Jaqueline Gomes de Jesus, Erica Malunguinho e Jarda Araújo falam sobre feminismo trans
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Jaqueline Gomes de Jesus, Erica Malunguinho e Jarda Araújo falam sobre feminismo trans


Se você é uma pessoa antenada no movimento feminista,  provavelmente sabe que existe mais de uma vertente. Uma delas é o feminismo trans, que também pode ser chamado de transfeminismo. A vertente que nasceu nos Estados Unidos a partir de diversas reflexões que envolvem identidade de gênero e sexualidade e se concentra, principalmente, em mulheres trans e travestis.

"O feminismo trans chega com a proposta de abarcar nossas questões e subjetividades que estão atreladas ao nosso processo de formação enquanto sujeitos", explica Jarda Araújo, ativista e assistente social.

Jarda explica ainda que a criação de políticas LGBTQIAP+ eram principalmente voltadas para gays e lésbicas e, com isso, as questões trans eram deixadas por último. O feminismo trans ajudou a abrir os olhos para essa lógica e buscou se voltar para caminhos de incluir a todas as pessoas.

Esses pensamentos foram articulados com a sociedade para a ascensão das perspectivas das mulheres trans e travestis.

A deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho, primira deputada trans eleita pelo Estado, afirma que o feminismo trans também é uma crítica paras as desigualdades presentes dentro do movimento feminista ao acrescentar o debate de identidade de gênero. “Essa perspectiva afasta a ideia de que o gênero está atrelado ao órgão sexual e reitera que existem diversas formas de ser mulher”, diz.

O feminismo trans é separado do feminismo?

Não. Segundo a pesquisadora e professora de História e Psicologia, Jaqueline Gomes de Jesus, o feminismo trans nada mais é que uma vertente dentro do feminismo que diz respeito às experiências e demandas específicas das mulheres trans e travestis. É uma forma de representação dessas mulheres e de se pensar políticas, ações ou causar reflexões especificamente sobre elas, mas não exclui a existência ou a causa das mulheres cisgênero.

No entanto, ela diz que o feminismo trans não serve apenas para as pessoas trans, mas para todas as pessoas. “Quando a gente fala sobre isso, a gente fala sobre um olhar novo sobre o mundo para mudar a realidade e as discussões sobre gênero e perceber a diversidade sexual e de gênero de cada um”, afirma.

A pesquisadora explica que assim como nem toda mulher é feminista, nem toda mulher trans ou  travesti é transfeminista. Mesmo assim, elas se beneficiam com avanços que podem ser feitos pelo feminismo trans.

Quais são as reflexões do feminismo trans?

Em 2014, Jaqueline lançou o livro ‘Transfeminismo: teorias e práticas’, em que sintetiza os pensamentos e as demandas de transfeministas. Segundo a pesquisadora, a perspectiva teórica questiona a biologização do gênero , discussão influenciada pelo  feminismo negro e que visa desvincular a ideia de que o órgão sexual define automaticamente a identidade de gênero.

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Na prática, trata-se sobre valorizar as identidades, a história e a diversidade sexual e de gênero. “Espera-se combater o machismo, o sexismo, a cisheteronormatividade [ideia de uma sociedade que espera das pessoas um padrão cisgênero e heterossexual] e a ideia de que pessoas trans não têm direito à própria identidade, ao corpo ou de ir e vir”, afirma.

“Infelizmente, ainda demandamos questões básicas para a manutenção de nossas vidas, como respeito à dignidade humana, saúde, educação, empregabilidade e moradia”, completa Jarda. Ela pontua que antes mesmo do início do feminismo trans, existia um movimento organizado de travestis que surgiu no final da década de 1970.

Outro conceito importante que surgiu no feminismo trans é o conceito de cisgeneridade, que diz respeito às pessoas cuja identidade de gênero está em conformidade com o que lhes é atribuído ao nascer. Se você quer descobrir se é uma pessoa cisgênero, o iG Delas já falou sobre o assunto e pode te ajudar .

Como o feminismo trans ganhou força no Brasil?

Há dez anos, as ativistas trans Aline Freitas e Hailey Kaas trouxeram ao Brasil as discussões e os debates acerca das mulheres trans que estavam acontecendo nos Estados Unidos. “Isso foi muito importante para muitas militantes brasileiras porque elas puderam se reconhecer e se colocar como trans. Há um impacto fundamental na história secular do movimento”, diz Jaqueline.

De acordo com a pesquisadora, a Internet foi um canal importante para contribuir com o avanço e crescimento da corrente transfeminista no Brasil. “Foi assim que ele se difundiu na linguagem brasileira e nas perspectivas com relação aos problemas da nossa realidade”, afirma.

Jarda explica que um dos grandes marcos do movimento no Brasil foi a criação do blog Transfeminismo, em 2014. “O site é movimentado até hoje, com um rico acervo que reúne diversas produções de pessoas trans e travestis”, diz.

Como as pessoas cisgêneras podem apoiar o feminismo trans?

Jaqueline afirma que visibilidade é algo bom, mas mais do que isso também importa a maneira como as pessoas trans são vistas . “A gente vê uma tentativa de retração, uma naturalização dos estereótipos e de pessoas que só nos vêem por olhares depreciativos”, afirma. Por isso, ela ressalta a relevância de se falar não apenas dos problemas enfrentados por mulheres trans e travestis, mas pensar em alternativas para solucionar essas questões.

De acordo com a pesquisadora, as pessoas cisgêneras podem ajudar a impulsionar o feminismo trans de algumas maneiras. Uma delas é ler e compartilhar a produção das mulheres trans e travestis, desde livros e artigos até postagens nas redes sociais. “Além de ler, é importante comprar nossas publicações para investir e valorizar financeiramente a produção de pessoas trans”, explica.

Além disso, ela ressalta a importância de investir em pessoas e organizações que defendem o feminismo trans e seus debates junto à população trans, criando ações efetivas em prol da equidade. O voto também é citado pela pesquisadora como uma ferramenta importante para que mulheres trans e travestis sejam protagonistas na política e possam decidir e pensar em leis para criar soluções.

Jaqueline também diz que é importante que pessoas cisgênero reconheçam onde estão seus privilégios e os usem para ajudar pessoas trans a viver de forma plena. “Invista na sua empresa, em ações educacionais para valorizar a população trans, indique essas pessoas em suas empresas”, diz.

Erica explica que existe uma crença de que pessoas trans e travestis não podem estar em determinados lugares, como na política. Um dos objetivos de sua candidatura era mudar isso. "Quando me coloco em evidência na condição de parlamentar, possibilidades são criadas para que outras pessoas trans e travestis possam ser vistas. A mudança não está somente na minha pessoa, mas no fato de compreendermos que podemos fazer muito mais do que aquilo que nos disseram", afirma.

Para ela, seu posicionamento como parlamentar é encarado como uma reafirmação de seu compromisso a outras identidades de gênero. “Quando penso em políticas para nós, me coloco à disposição para mudar o cenário de pessoas historicamente e incessantemente colocadas em um estado de vulnerabilidade para um lugar como protagonistas de ações sociais e políticas”.

De acordo com Erica, é preciso que pessoas cisgênero se unam às pessoas trans para ajudar a parar a violência sofrida por trans e travestis. “Entendendo que isso não é uma questão só das pessoas trans porque quando a gente diminui a violência em relação a alguns grupos, consequentemente estamos diminuindo a violência contra todos os corpos”, explica.

“Sinalize apoio e some nas lutas para a construção de outras realidades que não estejam atreladas às narrativas de violência e dificuldade. Assim, pensamos em conjunto em formas de intensificar a luta contra a transfobia  e outros fins que não a morte”, diz Jarda.

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