Explicar como algumas histórias absurdas surgem e ganham projeção internacional é desafio de livro

O astronauta Edwin
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O astronauta Edwin "Buzz" Aldrin Jr. posa em frente à bandeira americana na lua: até hoje há quem defenda que tudo não passou de armação
É fato sabido e documentado que, em 20 de julho de 1969, o astronauta norte-americano Neil Armstrong tornou-se o primeiro homem a pisar na lua. Ou não, segundo teorias da conspiração que levam a sério um dos boatos mais duradouros da história: o de que a bem-sucedida viagem da Apollo 11 foi uma encenação. Por que certos boatos "pegam", por mais absurdos que pareçam? Como surgem os boatos? E o que podemos fazer para evitar sua disseminação?

O professor de Direito Cass Sustein defende, em seu livro "A Verdade Sobre os Boatos" (Editora Campus Elsevier), que as pessoas estão mais propensas a acreditar em boatos que corroborem sua visão pessoal. Assim, quem já tem antipatia pela política imperialista americana pode comprar mais fácil a história de que a chegada à lua foi armada.

"Boatos são sintomas de desejos de um grupo", define Luiz Carlos Iasbeck, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) e pesquisador da Comunicação. "Servem também para criar vínculos de confiança entre as pessoas". Segundo Cass, como somos muito suscetíveis à opinião de nossos pares, uma vez que certo número de pessoas acreditam em um boato, ele tende a se espalhar com ainda mais facilidade.

Na rede

A internet não só tornou mais rápida a divulgação de boatos, mas também facilitou o encontro de pessoas com filosofias e posições semelhantes, possibilitando a formação de grupos radicais - terra ainda mais fértil para a disseminação de boatos. Foi o caso das alegações de que Barack Obama, então candidato à presidência dos Estados Unidos, era muçulmano.

Capa do livro
Reprodução
Capa do livro "A Verdade Sobre os Boatos": entender o mecanismo de criação e disseminação permite que as pessoas caiam menos em fofocas
O email, amplamente repassado, dizia que Obama havia sido criado por um padrasto muçulmano praticante e que frequentara uma escola Wahabbi - tipo de escola, acrescenta o texto do email, responsável por formar "os terroristas que promovem a Jihad contra o mundo industrializado".

Surgiu também uma corrente que defendia que o candidato democrata não era sequer norte-americano. Foi preciso que a equipe de campanha de Obama usasse o antídoto mais eficaz contra a fofoca - a informação - e disponibilizasse a certidão de nascimento dele na internet. "A transparência é inimiga mortal do boato", diz Iasbeck.

Mesmo assim, a imagem de quem é alvo de calúnias do tipo sofre danos. E é difícil compensá-los. Para Iasbeck, a melhor maneira de evitar um boato é não deixar o que ele chama de "vácuos informacionais". "Boatos e fofocas têm raiz na obscuridade. As pessoas preenchem o que não sabem com a própria imaginação", afirma.

Cass Sunstein - que faz parte da equipe do agora presidente Barack Obama - defende que é importante as pessoas entenderem estes mecanismos de criação e disseminação dos boatos como forma de se proteger. Afinal, todos estão sujeitos, independentemente de seu nível de instrução ou visão política, a cair em um deles - pelo simples desejo de acreditar.

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