iG Delas

Colunistas

enhanced by Google
 

Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

Bissexualidade, o sexo do futuro?

Regina Navarro Lins: "Eles são apontados como indecisos, mas a preferência não é um estágio"

23/08/2010 17:24

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-

Foto: Getty Images

Amor e bissexualidade

Cíntia está casada há onze anos e tem três filhos. Procurou terapia por se sentir confusa, sem saber o que decidir da sua vida. “Amo meu marido, sempre tivemos um ótimo sexo, e não quero me separar dele. Só que aconteceu algo totalmente inesperado. Nunca havia me passado pela cabeça que eu poderia me interessar por uma mulher. Só que conheci Cris e me apaixonei. Começamos a fazer um curso de especialização juntas. Diversas vezes fui à sua casa fazer trabalhos do curso. Um dia, quase que por acaso, nos beijamos. Fiquei bastante assustada com meus próprios desejos, mas mesmo assim resolvi ir em frente. Estamos tendo uma relação maravilhosa, de muito amor e muito sexo. Às vezes, nem acredito que isso está acontecendo comigo.”

As estatísticas mostram que a grande maioria já sentiu, de alguma forma, desejo por ambos os sexos. Pesquisas indicam que nos Estados Unidos mais de 40% dos homens casados, durante toda a vida de casados, se envolveram em sexo com outros homens. Entretanto, os que transam com os dois sexos sempre foram acusados de indecisos, de estar em cima do muro, de não conseguir se definir. Os heterossexuais costumam ver a bissexualidade como um estágio e não como uma condição alcançada na vida. Muitos gays e lésbicas desprezam os bissexuais acusando-os de insistir em manter os “privilégios heterossexuais” e de não ter coragem de se assumir. Não concordo com essas afirmações por me parecerem preconceituosas.

O fato é que nunca se falou tanto em bissexualidade como dos anos 90 para cá. A manchete de capa da revista americana Newsweek de julho de 1995 era: “Bissexualidade: nem homo nem hetero. Uma nova identidade sexual emerge.” A atriz americana Jodie Foster teve seu desejo sexual por mulheres revelado num livro escrito por seu próprio irmão. Entrevistada pelos jornais, declarou: “Tive uma ótima educação, que nunca me fez diferenciar homens e mulheres.” Essa discussão existe desde a década de 70. A Newsweek de 27 de maio de 1974 trouxe uma matéria em que a cantora Joan Baez declarava que um dos maiores amores de sua vida havia sido uma mulher e que, após quatro anos de relacionamentos exclusivamente lésbicos, estava namorando um homem.

Dois psiquiatras com pontos de vista opostos foram chamados a comentar o assunto. “A bissexualidade é um desastre para a cultura e a sociedade”, proclamou um, enquanto o outro, presidente eleito da Associação Psiquiátrica Americana, anunciou: “Está chegando o ponto em que a heterossexualidade pode ser vista como uma inibição”. Na mesma semana a revista Time descreveu num artigo chamado “Os novos bissexuais” os triunfos e os fracassos desse fenômeno sexual, indo das biografias de atrizes e escritores consagrados ao surgimento de romances, memórias e filmes bissexuais.

Seríamos todos bissexuais dependendo apenas da permissividade da cultura em que vivemos? O pesquisador americano Alfred Kinsey acredita que a homossexualidade e a heterossexualidade exclusivas representam extremos do amplo espectro da sexualidade humana. Para ele a fluidez dos desejos sexuais faz com que pelo menos metade das pessoas, sintam, em graus variados, desejo pelos dois sexos. Em 1948, ele desenvolveu a famosa escala Kinsey para medir a homo, a hetero e a bissexualidade. Entrevistando doze mil homens e oito mil mulheres, elaborou uma classificação da sexualidade de zero a seis:

(0) Exclusivamente heterossexual.
(1) Predominantemente heterossexual, apenas incidentalmente homossexual.
(2) Predominantemente heterossexual, mais do que eventualmente homossexual.
(3) Igualmente heterossexual e homossexual.
(4) Predominantemente homossexual, mais do que eventualmente heterossexual.
(5) Predominantemente homossexual, apenas incidentalmente heterossexual
(6) Exclusivamente homossexual.

Na pesquisa feita pelo americano Harry Harlow, mais de 50% das mulheres, numa cena de sexo em grupo, se engajaram em jogos íntimos com o mesmo sexo, contra apenas um por cento dos homens. Entretanto, quando o anonimato é garantido a proporção de homens bissexuais aumenta a um nível quase idêntico.

Muitos afirmam que romperiam um namoro ou casamento se descobrissem que seus parceiros são bissexuais. Mas isso é uma questão cultural, portanto, passível de mudança. Na Grécia Clássica (século V a.C.) a iniciação sexual de um jovem se dava com o seu tutor. E era considerado natural que os cidadãos gregos casados e respeitáveis tivessem relações sexuais com as esposas, as concubinas, as cortesãs e os efebos (jovens rapazes).

A respeitada antropóloga Margareth Mead declarou: “Acho que chegou o tempo em que devemos reconhecer a bissexualidade como uma forma normal de comportamento humano. É importante mudar atitudes tradicionais em relação à homossexualidade, mas realmente não conseguiremos retirar a carapaça de nossas crenças culturais sobre escolha sexual se não admitirmos a capacidade bem documentada (atestada no correr dos tempos) de o ser humano amar pessoas de ambos os sexos.”

Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema, compara a afirmação de que os seres humanos são heterossexuais ou homossexuais às crenças de antigamente, como: o mundo é plano, o sol gira ao redor da terra. E pergunta: “Será que a bissexualidade é um ‘terceiro tipo’ de identidade sexual, entre a homossexualidade e a heterossexualidade — ou além dessas duas categorias?” Acreditando que a bissexualidade tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano, ela sugere que em vez de hetero, homo, auto, pan e bissexualidade, digamos simplesmente ‘sexualidade’.

Será que o amor pelos dois sexos se tornará uma opção cada vez mais comum a ponto de predominar? A bissexualidade, como muitos afirmam, será mesmo o sexo do futuro?

Sobre o Colunista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

» Mais textos deste colunista

    Notícias Relacionadas


    10 Comentários |

    Comente
    • Cícero | 07/09/2010 16:09

      Não creio que haja bissexualidade, o que há é fantasia sexual. Sempre haverá, isto sim, o hetero e o homo.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Amaury | 02/09/2010 21:13

      Ou seja, se somos ensinados pela sociedade que nos impõe um modelo sexual, ou seja, estamos sendo ensinados a sermos bissexuais.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Gisely V. | 02/09/2010 09:07

      Regina Navarro, como sempre clara e direta.
      muito bom e esclarecedor esse texto.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • katleen | 31/08/2010 21:08

      Sou lesbica e amo sim uma pessoa que nao me ama,trabalha no mesmo local que eu,porem ela ja esta em outro relacionamento,acho que o bissexualismo nao e a sexualidade do futuro e sim se vc amar o proximo que e o importante pode ser homem com homem ou mulher com mulher,tem que ter respeito e carinho...

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Rebeca Schwartz | 27/08/2010 21:33

      Excelente texto, direto ao ponto, corajoso e bem fundamentado. De novo, receba meus cumprimentos por seu trabalho, tão importante para o esclarecimento de que tantos necessitam. Parabéns!

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • caio | 27/08/2010 10:12

      Sou bissexual. Embora tenha sido algo bem difícil (confuso) assumir para mim mesmo que meus desejos são direcionados para os dois sexos, agora já não consigo entender como é possível alguém sentir atração somente pelo sexo oposto ou somente pelo mesmo sexo... O desejo sexual é algo tão incontrolável que só consigo imaginar que são privilegiados os que são 100% (ou pelo menos 90%) hetero ou homossexuais. Como é possível alguém escolher por quem vai sentir atração? Ou por quem vai se apaixonar? Acho que não é possível para a maioria das pessoas... Vai ver somos treinados para acreditar que o desejo predominante anula o que se manifesta menos intensamente... Ou seja, nós nos ensinamos a "escolher".

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Bia | 25/08/2010 13:11

      Adorei a materia. Adoro a forma como vc escreve, sempre ponderando sobre várias opniões acerca de um mesmo assunto. A materia nos permite refletir sobre um assunto que normalmente n é tratado tão abertamente e que, infelizmente, ainda envolve muito preconceito...

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • carol | 25/08/2010 09:34

      Acredito que não há sexo do passado, do presente ou do futuro. Cada ser se encontra em uma maneira de amar e de representar/concretizar o amor. Ninguém é igual, portanto eu não amor igual ao meu vizinho e vice-versa. Acredito, também que a bissexualidade não é o sexo do futuro, ela sempre existiu dentor de todos, pois o que se deve amar é o ser e não seu "gênero" sexual.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • ana maria santeiro | 24/08/2010 19:57

      Creio que com o contrôle da natalidade resolvido (para e para -) a questão das definições dos sexos ficará menos importante. Acredito mesmo que a bisexualidade será a sexualidade deste séculoe dos próximos.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • jeanice ramos | 24/08/2010 09:00

      O texto tem uma linha lógica bastante convincente. Gostei.

      Responder comentário | Denunciar comentário

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    "Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

    Ver de novo