Linguagem corporal mostra muito do que tentamos esconder, mas o ideal é analisar o contexto antes de tirar conclusões

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Imagine o poder que uma pessoa teria se fosse capaz de desvendar os segredos mais íntimos que os outros tentam esconder. Os especialistas em linguagem corporal garantem que são capazes da proeza, através da análise de sinais como posição dos ombros e até pés de galinha, que acabam entregando uma mentira.

A atividade ficou bastante conhecida com a série de televisão do Canal Fox “Lie To Me”, onde os personagens usam suas habilidades para desvendar segredos através da linguagem corporal. Alguns pesquisadores afirmam que até 90% das informações transmitidas durante um diálogo podem ser não-verbais. Isso inclui postura, movimentos, gestos e tom de voz.

Receita de bolo
A procura por cursos de linguagem corporal, que ajudam o aluno a identificar, por exemplo, sinais de insegurança, mentira ou descontentamento, vem aumentando. Mas, há um cuidado importante: por mais que as indicações funcionem, a análise não pode ser tomada como uma ciência exata.

Veja 14 sinais que o corpo dá quando mentimos

O doutor em psicologia e especialista em linguagem corporal Sérgio Senna Pires afirma que, em se tratando de análise de movimentos, não há uma “receita de bolo”. Ele alerta para o fato de que interpretações equivocadas são armadilhas para pessoas destreinadas. “Procuro sempre contextualizar o que acontece. Nem sempre quem leva a mão ao nariz ou à boca está mentindo. Este sinal é apenas um indicativo de mentira. Pode ser que a pessoa esteja falando a verdade, mas numa situação que lhe cause desconforto”, pondera.

A linguagem corporal é algo primitivo. Ela está ligada ao nosso sistema nervoso autônomo e, por isso, muitos gestos são extremamente difíceis de serem mascarados. Quando uma pessoa está nervosa, por exemplo, vários sinais não propositais começam a aparecer. “Gestos de manipulação, como mexer na aliança, no botão da camisa ou qualquer coisa do gênero, a princípio, demonstram nervosismo. O autocontrole, nestes casos, exige bastante treino”, ensina Sérgio.

Linguagem corporal e contexto são chave para descobrir o mentiroso
Thinkstock/Getty Images
Linguagem corporal e contexto são chave para descobrir o mentiroso

Mentiras
Uma grande parcela das pessoas que procuram cursos voltados para este tema deseja saber detectar uma mentira. Sérgio afirma, porém, que a maior parte das mentiras contadas não tem o objetivo de prejudicar alguém. Normalmente estão relacionadas com a incapacidade do mentiroso de falar sobre determinados assuntos. “Quando conseguimos entender isso, passamos a não ter raiva de quem mente. Você fica ciente que a pessoa, em muitas ocasiões, não tem a intenção de causar danos.”

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São mais de 200 mentiras que falamos ou ouvimos por dia. O número parece, em princípio, assustador e exagerado, mas não é. Pelo menos é o que pensa Paulo Sergio de Camargo, especialista em linguagem corporal e grafologia. Segundo ele, a mentira é um sinal de sociedade evoluída. “Se todos decidissem falar apenas a verdade, seria um caos. Um simples ‘oi, tudo bem?’ se tornaria algo inviável diante de tantos problemas que teríamos que ouvir”, afirma.

O especialista também diz que todos mentem da mesma maneira. “Não existe diferença entre um simples ladrão de galinha e alguém que rouba milhões. Os sinais estarão presentes nas duas situações, a menos que um deles saiba disfarçá-los com muita técnica.”

Dificuldades
A psicóloga e gerente de recrutamento e seleção Fabiana Rodrigues dos Santos, 34, já vai para o segundo curso na área de linguagem corporal. Ela quis aprender as técnicas para aperfeiçoar sua habilidade de entrevistar candidatos a emprego. “Isso facilitou acredito”, diz ela que afirma estar mais bem preparada para detectar sinais de nervosismo, mentiras e ansiedade, por exemplo.

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Fabiana aponta que sua maior dificuldade é reparar em tudo ao mesmo tempo. “Às vezes, preciso me desligar do que a pessoa está falando e reparar apenas nos gestos. Em outras, faço o contrário. É preciso estudar bastante para conseguir analisar o comportamento de uma pessoa com mais naturalidade.” Ela diz ainda que aprender técnicas de observação da linguagem corporal a tornou mais atenta ao que acontece ao seu redor.

Já para a psicóloga Lívia Grizzi, 25, a maior dificuldade é reconhecer as chamadas microexpressões, mapeadas pelo psicólogo americano Paul Ekman. Elas revelam, em menos de um quarto de segundo, emoções que são iguais no mundo todo: raiva, alegria, surpresa, desprezo, medo e tristeza.

“Normalmente não analisamos a microexpressão de forma isolada. Não é um sinal apenas que te diz algo. São vários fatores que permitem uma análise mais fiel de toda a situação”, afirma Lívia.

Vida pessoal
O analista de Recursos Humanos, Valdemir Freitas, que também frequentou curso na área de linguagem corporal, diz que a influência do novo conhecimento invade a vida pessoal. “Apesar de ter procurado o curso por aspirações profissionais, também aproveitei para a minha vida pessoal. Uma das coisas que senti mais diferença foi em negociações do dia a dia, como quando compro algo. Você consegue antever alguns sinais e deixar a situação mais favorável a você.”

Já para quem possui um conhecimento bem mais aprofundado, não é tão simples assim. Sérgio Senna Pires afirma que uma pessoa que se dedica a análise da linguagem corporal precisa cuidar de sua saúde mental com mais cuidado. “Somos capazes de ver coisas boas e ruins. Conseguimos perceber pessoas que nos desprezam, por exemplo. Se você não estiver preparado para lidar com isso, pode ser bem complicado”, adverte.

Outra questão levantada pelo especialista é o direito a privacidade dos que convivem com os mais aptos a este tipo de análise comportamental. “Tento não ficar observando as pessoas demais. Todos temos direito a ter uma vida privada sem que ninguém fique reparando em coisas que não queremos expor”, explica Sérgio.

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