Popularização da internet diminui estigma negativo da paquera online, reúne público mais jovem e em busca de relações sérias

Erica e André nasceram na mesma semana, na mesma cidade, na mesma maternidade. São formados na mesma profissão e têm amigos em comum. Só se conheceram, porém, aos 33 anos, pela internet, em um site de relacionamentos. Conversaram virtualmente por um mês, começaram a namorar depois do primeiro encontro e estão casados há quatro anos.

Assim como transações bancárias, o papo com os amigos e até reuniões de trabalho, a paquera está entre as atividades que ganharam o mundo online. E além das redes sociais como Orkut e Facebook, quem procura um par amoroso pelo caminho virtual aposta as fichas também em sites especializados, que vêm ganhando espaço no mercado e maior volume de usuários.

Autora do livro
Alexandre Carvalho / Fotoarena
Autora do livro "O amor está na rede", Erica Queiroz conheceu o marido por um site de namoro
Leia mais:
Quais são as características mais buscadas nos sites de namoros
Teste: como você escolhe seu par?
Erros e acertos do primeiro encontro

Segundo Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC de São Paulo, os internautas estão mais à vontade para flertar e procurar relações amorosas virtualmente. “Faz parte do dia a dia. Substitui aquele amigo que apresenta um amigo e tem acesso mais fácil na hora que bate a solidão”, diz a psicóloga. Ela acredita também que as redes sociais tradicionais ainda são e devem se manter mais populares entre quem procura um par, talvez pela espontaneidade dos possíveis arranjos ou até pelo custo zero.

Achar um namorado por um site pode custar de R$ 25 a R$ 80 mensais, de acordo com o serviço escolhido. Ali, ao assumir que estão procurando conhecer novos pares, os usuários buscam alguém fora do seu círculo de relações. É discreto e um tanto mais sistemático. A paquera virtual começa com um cadastro. Listadas as características físicas, personalidade, planos de vida e expectativa em relação ao parceiro em potencial, o usuário recebe sugestões de pretendentes compatíveis para troca de mensagens, faz uma busca pelo perfil desejado ou inicia um bate-papo ao vivo – cada site oferece um formato próprio de conquista pela internet.

O círculo de amizades restrito é um dos motivos daqueles que buscam um amor online. “Há a possibilidade de não basear o encontro somente no aspecto físico e maior anonimato. Mas o maior motivo é conhecer pessoas”, diz Lorenzo Staglieno, diretor executivo do site B2. “Não é só para pessoas tímidas, mas para quem não tem tanto tempo para conhecer alguém”, aponta Gandelman. Segundo ele, encontrar um par por uma rede de namoro é como ser apresentado por amigos, com a diferença de limitar a convivência a quem está procurando alguém.

O avanço dos sites de namoro se deve em parte a uma mudança na imagem desse tipo de serviço, que deixa de ser associado a desespero ou carência, por exemplo. “Perdeu o estigma de agência de matrimônio. O avanço tecnológico permite que as pessoas tenham essas outras opções”, diz Stanlei Bellan, diretor geral do site eHarmony. “É uma ferramenta a mais para encontrar gente além da academia, clube e balada. Isso vai fazer parte da vida de pessoas de todas as idades”, aposta Claudio Gandelman, presidente do ParPerfeito .

Para Erica Queiroz tudo começou como uma brincadeira. Ela e um amigo criaram perfis em um site holandês, mas o resultado acabou surpreendendo: “Em três dias recebi 115 mensagens”. Assim, ela decidiu tentar, a sério, uma versão nacional. “Trabalhava de casa, não tinha como conhecer alguém, não sou de balada”, conta. Depois de quase um ano usando o perfil online, estava quase desistindo quando conheceu André. Com o sucesso da relação ela até mudou os rumos de sua carreira. Administradora e publicitária, agora é consultora em relacionamentos amorosos e autora do livro “O Amor está na Rede”. “Na internet você pode conhecer alguém do outro lado do mundo com quem tem mais afinidade que seu vizinho”, diz.

“Festa cheia”
Interativos, os sites de relacionamento festejam o grande volume de cadastros em seu banco de pretendentes. Há dez anos no Brasil, o Par Perfeito soma dois milhões de pessoas que acessam o serviço pelo menos uma vez ao mês entre os 30 milhões de cadastrados. “Festa boa é festa cheia, ainda mais quando você quer encontrar gente. Mas se fosse dar uma festa com 15 mil pessoas ao mesmo tempo precisaria do estádio do Morumbi”, diz Gandelman. O portal, que pertence ao grupo Match Latam, tem a expectativa de aumentar 20% a base de usuários em 2011. No mercado nacional desde o fim de 2010, o eHarmony chega ao Brasil com o objetivo de tornar-se líder da categoria. E o Be2, com oito milhões de cadastros, declara ter registrado um aumento de 600% em usuários no último ano. Mas Ruffo questiona os dígitos: “É preciso ver quantas dessas pessoas estão interagindo”.

O crescimento e investimento dos sites acompanham a evolução do acesso à internet no país. Hoje há 43,3 milhões de usuários ativos, segundo dados do Ibope de dezembro de 2010. E o internauta nacional se comporta de forma positiva para os empresários. “O brasileiro é o usuário mais liberal do mundo”, diz Gandelman. Bellan concorda: “Eles têm uma taxa de comunicação maior que a dos outros países”.

Público mais jovem
A atendente Francielli Queiroz, 23, e o técnico de manutenção Maykon da Silva, 26, se conheceram virtualmente em 2008. Ela já usava um site de encontros há pelo menos dois anos, mas não tinha engatado uma relação com sucesso. “Queria conhecer alguém interessante com quem tivesse afinidade, mas nunca gostei de ir para bares e baladas. Então, ficava muito na internet”, conta.

Como ela morava no interior de São Paulo e ele na capital, os dois mantiveram contato por meses à distância e apenas como amigos. “Contava para ele minhas desilusões amorosas”, lembra Francielli. Meses depois, ela se mudou para uma cidade mais próxima e, quando passaram a se encontrar pessoalmente, começaram a namorar. Hoje o casal está noivo e mora junto em São Paulo. “Na minha família houve uma resistência, mas eles procuraram compreender. Acho que não é diferente conhecer gente pela internet e pessoalmente”, explica Maykon, que diz ser tímido. “O computador facilita. Provavelmente eu não teria me expressado tão bem ao vivo”, completa.

Abaixo de 30 anos de idade, Francielli e Maycon são um exemplo de uma geração mais jovem que está apostando suas fichas em sites de relacionamento. No Par Perfeito os usuários entre 18 e 24 anos aumentaram 167% entre 2000 e 2011 e passaram de 12% para 32% dos cadastros. Atualmente, 23% dos usuários têm entre 25 e 35 anos e 45% a partir de 36 anos.

Mais familiarizados com a internet e curiosos na navegação, os jovens despertaram para o mercado de namoro virtual– mas, diferente do publico mais maduro, não necessariamente encaram a ferramenta com compromisso. “Se cadastram pra ver como é, mas vão embora ou se fidelizam ao site?”, pergunta Luciana Ruffo. Para Gandelman, essa faixa de idade foi criada junto com a web e lida com naturalidade com sites de namoro. “Ainda vão à festas, baladas e não sofrem com falta de tempo para conhecer alguém, mas entendem que essa é mais uma das formar de interagir”, defende o executivo.

No site Be2 os cadastros até 24 anos correspondem a 20% do total, mas a maioria dos usuários é mais madura: 68% estão entre 25 e 49 anos. O cenário é parecido no eHarmony, e Bellan explica a diferença de maturidade pela postura e objetivo do usuário. “No nosso site estão procurando um relacionamento estável e duradouro. Quem preenche um questionário com 400 itens está se comprometendo, quer encontrar alguém”, diz. No Par Perfeito, 70% das pessoas dizem querer um relacionamento sério, enquanto os outros procuram experiências diferentes e abertas.

Segurança
Seja qual for o momento de vida do internauta, Ruffo acredita que os sites são uma opção válida para encontrar um amor, mas não substituem encontros em situações não virtuais. “E é preciso tomar cuidado com os dados que você expõe ali”, aponta ela.

Uma das preocupações de usuários e especialistas é com a veracidade das informações postadas nas redes de namoro. Não há um mecanismo padrão de checagem do status social, por exemplo, embora alguns sites ofereçam uma opção para pessoas comprometidas procurarem relações fora do casamento. “Nossa preocupação é checar as fotos e os textos postados, para ver se não há besteira e se estão adequados”, diz Gandelman. Já o eHarmony diz ter uma equipe dedicada à checagem de perfis falsos e um sistema para avaliar denúncias. No papel de consultora, Erica recomenda a checagem de dados e do comportamento do outro usuário nas redes sociais antes de levar a paquera pra frente. “O desafio é tentar saber o máximo possível da outra pessoa sem revelar muito de si”, diz.

Leia também:

Flávio Gikovate: “As mulheres são confusas a respeito do homem ideal”
"O amor está mudando"
Onde eu acho um namorado novo?

    Leia tudo sobre: amor
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.