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Cinco modelos plus size conversaram com o Delas sobre o tema, e elas mostram que são símbolo de representatividade e quebra de padrões

Com a questão da representatividade sendo tão debatida por aí, está cada vez mais comum encontrar modelos plus size desfilando para grandes marcas ou participando de ensaios fotográficos para campanhas e editoriais de moda. Mas será que essa  indústria realmente está se tornando mais inclusiva para as mulheres que têm um corpo "fora do padrão" ?

O Delas conversou com cinco modelos plus size para saber como elas enxergam representatividade no mercado atual
Divulgação/Ford Models Brasil
O Delas conversou com cinco modelos plus size para saber como elas enxergam representatividade no mercado atual

Pensando isso, o Delas  convsersou com cinco modelos plus size  , agenciadas pela Ford Models Brasil, para trazer esse debate sobre quebra de padrões e entender a visão delas sobre inclusividade. Letícia Pires, Betina Körbes, Marta Adami, Nahuane Drumond e Thais Rumpel afirmam que é possível, sim, ver essa inclusão acontecendo, mas que ainda existe muita coisa para ser descontruída sobre esses "padrões".

"A cada momento o mercado que chamamos de 'curve' ou 'plus' está tomando lugar dentro da indústria da moda. Isso acontece graças a uma enorme mobilização de pessoas que não se sentem representadas por aquele modelo padrão que nós conhecemos", comenta Marta. 

Ela menciona que, no passado, era comum que uma modelo magra ganhasse mais visibilidade e atenção do que as modelos plus size. "Hoje, a aceitação é maior, mas é preciso lembrar que são as pessoas e marcas influentes no mercado que assistem e investem nesses desfiles e investir em variedades de tamanhos, modelos e modelagens pode ser uma oportunidade para atingir todos os públicos, buscando essa representatividade tão importante."

Letícia lembra que essa mudança é gradativa. Segundo ela, essa representatividade está crescendo desde meados de 2013 e, na época, o que existia eram campanhas segmentadas, mas poucas marcas grandes incluíam modelos "plus" em campanhas convencionais. 

"Hoje, além de muitas marcas grandes incluírem essas modelos, surgiram marcas especializadas que são bacanas. Acredito que além de incluir modelos plus size nas campanhas, as marcas estão pensando na diversidade de público que esse nicho de mercado tem, não limitando apenas como 'moda para gorda'. Fico muito feliz em ver campanhas mais jovens, descoladas, 'diferentonas' e pensadas para além de moda plus size e ponto", diz.

Mesmo assim, o cenário ainda não é 100% satisfatório. Mesmo que  Ashley Graham brilhe como a modelo plus mais conhecida do mundo, ainda existem problemas quando o assunto são os desfiles. Em 2018, 30 modelos grandes desfilaram nas "Fashion Weeks" das principais capitais para a temporada outono/inverno (27 em Nova York, três em Paris e nenhuma em Londres e Milão), oito a menos do que a temporada anterior e o menor número em período de dois anos. 

Quando pensamos no Brasil, a realidade não é tão diferente. A  São Paulo Fashion Week (SPFW)  , que é considerado o maior evento de moda por aqui e um dos mais importantes da América Latina, só teve a presença de modelos plus size pela primeira vez na edição de 2016. 

Modelos plus size e a representatividade nas passarelas

As cinco modelos plus size afirmam que a passarela é um espaço importante para mostrar que corpos diferentes existem
Reprodução/Instagram/thaisrumpel/bekorbes
As cinco modelos plus size afirmam que a passarela é um espaço importante para mostrar que corpos diferentes existem

Nahuane comenta que essa reivindicação pelo "espaço das plus size" é também uma luta para que as mulheres se sintam confortáveis com o próprio corpo, independente do tipo de roupa que estiverem usando. Outra questão é sobre a dificuldade em encontrar peças em tamanhos maiores nas lojas, algo que também faz parte dessa representatividade. 

Thais concorda. Para ela, quanto mais mulheres verem que elas podem usar qualquer tipo de roupa porque outras mulheres gordas estão usando, maior é a compreensão de que a moda pode ser inclusiva. "É preciso entender que não existe apenas um tipo de corpo no mercado, que todos os tipos de manequim adorariam poder entrar em qualquer loja para comprar e que adoraríamos ver todos os tipos de corpos desfilando na passarela."

Dessa forma, o espaço das passarelas pode ser uma abertura importante para que essas mulheres encontrem voz. "O mercado da moda nas passarelas sempre foi muito carente de representatividade, estão sempre em aparição apenas modelos extremamente magras, e quando incluem modelos plus size, é um manequim mínimo que quase não se enquadra no real tamanho 'plus'. As passarelas precisam ser o reflexo do que nos encontramos nas ruas."

Betina complementa que a representatividade é uma questão bastante importante porque pode ajudar as pessoas a terem uma autoestima maior e se perceberem como parte daquilo. "Eu, como mulher gorda e deficiente auditiva sempre quis me ver representada pela moda! Ser modelo é isso: ajudar outras pessoas a se identificarem comigo e fazer com que elas também se sintam representadas e incluídas na sociedade", afirma. 

"Eu cresci vendo mulheres maravilhosas em capas de revista em desfiles, na televisão, todas muito mais magras do que eu, que sempre fui grandona. Por muito tempo me achei feia e não merecedora das coisas por não estar no padrão estético imposto pela sociedade, e que não poderia ser feliz se eu não fosse daquele jeito", lembra Letícia. 

Segundo ela, essa representatividade, seja através dos desfiles, das revistas ou em portais de moda, pode ser importante para "aprender a lidar com o sistema e mudá-lo de alguma forma", mas que a mudança não deve ser algo radical.

"Eu acredito que devemos ampliar essa inclusão e mostrar as diversas possibilidades de ser linda, amada e feliz. Quando uma mulher gorda desfila, é a maior prova de que as mudanças são possíveis e necessárias para que, daqui alguns anos, as meninas não sofram tanto por não pertencerem a determinado padrão de beleza", diz. 

As modelos plus size e o estereótipo da mulher gorda

De acordo com modelos plus size, os pensamentos sobre a realidade da mulher gorda acaba criando um 'estereótipo'
Reprodução/Instagram/nahuane_d/letz.br
De acordo com modelos plus size, os pensamentos sobre a realidade da mulher gorda acaba criando um 'estereótipo'

Segundo as modelos plus size, uma coisa que perpetua essa ideia de que as mulheres gordas não podem ocupar determinados locais ou usarem a roupa que querem, por exemplo, é um "estereótipo" criado pelas pessoas. "As pessoas pensam que as mulheres são gordas por serem preguiçosas, que não fazem exercícios, que são mal cuidadas, entre outras coisas. Por isso, elas também são obrigadas a lembrar que são gordas, como um rótulo", comenta Betina. 

Nahuane lembra que, ainda hoje, existe um padrão a se seguir para que uma mulher seja considerada "bonita" e mesmo algumas mulheres gordas acabam ficando de fora. "O mercado ainda valoriza um corpo plus size sem barriga, com cintura fina, bumbum grande e coxas grossas. E isso também acaba criando um desencontro entre o 'curvilíneo' e o 'plus'". 

Esse padrão, porém, não é algo apenas do mercado. Para Marta, as mulheres são comparadas umas com as outras o tempo inteiro. "A comparação é feita tanto entre a mulher gorda e a magra, quanto da gorda comparada à uma mulher que é mais gorda. Porém, devemos lembrar que existe beleza em tudo e é isso muito relativo, porque o que é bonito para alguns pode ser considerado feio para outros." 

"Com o passar dos anos e conforme os padrões de beleza foram mudando, foi possível observar que, de uma maneira geral, a mulher sempre precisou se manter com determinado corpo para a atração do sexo oposto", comenta. Esse fator acabou gerando certa  pressão estética para que as mulheres se sentissem "adequadas", mas isso não se resume apenas às modelos plus size. 

Esse "rótulo" criado para determinar a beleza das mulheres acabou sendo ainda mais intenso com a popularidade das redes sociais. Mas da mesma forma que é possível compartilhar fotos no Instagram para mostrar o corpo perfeito e a vida ideal, também é possível tentar quebrar com essa ideia e exibir a realidade. 

"Creio que as redes sociais permitem mostrar além do rótulo que nos é dado. Eu não sou apenas uma mulher gorda, sou uma mulher gorda que ama esporte, curte viajar, pinta nas horas vagas e tenho inúmeras outras qualidades e características. Essas plataformas nos permitem compartilhar além da nossa imagem estética, rompendo com essas ideias, quebrando paradigmas e escrevendo nossa própria história", diz Letícia. 

Essa realidade somada à representatividade nas passarelas e na moda, por exemplo, é o que pode fazer a diferença. "Acho que esse cenário pode mudar quando as marcas começarem ter mais a iniciativa de colocar mulheres 'curve' e 'plus size' em suas campanhas, mostrando ao mundo que nem todos temos corpos perfeito, que cada um tem seu biotipo e que esse estereótipo de mulher gorda não deve existe mais", afirma Thais. 

Marcas podem fazer a diferença para quebrar ideia de "padrão"

As modelos plus size afirmam que as marcas precisam abraçar a ideia da representatividade para quebrar com padrões
Reprodução/Instagram/fordmodelscurve/nahuane_d/
As modelos plus size afirmam que as marcas precisam abraçar a ideia da representatividade para quebrar com padrões

De acordo com Thais, as marcas tem um papel fundamental para quebrar com esse estereótipo criado da gorda "sem barriga e cheia de curvas". "As marcas deveriam começar a se identificar mais com o mundo real, em que nem todas as mulheres são magras."

"Se começarem a mostrar isso em suas campanhas e catálogos, também vão levar adiante a ideia de que moda é para todos e que não é só porque você não está dentro desse padrão que a sociedade definiu que não pode usar as mesmas roupas que outras pessoas que estão dentro desse 'ideal de corpo'", diz. 

Nahuane também concorda que essa questão da representatividade real pode ajudar a romper com os padrões, mas que isso é algo que deve ser cobrado das empresas. "As marcas deveriam buscar por manequins maiores e diversidade nos modelos das peças fazendo com que as mulheres tenham facilidade para encontrá-las e fiquem confortáveis ao vesti-las."

Letícia lembra que essa busca por mais representatividade está bastante em alta e isso já fez com que ela conseguisse muitos trabalhos, mas nem todas as marcas honravam esse objetivo. "Algumas vezes eu percebi que estava apenas 'cumprindo cota', que estava ali para vender uma imagem de marca inclusiva para ganhar as clientes, sendo que a marca de fato não abraçava essa ideia, mas que precisava ter pelo menos uma modelo plus em cada campanha."

"É por isso que a marca também precisa de fato abraçar essa ideia, e acreditar que a inclusão é algo importante não apenas para ganhar dinheiro e sentir que a diversidade é o caminho. Isso fica perceptível no resultado da campanha", complementa.

Por outro lado, elas acreditam que essa inclusão vai muito além do corpo. Outras pautas que devem ser trabalhadas, além das modelos plus size, é a busca pela representatividade de pessoas com deficiência, por exemplo, ou incluir mais modelos negras em desfiles e campanhas. 

Gordofobia e aceitação do corpo enquanto modelo plus size

As modelos plus size contam que já foram desvalorizadas por serem mulheres gordas, mas é preciso focar na aceitação
Reprodução/Instagram/bekorbes
As modelos plus size contam que já foram desvalorizadas por serem mulheres gordas, mas é preciso focar na aceitação

Betina conta que a gordofobia é outra questão que está presente no dia a dia de uma mulher gorda e isso pode causar muitos problemas para além de ter dificuldade de encontrar roupas. "Quando eu era mais nova, era muito difícil encontrar roupas que me agradavam por causa do meu tamanho, só roupas para mulheres grávidas ou mais velhas me serviam, mas não tinha nada a ver com o meu estilo. Minha autoestima sofreu bastante com isso."

"Outra coisa que me acontecia muito eram as pessoas que vinham me dizer que eu sou bonita, mas deveria emagrecer mais para ficar 'mais linda', porque dessa forma meu corpo seria tão bonito como o rosto. Como se eu, do jeito que sou, não fosse bonita o suficiente", diz. 

Nahuane, que está trabalhando em Londres há cerca de seis meses, também lembra de quando precisou ouvir de um modelo estrangeiro sobre como “deve ser muito legal fazer parte do mercado de modelos plus size”. "Eu parei por um minuto e comecei a questionar 'O que eu, como plus size, faço no meu trabalho que uma modelo magra não faz no dela?'." 

Esse questionamento e "validação" do próprio corpo e trabalho, porém, é mais um motivo para que as marcas invistam na representatividade das modelos plus size . "É a oportunidade de mostrar para as pessoas que devemos aceitar nossos corpos do jeito que são e que eles não são um problema pra ninguém. O mercado plus size crescendo muito e está mais do que na hora de mostrar que a moda também pode ser mais inclusiva", finaliza Betina. 

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