Ecocachos promete auxiliar mulheres em transição capilar sem danificar os fios
Fluxo Consultoria/UFRJ
Ecocachos promete auxiliar mulheres em transição capilar sem danificar os fios


O fenômeno da  transição capilar  vem crescendo nos últimos anos. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Google Brand Lab, as buscas por transição capilar tiveram um boom de 55% entre 2015 e 2017, tornando-se uma das principais formas de encorajar mulheres a manter seus cabelos naturais, principalmente mulheres negras.

No entanto, o processo da  transição capilar não é nada simples, já que altera todo  cronograma capilar para que a estrutura natural dos fios sejam respeitadas. Além disso, existem muitos dias “ruins” em que os cabelos não se adaptam às expectativas do que se espera, causando sensações de baixa autoestima.

A estudante de engenharia civil Thamyris Costa já iniciou e abandonou a transição capilar  duas ou três vezes, mas não conseguia chegar até o final porque não se sentia confortável com a aparência dos fios. Ao pesquisar em grupos de Facebook sobre a relação de outras mulheres com a transição, Costa diz ter encontrado muitas situações desagradáveis.


“Tem coisas absurdas que acontecem com essas mulheres, toda questão do big chop, que é o maior vilão de todas as mulheres que fazem transição capilar, é muito agressiva para a autoestima”, explica. O big chop, termo também chamado de BC, significa cortar todos os fios com química , o que geralmente tira todo comprimento do cabelo.

Com isso, a estudante de engenharia explicou que decidiu pesquisar se existia um equipamento que não danificasse os fios e ajudasse mulheres a passarem pela transição capilar. “Decidi ir atrás das marcas conhecidas de chapinha e secador, mas não tive resposta. Com a pandemia, pensei que eu poderia ser a pessoa certa para idealizar o produto”, diz.

A estudante decidiu entrar em contato com a empresa Fluxo Consultoria, empresa júnior da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que desenvolve projetos da área de engenharia. Ao perceber que o produto que Costa estava propondo era inovador no mercado, abarcou o produto — e o entregou para um time de mulheres para fazer o desenvolvimento.

O projeto foi gerenciado e elaborado pelas estudantes Amanda Santoro, Carolina Chacon e Raquel Cavalcanti, estudantes de Engenharia Naval, Mecânica e Nuclear, respectivamente, e contou com consultoria e testes realizados por Costa. O grupo contou ainda com a ajuda de um estagiário externo, Gabriel Sousa, que realizou todos os testes mecânicos presenciais. Assim, nasceria o Ecocachos, um modelador próprio para cabelos que estão em transição capilar.

Thamyris Costa (centro), idealizadora do EcoCachos, com Carolina Chacon, Raquel Cavalcanti e Amanda Santoro
Fluxo Consultoria/UFRJ
Thamyris Costa (centro), idealizadora do EcoCachos, com Carolina Chacon, Raquel Cavalcanti e Amanda Santoro


Construindo o Ecocachos

Nos últimos anos, o mercado tem implementado cada vez mais produtos para  cabelos cacheados e crespos, o que é visto como positivo para a inclusão e incentivo para que as mulheres usassem seus fios crespos ou cacheados . Isso é uma consequência do aumento de interesse e de buscas para esse tipo de produtos: a pesquisa do Google Brand Lab aponta que, em 2016, as buscas por  cabelos cacheados na plataforma de pesquisa aumentaram 232%, ultrapassando pela primeira vez as buscas por cabelos lisos.

No entanto, Santoro afirma que essa mudança se restringe apenas ao setor de cosméticos. Por esse motivo, traçar o projeto e os diferenciais que seriam próprios para o uso do Ecocachos durante a transição capilar exigiu muitas pesquisas sobre equipamento, material e, principalmente, sobre cabelos.

Algo que descobriram é que a relação entre chapinha , secador e  babyliss e os cabelos que passam pela transição é complicada. “Pesquisas que encontramos afirmam que o contato do fio com uma temperatura com mais de 80º C começa a estragar a estrutura capilar. Por isso, muitas mulheres ficam sem conseguir modelar o cabelo por medo de danificar”, explica Chacon.

Devido a esse fato os cachos não ficam definidos caso a chapinha seja usada, justamente devido a essa alta na temperatura. “A gente pesquisou os métodos de funcionamento desses produtos para entender como fazer com que o nosso fosse diferente”, afirma.

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Outro requisito importante frisado por Costa sobre o projeto é de que ele deveria ser utilizável e próprio para todos os tipos de cacho. Diante disso, as pesquisadoras criaram um regulador de curvatura, que pode ser adaptado conforme às necessidades de cada fio. A força dos jatos de ar que saem do equipamento também foram regulados de maneira que o cacho não desmanche.

Cavalcanti reforça que outro grande diferencial é que a maneira que o material funciona permite que o cacho seja modelado durante a secagem. “Por não conter uma chapa como o babyliss, o Ecocachos trabalha justamente no fio úmido para que ele possa secar no formato cacheado”, explica. “A ideia é que o ar seja o que modela o fio, e não uma prancha que esquenta", complementa Chacon.

As engenheiras realizaram um esboço do modelador e modelagens em 3D do projeto, para simular como ele seria formado. Houve ainda testes e muitas pesquisas para que a estrutura do produto fosse feita de material sustentável, de fácil utilização e que pudesse ser carregada ou transportada sem dificuldades e de maneira leve.

O cronograma de pesquisa até a idealização e finalização do projeto levou 110 dias e foi desenvolvido quase que inteiramente de maneira remota, devido à pandemia do novo coronavírus. Santoro e Costa explicam que isso causou diversas inseguranças de que o projeto daria certo.

“Estando on-line e sem contato pessoal, com uma só vendo o rosto da outra, dá um ar de medo e de desconfiança de que aquilo vai realmente funcionar, o que pode ser prejudicial para a situação”, diz Santoro.

No entanto, as dúvidas se foram quando Costa testou o Ecocachos pela primeira vez. “Quando o primeiro cachinho se formou, eu quase chorei”, afirma. Para ela, ver esse projeto sair do papel foi mais do que uma realização pessoal, mas uma maneira de tornar o processo de transição capilar mais confortável para outras pessoas.

“Fiquei aliviada quando vi que deu certo, porque agora vou poder ajudar as pessoas. A autoestima das mulheres vai melhorar, porque elas vão se olhar no espelho e se sentir bem com aquilo”, afirma. “Além disso, elas não vão desistir da transição capilar no meio do caminho. A intenção é essa, fazer com que elas cheguem até o final. É se olhar no espelho e dizer ‘nossa, eu estou muito linda com esse cabelo”.

O Ecocachos está passando pelas burocracias de patente, que devem ser finalizadas em breve. Agora, o produto está em busca de investidores para ser lançado no mercado e produzido em larga escala.

Projeto encabeçado por mulheres para mulheres

Outro motivo pelo qual o projeto se tornou tão especial para as desenvolvedoras é a participação majoritariamente feminina no processo. Essa união para planejar um produto voltado para cuidados capilares, difundido principalmente entre mulheres, tornou a ocasião ainda mais simbólica e importante para elas.

Chacon explica que, em toda história da Fluxo Consultoria, essa foi a primeira vez que um projeto teve coordenação mecânica feita só por mulheres. De acordo com ela, isso significa que o projeto pode se tornar um exemplo para outras garotas que estão começando a estudar agora.

Outro fator animador do projeto foi o fato de estarem criando algo diferente, mais voltado para suas rotinas. “Nos motivou muito o fato de o projeto ser do segmento feminino. Estamos muito acostumadas a fazer máquinas de mangueira ou carrinhos para algum equipamento. Então trabalhar com algo que a gente viu a vida inteira e que não precisamos pesquisar para saber o que é fio de extrema importância para animar todo time”, conta Santoro.

Para Cavalcanti, a criação do Ecocachos se tornou muito importante para sua carreira profissional. Muito disso tem a ver pelo destaque feminino na área: em sua classe de engenharia nuclear, ela é a única mulher.

“A gente está sempre acostumada a ver homens fazendo as coisas e conquistando as coisas. Então conseguir fazer um projeto que tem tudo para dar certo e que pode ser implementado no mercado, junto do apoio das meninas e do trabalho duro, me mostra que sou capaz de fazer as coisas. Foi muito importante para a minha autoestima", afirma Cavalcanti.

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