anéis da mãe e uma garota querer usar chuteiras? “Deixar as crianças se expressarem é positivo, mas para isso não é necessário ignorar a existência de uma polaridade de gêneros”, conclui o psiquiatra Alexandre Saadeh.

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