Segundo executivas, segredo para equacionar vida profissional e familiar é não querer ser perfeita em tudo

“Não sou perfeita em tudo” é uma frase recorrente na fala de três mulheres que alcançaram altas posições em grandes empresas, sem deixar para trás os filhos e a casa. Elas creditam esse equilíbrio atingido ao abandono do ideal de perfeição que ronda a cabeça de muitas mulheres engajadas na dupla jornada casa e trabalho. “Conciliar vida familiar e carreira é como um malabarismo, nós temos que segurar vários pratinhos no ar”, diz a advogada Raquel Novais, sócia-administradora do Machado Meyer, primeira mulher a ocupar a posição de sócia-administradora no escritório, depois de 25 anos de empresa.

Andrea Salgueiro, vice-presidente de Personal Care da Unilever: 'Se sentisse culpa por ter falhado com as minhas filhas e meu marido, jamais conseguiria produzir para a companhia'
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Andrea Salgueiro, vice-presidente de Personal Care da Unilever: 'Se sentisse culpa por ter falhado com as minhas filhas e meu marido, jamais conseguiria produzir para a companhia'


É este o retrato da mulher moderna, conhecida por ser “multitarefa”, que desdobra-se em várias funções para aliar todas as tarefas do cotidiano. “É uma luta constante e ela monta seu arsenal para dar conta”, diz a psicóloga Patrícia Gugliotta, da UNICAMP. Na luta pessoal de Andrea Salgueiro, vice-presidente de Personal Care da Unilever, isso significou definir bem suas prioridades. “Não fico tomando cafezinho no trabalho, jogando conversa fora. Tenho uma agenda otimizada. Só assim consigo ter tempo como mulher, para fazer pé, mão, cabelo. Bem como para ler o jornal ou um material de Harvard”, revela Andrea.

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Mãe de duas meninas, Andrea chega às 8 horas no escritório com o dia pré-definido. “Pego um trânsito razoável, e durante essa hora que estou no carro faço ligações, vou me organizando no percurso.” A executiva tem uma regra: não ficar além do necessário no trabalho. “Chego em casa até às 19h, para fazer ginástica, ver a lição das meninas e ficar com o meu marido.” Na casa de Nathalie Tessier o esquema é parecido, só os horários são diferentes. A francesa, radicada em São Paulo, reserva as manhãs para curtir os quatro filhos. “Eu me organizo para fazer isso todos os dias, é o nosso momento sagrado”, conta a diretora de marketing da Whirlpool. “Se a gente não consegue conversar no jantar, eles sabem que vamos nos encontrar no café da manhã.”

Raquel Novais, sócia do Machado Meyer: 'Conciliar vida familiar e carreira é como um malabarismo'
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Raquel Novais, sócia do Machado Meyer: 'Conciliar vida familiar e carreira é como um malabarismo'

Em meio a uma jornada intensa, Nathalie descobriu um segredo na vida executiva que sempre a ajudou. “Se o meu time for adequado, e entender bem a direção que passo, isso garante 90% do meu sucesso profissional, e consequentemente, 60% do equilíbrio no meu balanço pessoal.” Além de planejar sua rotina com competência, a mulher tem necessidade de cumprir com suas funções, explica a psicóloga Patrícia.

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Afinal ela não quer perder o espaço que conquistou. É por este motivo que Nathalie estabeleceu alguns combinados consigo mesma. Sem sofrimento. “Sei que não poderei ir a todas as reuniões de pais. Por outro lado, se preciso sair correndo para levar um filho no médico, isso também não irá me prejudicar no trabalho”, conta Nathalie.

E é este o principal desafio da mulher, à medida que ela vai crescendo na carreira: saber fazer escolhas. “Vejo muitas mulheres sofrendo porque querem ser perfeitas em casa e no trabalho, e não dá”, diz Nathalie. Por isso, nunca escondeu dos filhos o quão importante é sua escolha profissional. “Preciso da minha carreira para ser feliz”, diz. Para a psicóloga Patrícia, esta nova geração carrega menos culpa, pois a mulher já está inserida no mercado de trabalho. A anterior que teve de abrir espaços. “Mães buscam as filhas na escola e eu não. Mas não me culpo por isso. Se sentisse culpa por ter falhado com as minhas filhas e meu marido, jamais conseguiria produzir para a companhia”, ressalta Andrea.

“Parceiros de jornada”

Mas será que essas mudanças na dinâmica do dia a dia somente ocorrem em relação às mulheres? Se elas muitas vezes lideram os campos profissionais, como se vê, os homens também ganham espaço em áreas que antes eram estritamente femininas. “Com o passar do tempo eles foram sendo cobrados na participação da educação dos filhos e na divisão de funções”, diz Denise Pará Diniz, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Qualidade de Vida da Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Liliana Rolfsen Petrilli Segnini, do Departamento de Ciências Sociais na Educação da Faculdade de Educação da Unicamp, discorda. “O espaço doméstico ainda é predominantemente das mulheres. Dizer que a mulher cuida da casa e dos filhos por amor é uma justificativa que tem substrato material concreto. Atribuir ao biológico algo que é construído socialmente”, acredita Liliana.

Vejo muitas mulheres sofrendo porque querem ser perfeitas em casa e no trabalho, e não dá

De fato, a emancipação da mulher não inverteu papéis, mas proporcionou uma revisão nos mesmos. E tornou os homens mais preocupados e interessados pela prole. Cecília Russo Troiano, mãe de dois adolescentes, empresária e autora do livro “Vida de Equilibrista” (Editora Cultrix), sempre pregou que as melhores mulheres, as chamadas “malabaristas”, têm companheiros especiais, que as entendem, e de alguma forma estão participando e dividindo tarefas. “Os homens precisam ser cooperativos, pois a administração de uma casa e a responsabilidade com os filhos é dos dois, não só de um”, diz Cecília.

É o que acontece nas casas de Raquel e Andrea: com a colaboração dos companheiros, elas não se sobrecarregam. “Meu marido me ajuda muito. Como ele adora cozinhar, ele me tira esse peso, e vivemos em harmonia. É um grande parceiro nessa jornada, tenho muito suporte dentro de casa”, diz Andrea. “Não é que a mulher não consiga dar conta de tudo sem um parceiro, mas dá ainda mais trabalho”, completa Raquel. Apesar de separada, Nathalie desde sempre avisou o pai das crianças que seria uma executiva. “Se para a mulher a felicidade passa pelo equilíbrio entre carreira e família, o parceiro precisa entender isso e ajudá-la. No meu caso sempre funcionou. Do contrário, não teria conseguido ter quatro filhos sem abandonar a carreira executiva”, diz Nathalie.

Nathalie Tessier, diretora de marketing da Whirpool: 'Preciso da minha carreira para ser feliz'
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Nathalie Tessier, diretora de marketing da Whirpool: 'Preciso da minha carreira para ser feliz'

Mulheres no comando

Com ou sem auxílio dos homens, essas mulheres têm multi-capacidade para balancear os campos afetivo, familiar e profissional. E isso tem um reflexo positivo nas empresas.Saber fazer escolhas, lidar com várias questões ao mesmo tempo e dar soluções a inúmeras circunstâncias são habilidades que as diferenciam positivamente dos homens.

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“Tenho uma observação empírica e a característica mais presente e extraordinária na mulher é a permanente preocupação com o desenvolvimento das pessoas. É da natureza dela”, observa Raquel.

Segundo pesquisa da consultoria McKinsey, realizada na América Latina, companhias que contam com mulheres no comitê executivo apresentam resultados melhores do que aquelas cujo comitê é composto somente por homens. A diversidade de gênero complementa o estilo de liderança, diz Andrea, e esse equilíbrio é extremamente saudável para as organizações. “O reflexo aparece em números na bolsa, as ações valem mais quando há “gender balance”, ela acrescenta. “Este é o músculo da criatividade.”

O estudo mostra a importância do "bilinguismo": não é mais só a linguagem do homem, a mulher é tão relevante quanto para a companhia. No início da carreira de Andrea, valores como a diversidade de gênero não eram tão discutidos como hoje. “Sofri preconceito por ser mulher, mas não desanimei. Pelo contrário, pus a faca nos dentes e mostrei que sou tão boa quanto os homens”, empolga-se. Mas concede: “Aprendi muito com o mundo masculino. Tanto que hoje sou líder e representante da América Latina de um boarding de diversidade global que discute mulheres em cargos executivos”.




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