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“Ao final da prova, eu estava exausta, obviamente, mas eu estava muito feliz, com uma sensação muito diferente, única, e ali tudo fez sentido", explica a brasileira sobre a primeira vez em que completou uma ultramaratona

“A gente largou com mais ou menos 15ºC ou 17ºC, e à noite, no topo das montanhas, ali no meio da prova, com uns 50 km ou 60 km corridos já, a temperatura caiu bruscamente para -10ºC. Eu passei muito, muito frio e estava despreparada para isso. Demorei para colocar a roupa térmica, a roupa impermeável, choveu muito também, então eu quase tive uma hipotermia, foi o maior desafio da minha vida”, afirma Nínive Oliveira, de 30 anos.

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Nínive Oliveira tinha a corrida apenas como hobbie, até completar uma prova de 75 km e descobrir um sentimento novo
Arquivo pessoal
Nínive Oliveira tinha a corrida apenas como hobbie, até completar uma prova de 75 km e descobrir um sentimento novo

Foram mais de 22 horas lutando contra o clima instável e tentando manter o corpo e a mente ligados no mesmo objetivo: cruzar a linha de chegada após 100 km em trilhas de montanha, com mais de seis mil metros de altimetria acumulada. E nessa mesma prova, na França, em agosto do ano passado, Nínive Oliveira conseguiu ser a primeira brasileira mulher a finalizar a ultramaratona .

Ela conta que esperava terminar a prova em bem menos tempo, mas que sofreu muito com as surpresas da montanha naquele dia. A atleta teve de parar, comer comida quente nos pontos de apoio para, literalmente, não congelar, ela chorou, pensou em desistir, mas seguiu em frente e alcançou seu objetivo. Ela afirma: não precisa ser a primeira colocada em uma ultramaratona como essa, cruzar a linha de chegada já te faz uma vencedora.

Mas todo esse sofrimento vale a pena? Por que correr 100 km e se arriscar tanto? Ao mesmo tempo em que Nínive Oliveira já viveu dificuldades como as citadas acima, foi também nas montanhas onde ela viveu os momentos mais incríveis de sua vida.

“Toda linha de chegada tem um sentimento bom, mas a primeira prova internacional que eu fiz, em junho de 2017, na Áustria, marcou mais. Fui sétima colocada geral, e é muito legal ter a sensação de estar entre as dez primeiras. Foi meu melhor tempo de 100 km, um dia bom, em que tudo deu certo, o clima ajudou, eu estava em uma sintonia muito boa com a montanha… E é isso, temos dias bons e dias ruins, é um esporte de alta intensidade e alto risco.”

Família foi a base de Nínive Oliveira

Ultramaratonista Nínive Oliveira após completar a prova mais difícil de sua vida, na França, em agosto do ano passado
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Ultramaratonista Nínive Oliveira após completar a prova mais difícil de sua vida, na França, em agosto do ano passado

Não foi de um dia para o outro, é claro, que Nínive Oliveira se tornou ultramaratonista de montanha . Ela conheceu esse esporte através de amigos, e sua primeira prova em montanha, ainda curta, de 21 km, foi aqui no Brasil mesmo, perto da região de Campos do Jordão, em São Paulo.

Ela já havia se aventurado em uma ultramaratona de 75 km no litoral paulista, a tradicional Bertioga-Maresias, se apaixonou pelas longas distâncias, mas nada se compara a montanhas, como explica Nínive.

“A dificuldade é muito superior a corrida de rua, é quase um esporte diferente, mas foi aí que eu descobri que existia esse esporte. A modalidade não é tão conhecida aqui, mas na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, já é mais culturalmente conhecida. E para mim foi perfeito, uniu duas paixões: longas distâncias e montanhas.”

Sua primeira prova de 100 km ocorreu em outubro de 2016 no litoral catarinense, quando tinha 28 anos. A preparação para esse novo desafio, entretanto, começou indiretamente desde a infância. Os pais da atleta sempre estiveram envolvidos com esporte, então desde criança ela esteve inserida nesse universo.

Ainda bem pequena, jogou tênis, modalidade que é uma paixão do pai. Dos oito aos 18, jogou vôlei. Competia sério, ganhava até mesmo salário, treinava todos os dias, e só não se profissionalizou por ser “baixinha” para o vôlei, com seus 1,69m.

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“Eu treino sério desde os oito anos de idade. Meu corpo tem uma estrutura fisiológico para o que faço hoje. Eu, por ser atleta desde criança, me conheço muito bem, conheço meus limites e sei lidar com isso. A base me ajudou muito.”

O pai de Nínive Oliveira, Rubens, também foi responsável por ela estar sempre presente em competições, mesmo que não competindo, já que ele sempre praticou ciclismo e, posteriormente, se tornou triatleta. Durante a infância e adolescência ela conviveu com essa realidade, mas foi a mãe, Angélica, que lhe apresentou a corrida.

A mãe era formada em educação física, assim como Nínive, e tinha como uma paixão a corrida. Porém, para a agora ultramaratonista, correr era apenas um hobbie. Aos 18, ela deixou o vôlei, manteve os treinos de fortalecimento muscular na academia, chegou a trabalhar como personal e, mais ou menos aos 22, começou a correr sem compromisso.

“A corrida era totalmente um hobbie, corria quando tinha vontade, às vezes na esteira da academia, às vezes com minha mãe no final de semana, era uma coisa totalmente por prazer, não tinha compromisso com nada”, explica Nínive Oliveira. Sua primeira prova, de 10k, foi ao lado da mãe, por puro prazer. E foi então que sua vida “virou do avesso”.

Paixão de mãe para filha

Hoje, Nínive Oliveira tem patrocínio e tudo mais, mas no passado teve de largar tudo para se dedicar ao esporte
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Hoje, Nínive Oliveira tem patrocínio e tudo mais, mas no passado teve de largar tudo para se dedicar ao esporte

Em março de 2015, Angélica não conseguiu mais correr ao lado da filha fisicamente, mas conseguiu plantar uma “sementinha” no coração de Nínive Oliveira que ainda hoje está florecendo. “Perdi minha mãe, e a vida dá aquela volta, né? Vira do avesso. Naquele momento eu me mantive correndo por prazer. E assim, eu não sei dizer o que me despertou a fazer isso, mas, em outubro de 2015, por influência de amigos, eu me inscrevi em uma prova de 75km.”

Foi a prova Bertioga-Maresias. Na época, o pai havia se mudado para Florianópolis, em Santa Catarina, mas foi a ele que a futura atleta recorreu para fazer sua inscrição. Por ser uma prova de longa distância, os corredores são obrigados a ter um apoio os acompanhando, de bicicleta ou carro. O pai estranhou o interesse pela ultramaratona, mas topou.

“Ao final da prova, eu estava exausta, obviamente, mas eu estava muito feliz, com uma sensação muito diferente, única, e ali tudo fez sentido. Eu falei ‘Meu Deus, é isso que eu quero fazer para o resto da minha vida’. Até me arrepio de lembrar desse momento.”

Qualquer que seja sua paixão, a encontre e mergulhe de cabeça

Seja sua paixão montanhas ou escritório de advocacia, Nínive Oliveira afirma que devemos sempre
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Seja sua paixão montanhas ou escritório de advocacia, Nínive Oliveira afirma que devemos sempre "mergulhar de cabeça"

Nínive Oliveira conta que sempre buscou ser uma pessoa bastante espiritualizada, e isso ficou ainda mais forte após perder a mãe. E se tem uma coisa que todo esse processo, até cruzar a linha de chegada após 100 km em montanhas, a ensinou foi que devemos buscar o que nos faz feliz de fato. Não haveria tempo para perder tentando agradar os outros.

“Um ano e meio após meu pai se mudar para Florianópolis, eu fiz o mesmo para ficar mais perto de montanhas e me desenvolver mais no esporte. Comecei uma vida nova e, hoje, vivo do esporte, estou fazendo o que amo”, diz a atleta que hoje tem até o patrocínio da Columbia Sportswear e da Hidrolight.

A ultramaratonista percebeu que não estava 100% feliz antes. Ela afirma que é apaixonada por educação física, depois estudou fisioterapia também e, ainda hoje, estuda muito essa área de saúde, mas sempre viu o trabalho na academia como algo temporário.

“Quando eu completei essa minha primeira ultramaratona, de 75 km, meu coração bateu diferente e tudo fez sentido, então eu entrei em um processo de buscar isso cada vez mais. Eu precisava sentir isso sempre. E foi nesse processo que descobri essa minha paixão e estou buscando isso cada vez mais.

“Quando você encontra seu caminho, quando encontra o que você ama, parece que tudo flui, que tudo vai te levando para isso. Correr provas de longas distâncias é a minha jornada, meu objetivo, mas óbvio que não é para qualquer um. E as pessoas não têm de querer isso só porque os outros fazem.

“O que eu quero dizer é que cada um tem de buscar o que lhe faz feliz, o que faz o coração realmente bater mais forte, o que você é realmente apaixonado na vida e seguir esse caminho. Seja correr 100 km ou trabalhar em um escritório, qualquer que seja sua paixão, a encontre e mergulhe de cabeça. No caso, a minha paixão é um pouquinho exótica, um pouquinho diferente da maioria, mas é isso, é a minha.”

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Mas como você consegue?

Apesar das dificuldades que já viveu nas montanhas, os melhores momentos de Nínive Oliveira também foram nelas
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Apesar das dificuldades que já viveu nas montanhas, os melhores momentos de Nínive Oliveira também foram nelas

A ultramaratonista conta que uma das perguntas que mais escuta é “Mas como você consegue?”. E ela é direta na resposta: “Os nossos limites estão todos dentro da nossa cabeça. Qualquer pessoa, com jeito e preparo, porque o físico é importante também, mas qualquer pessoa é capaz de correr a distância que ela quiser.

"Treinar o corpo é importante? É, mas a sua cabeça é quem manda. Depois de algumas horas, por exemplo, seu corpo já está cansado, e é 100% sua cabeça quem manda. Se ela não está bem, você não vai dar seu melhor, mas se ela está bem, você vai.”

O que Nínive aprendeu com a ultramaratona pode ser levado para qualquer aspecto da nossa vida. Muita gente tem vontade, mas tem medo, e a dica de quem já transformou sua vida é começar aos poucos, seguir os processos certos, progressivamente e sempre com a supervisão e ajuda de um profissional. “Estamos aqui para evoluir, cada um em sua jornada”, completa Nínive.

Para saber mais sobre a ultramaratonista Nínive Oliveira , siga a página   "Só na Endorfina"  no Instagram e acompanhe nossa coluna aqui no canal Delas.

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