Brunna Gonçalves
Reprodução/BBB
Brunna Gonçalves


Por causa do racismo estrutural que constituiu a identidade nacional das Américas e do Brasil, a mulher negra é constantemente alvo de estereótipos, tais como a “mulata tipo exportação”, a mãe preta ou a mulher negra raivosa/arrogante/difícil . Isso se reflete quando observamos pesquisas acadêmicas ou dados de instituições de pesquisa e vemos que o resultado disso são a solidão da mulher negra , a pouca presença de mulheres negras em cargos de comando e sua maioria em ocupações precarizadas (como o trabalho de empregada doméstica) e a deterioração da saúde mental da população preta em geral, entre outros.


Constantemente essas questões são individualizadas, como se o problema fosse de uma mulher negra particularmente difícil, e não uma estrutura que nos permite inseri-las dentro desses dados. Isso porque quando falamos de mulheres, em geral pensamos em mulheres brancas. A elas é permitida a individualidade, enquanto a mulher negra em geral é cobrada para ser o modelo de representação de todo um grupo de pessoas. Nesse sentido, apontar o racismo estrutural é tomado como exagero, paranoia ou mimimi, enquanto uma conduta que não tome posição sobre esses temas faz com que essa mulher seja classificada como equivocada ou pouco consciente politicamente.

Não precisa ser um acadêmico na área de gênero e raça para verificar isso. Basta assistir ao BBB. Na edição do ano passado, o BBB 21 trouxe um elenco com a maior quantidade de pessoas negras até aquele momento no programa. O que a princípio animou influenciadores pretos e páginas de jornalismo voltado para a questão racial, acabou se tornando num transtorno. Ao descobrir que nem todas as pessoas negras compartilham da mesma visão política e que discordam entre si como quaisquer pessoas, logo surgiram os comentários de que “os próprios negros não se unem”. 

Karol Conká foi “cancelada” pela internet e perdeu seguidores e contratos de trabalho . Mas para o público do BBB isso não era o suficiente. Era preciso fazer com que ela saísse com recorde de rejeição, assim como outros participantes negros do reality: Nego Di, Projota e Lumena. Esta última, alvo de chacota pelo excessivo uso de linguagem militante - quem não se lembra do meme “Lumena autorizou” ou "ressignificar a informação”?. 

Nessa edição três pessoas negras foram longe: Gil do Vigor (considerado claro demais para ser negro por colegas de confinamento) Camilla de Lucas e João Luiz Pedrosa. Sobre esses últimos, diante da situação de racismo vivenciada por João, o modo como eles reagiram diz muito sobre sua permanência na casa: chorando escondido e sem elevar a voz contra a agressão, ambos se comportaram de modo aceitável,na condição de vítimas. 

O sofrimento de Camila e João teve repercussões fora da casa. Ludmilla, casada com Brunna Gonçalves, ao se apresentar em uma festa na casa falou de respeito . Brunna, por sua vez, apareceu com os cabelos naturais, sem as laces, que são sua marca registrada. 

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Mas passemos ao BBB 22 e suas participantes negras. Na primeira semana de reality Natália Deodato foi notícia fora da casa duas vezes.  Primeiro por ter dado um declaração um tanto romantizada sobre a escravidão e depois, por conta de um vídeo íntimo vazado. Chegando a um mês de programa Natália se tornou assunto por ter sido preterida por Lucas após uma tarde de troca de carinhos na piscina . Ele disse que não queria ficar com ninguém no programa e mais tarde beijou Eslovênia, com quem formou um casal desde então. 

Natália, sentindo a solidão da mulher negra mais uma vez, reagiu com choro e raiva, o que foi visto como exagerado e criticado fora da casa. No entanto, quando Jade Picon explicou às outras colegas brancas de confinamento do que se tratava aquela explosão de sentimentos, foi automaticamente considerada “fada sensata”, título que costuma ser dado a qualquer mulher branca dentro dos padrões de beleza que diz o óbvio.

Por fim, Natália esteve no centro dos comentários sobre o BBB ao ser agredida por Maria - outra mulher negra - em uma dinâmica, o Jogo da Discórdia . Antes de receber o golpe do balde na cabeça, Natália foi classificada pela maioria das pessoas como arrogante, difícil, agressiva. Com a expulsão de Maria, ela, agora ocupando a posição de vítima, cresceu na preferência do público e escapou da eliminação, não sem se sentir culpada por tirar a oportunidade de outra mulher preta seguir no programa. 

Esta semana, Brunna Gonçalves foi indicada ao “paredão”. Considerada “planta”, como são chamados os participantes considerados pouco expressivos no jogo, Brunna conta com o apoio de sua esposa Ludmilla para permanecer na casa . E neste ponto chegamos ao título deste texto: calada vence? Ludmilla acertou em cheio quando disse que prefere que Brunna seja planta, já que o lugar reservado para as mulheres negras tende a ser o de agressora/raivosa/arrogante ou de vítima.


Escrevo esse texto no dia em que Brunna pode deixar o reality, preocupada com o fato de que uma mulher negra calada está errada, já que Brunna tem sido apontada nas enquetes sobre o programa como provável eliminada da semana. Afinal, o que há de ruim em ser planta? Se posicionar, como Lumena, faz com que você seja considerada chata, arrogante, raivosa. Não demonstrar domínio sobre a história negra, como Natália, te faz ser alvo de críticas na internet.

Confrontos abertos como o de Karol resultam em recorde de rejeição. Sair de cena e chorar no privado, como fez Natália, resultam em outro tipo de crítica. A indicação de Brunna e sua possível eliminação mostra que nem sempre “calada vence”. Porque mulher preta existindo é um alvo e precisa provar que merece estar onde estar. Isso cansa. Isso doi. Isso é racismo.

** Paraense radicada em São Paulo. Fhoutine Marie é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará, com mestrado e doutorado em Ciência Política. Participa como autora da coletânea “Tem Saída? Ensaios Críticos Sobre o Brasil” (2017) e do livro “Neoliberalismo, Feminismo e Contracondutas - Perspectivas Foucaultianas” (2019) . É consultora nas áreas de gênero, raça e diversidade. No iG, é editora de Delas e Receitas e escreve a coluna Dra. Fufu.

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