Pesquisa aponta que a redução da testosterona está mais ligada ao envelhecimento do que à menopausa
Reprodução/ Freepik
Pesquisa aponta que a redução da testosterona está mais ligada ao envelhecimento do que à menopausa

Durante o mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher , abordar a saúde feminina também implica em compreender sobre o envelhecimento hormonal como um processo natural, complexo e profundamente individual.

Seguindo essa ideia, um estudo publicado no periódico científico The Lancet eBioMedicine, conduzido pelo Australian Women’s Midlife Years Study ( AMY ), amplia o debate ao investigar a trajetória da testosterona ao longo da vida da mulher e sua relação com a menopausa .

A pesquisa acompanhou 1.104 mulheres entre 40 e 69 anos e constatou que, ao contrário da percepção amplamente difundida, a menopausa natural não provoca uma queda abrupta nos níveis de testosterona. A redução ocorre de forma gradual e está mais associada ao envelhecimento cronológico do que à menopausa.

Inessa Beraldo, ginecologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, explica esse entendimento:

"Diferentemente do estrogênio, cujos níveis diminuem de maneira significativa com a interrupção da menstruação, gerando sintomas como ondas de calor, alterações de humor e secura vaginal, a testosterona segue uma curva mais lenta e progressiva ao longo das décadas. Também é importante lembrar que seus níveis nas mulheres são fisiologicamente muito mais baixos do que nos homens, motivo pelo qual a dosagem isolada desse hormônio não costuma ser utilizada para determinar se ele está baixo".

Os dados indicam que os níveis de testosterona reduzem cerca de 25% a partir dos 40 anos, embora esse processo tenha início ainda por volta dos 20 anos. Em média, os níveis mais baixos são observados entre os 58 e 59 anos. 

O estudo também apontou que os ovários seguem contribuindo para a produção de testosterona mesmo após a menopausa. Isso se mostrou evidente com mulheres que retiraram os ovários e que por consequência apresentaram níveis bem mais baixos do hormônio.

Além disso, não foram identificadas diferenças relevantes entre mulheres na pré, peri ou pós-menopausa, o que reforça que a transição menopausal, por si só, não provoca  mudanças abruptas nesse hormônio.

Menopausa e seus impactos na saúde feminina

Menopausa e seus impactos na saúde feminina
Reprodução/ Freepik
Menopausa e seus impactos na saúde feminina

A menopausa não deve ser tratada como uma doença, mas também não deve ter seus impactos ignorados. Trata-se de uma transição biológica que pode ser vivida de formas diferentes: algumas mulheres têm poucos sintomas, enquanto outras sentem impactos maiores na qualidade de vida .

Segundo a endocrinologista Flávia Pieroni, do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, a testosterona tem papel importante no desejo sexual, na saúde dos ovários e na fertilidade ao longo da vida. Ainda assim, a redução desse hormônio é natural e não significa, por si só, que seja necessário fazer reposição.

A suplementação de testosterona só possui indicação para tratar o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), conhecido por “baixa libido”, em mulheres na pós-menopausa e após um diagnóstico médico criterioso, depois da exclusão de possíveis condições clínicas que justifiquem essa manifestação", afirma Flávia.

A especialista destaca ainda que não há comprovação científica de que o hormônio promova melhorias gerais no humor, no bem-estar ou na cognição. Além disso, o uso inadequado com objetivo de ganho de massa muscular é contraindicado, por representar riscos significativos à saúde.

"Esse estudo é importante para chamar a atenção de todos, especialmente das mulheres nessa fase da vida, para sempre procurarem atendimento médico especializado para orientação sobre o tratamento. A menopausa por si só não é uma indicação para a reposição de testosterona".


Etapas do ciclo hormonal ao longo da vida

Etapas do ciclo hormonal ao longo da vida
Divulgação
Etapas do ciclo hormonal ao longo da vida

De acordo com a ginecologista Inessa Beraldo, a jornada reprodutiva feminina pode ser dividida em três etapas principais:

Pré-menopausa: período que vai da primeira menstruação até o fim dos ciclos regulares, com variações hormonais previsíveis.

Perimenopausa (climatério): fase de transição que antecede a menopausa e se estende até um ano após a última menstruação, marcada por oscilações hormonais e funcionamento irregular dos ovários.

Menopausa: definida pela ausência de menstruação por 12 meses consecutivos, geralmente entre 45 e 55 anos.

Para acompanhar essa transição e a saúde geral, alguns exames laboratoriais são solicitados. Veja a seguir quais os principais fatores que devem ser observados:

Hormônio Folículo-Estimulante (FSH): produzido pela hipófise, tem a função de estimular os ovários. Quando eles deixam de responder, seus níveis se elevam como um sinal dessa falha de funcionamento.

Estradiol: principal estrogênio da fase reprodutiva, é produzido pelos ovários. Com a interrupção da atividade ovariana, sua produção diminui de forma acentuada.

Hormônio Anti-Mülleriano (AMH): utilizado principalmente na perimenopausa ou na avaliação da fertilidade, indica a reserva ovariana ao refletir a quantidade de folículos restantes. Na menopausa, os níveis se tornam muito baixos ou indetectáveis.

Já a endocrinologista Flávia Pieroni, explica que como a redução do estrogênio impacta todo o organismo, é comum que, antes e após a menopausa, sejam solicitados exames complementares para monitorar possíveis riscos:

Hemograma: investiga a presença de anemia, comum no período pré-menopausa devido a alterações no padrão menstrual, podendo ser associado à avaliação do metabolismo do ferro.

Perfil lipídico: analisa os níveis de gorduras no sangue e auxilia na identificação de dislipidemias.

TSH: verifica a função da tireoide, já que distúrbios como o hipotireoidismo se tornam mais frequentes nessa fase.

Glicose e hemoglobina glicada: auxiliam no rastreamento de pré-diabetes e diabetes.

Creatinina: permite a detecção precoce de alterações na função renal.

Enzimas hepáticas (TGO e TGP): avaliam o funcionamento do fígado.

Densitometria óssea: identifica possíveis perdas de massa óssea associadas à queda do estrogênio. Em casos de alteração, exames como cálcio, fósforo, vitamina D, PTH e CTx ajudam a investigar o metabolismo ósseo.

Mamografia e colonoscopia: são fundamentais para o rastreamento de câncer de mama e colorretal, devendo seguir a recomendação médica mesmo após a menopausa.

A especialista reforça ainda sobre a importância do acompanhamento médico regular, tanto com ginecologista quanto com outros profissionais, especialmente na presença de condições associadas como hipertensão arterial , obesidade ou diabetes.

    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes