Todo o comportamento feminino que foge do modelo tradicional de ser mulher é estudado pela antropóloga Mirian Goldenberg, autora de ¿Infiel: notas de uma antropóloga¿; ¿A Outra¿; ¿Toda mulher é meio Leila Diniz¿, entre outros

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O interesse por comportamentos considerados socialmente desviantes, particularmente o feminino, não foi por acaso. Para a antropóloga, compreender melhor o outro não só permite nos compreendermos melhor como revela aspectos obscuros, ocultos, silenciados de nossas próprias vidas e da cultura na qual estamos inseridos. Subjetividade e objetividade estão sendo transformadas, reinventadas, explicitadas em nossas pesquisas. É o que venho experimentando nas últimas duas décadas, como antropóloga, professora, pesquisadora e, também, como uma mulher brasileira preocupada com o processo de envelhecimento, diz. Confira a entrevista.

O que a motivou pesquisar comportamentos considerados pela sociedade como fora do padrão?

Desde criança, descobri, na própria pele, que ser diferente era algo que poderia causar muito sofrimento. Ser diferente, no meu caso, significava ser excluída do grupo dos normais, daqueles e daquelas que eram, ou pareciam ser, felizes, bem-sucedidos e amados por todos. Eu não era loira de cabelos lisos, como aquela menina que eu tanto invejava e que foi escolhida rainha do meu colégio. Eu não era católica e não freqüentava a Igreja aos domingos, como as outras crianças. Ser diferente sempre foi o meu principal problema existencial. Queria, e continuo querendo, ser igual a todo mundo. Ser igual como sinônimo de ser normal, e ser normal (ou igual), para mim, como a única possibilidade de ser feliz. Ser diferente, e me sentir o alvo da possível exclusão ou destruição do outro, sempre me causou (e continua causando) muito sofrimento. O peixe fora dágua, como diria Pierre Bourdieu.

Demorei muito para descobrir que ser diferente poderia ter um lado positivo, ou ser uma marca de distinção, como queria Bourdieu. Que ter nascido judia em um país católico (e com indivíduos bastante preconceituosos com relação aos diferentes) poderia não ser tão ruim assim. Que ser aquela garota que não é tão popular poderia me levar a gostar de ler e escrever, pensar e olhar criticamente a padronização que impera na cultura brasileira. Assim, ser excluída dos grupinhos das garotas e garotos de sucesso me obrigou a buscar outras formas de realização. Desde criança li muito. Lia o que encontrava na prateleira do meu pai: Sartre, Exupéry, biografias (como a de Chaplin) e relatos do Holocausto.

Portanto, não foi por acaso que, como antropóloga, passei a me interessar por grupos e comportamentos considerados socialmente desviantes, pelos diferentes. E todas as minhas pesquisas têm como eixo central o comportamento desviante, particularmente o feminino. Aquelas mulheres que fogem do modelo tradicional de ser mulher, que não são nem esposas-mães, nem prostitutas, que não estão nem em um lugar social, nem em outro. Também por aquelas mulheres que entram em um mundo masculino, como o da política, mas não encontram um lugar neste mundo, que permanecem excluídas das decisões e das lutas, sem serem as esposas-mães tradicionais. Estudei, na minha tese de doutorado, a vida de Leila Diniz, acusada pela esquerda de sua época de ser porra louca, desbundada e pela direita de ser subversiva, perigosa.

E por falar em Leila Diniz, algumas das atitudes que escandalizaram a sociedade nas décadas de 60 e 70, como deixar à mostra a barriga de oito meses de gravidez na praia, defender o amor livre e o prazer sexual, hoje são comuns no Brasil. Além do contexto político, a que se deve esta mudança de 'mentalidade' e 'comportamento' da mulher brasileira?
Na geração Leila Diniz, estavam em disputa diferentes modelos de ser mulher: o religioso, que exigia a negação de sua sexualidade ou o seu exercício apenas nos limites do casamento, e outro, que pode ser pensado como mais próximo do difundido pelo feminismo, pela contracultura e pela psicanálise, que buscava a igualdade entre homens e mulheres no mundo público e privado. Sendo uma atriz famosa e uma personalidade pública bastante polêmica, pode-se pensar que a elaboração que Leila fez de sua própria vida atingiu não apenas as pessoas mais próximas, mas também contribuiu para legitimar idéias e práticas consideradas revolucionárias para a época em que viveu. Ao escolher ter um filho fora do casamento, rompeu com o estigma da mãe solteira. Sua fotografia grávida, de biquíni, foi estampada em inúmeros jornais e revistas por ser a primeira mulher a exibir a gravidez. Leila fazia e dizia o que muitos tinham o desejo de fazer e dizer. Não à toa, ela é apontada como uma precursora do feminismo no Brasil, uma feminista intuitiva que influenciou, decisivamente, as novas gerações. Leila Diniz, ao afirmar publicamente seus comportamentos e idéias a respeito da liberdade sexual, ao recusar os modelos tradicionais de casamento e de família e ao contestar a lógica da dominação masculina, passou a personificar as radicais transformações da condição feminina (e também masculina) que ocorreram no Brasil no final da década de 60. 

Além de Leila, quais as mulheres que, em sua opinião, quebraram os padrões considerados "normais" pela sociedade, em termos de sexualidade, conjugalidade e maternidade? Por quê?

Simone de Beauvoir. Por quê? Ela inventou uma forma de conjugalidade com Sartre que se tornou modelo, escreveu o clássico das discussões sobre a mulher "O Segundo Sexo", em 1949. Não se casou, não teve filhos e buscou se afirmar como filósofa e escritora em um mundo extremamente masculino e fechado para as mulheres de sua época. 


Existe uma figura atual com a mesma representatividade que Leila Diniz?

Não consigo enxergar. Acho que Leila seria revolucionária até hoje.   

Como é o lado 'meio Leia Diniz' de Mirian Goldenberg?

É buscar viver intensamente e apaixonadamente, é tentar ser generosa e feliz e fugir das competições tão presentes na sociedade atual. É procurar sempre fazer as coisas pela VONTADE, nunca por vaidade, e tentar ser o mais honesta possível em tudo o que faço e falo. Mas é quase impossível ser "meio Leila Diniz"

Como pode ser caracterizada a mulher brasileira do início século XXI no que diz respeito a sexo, relacionamento e corpo?

Acho que falta liberdade. Muitas vivem o corpo e a sexualidade como uma prisão. Veja, por exemplo, a minha pesquisa atual, com 1279 homens e mulheres das camadas médias da cidade do Rio de Janeiro. Quando perguntei: o que você mais inveja em um homem?, as mulheres responderam, em primeiríssimo lugar: liberdade. Quando perguntei aos homens: o que você mais inveja em uma mulher, a quase totalidade respondeu, categoricamente: nada. Será que é realmente possível dizer, como na música de Rita Lee, que hoje toda mulher é meio Leila Diniz quando as brasileiras continuam invejando a liberdade masculina? Será que a utopia de Maio de 1968, com o seu desejo de liberdade e igualdade entre os gêneros, ainda está muito longe de ser realizada?

Suas pesquisas apontam que as mulheres traem mais hoje do que no passado e o principal motivo é a vingança. E, no passado, por que as mulheres traíam? Quais os principais fatores desta mudança de comportamento feminino em relação à traição?

Apesar de muitos comportamentos masculinos e femininos não estarem mais tão distantes, inclusive no que diz respeito à traição - como mostram os dados da minha pesquisa, em que 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem sido infiéis ¿ os discursos femininos e masculinos são extremamente diferentes. Pode-se notar, ao analisar estes dados, que os homens justificam suas traições por meio de uma suposta essência ou instinto masculino. Já as mulheres infiéis dizem que seus parceiros, com suas faltas e galinhagens, são os verdadeiros responsáveis por suas relações extraconjugais. Portanto, no discurso dos pesquisados, a culpa da traição é sempre do homem, seja por sua natureza incontrolável, ou por seus inúmeros defeitos (e faltas) no que diz respeito ao relacionamento. Se é inquestionável que, nas últimas décadas, houve uma revolução nas relações conjugais, pode-se verificar que, na questão da infidelidade, ainda parece existir um privilégio masculino, isto é, ele é o único que se percebe como sujeito da traição. Enquanto a mulher, mesmo quando trai, continua se percebendo como uma vítima, que no máximo reage à dominação masculina.


Os comportamentos sexuais podem ter mudado, tendendo a uma maior igualdade, mas o discurso sobre o sexo ainda resiste às mudanças. Não estou afirmando que não existem diferenças no comportamento sexual feminino e masculino, mas, como sugerem os dados da minha pesquisa, elas não são tão grandes assim.


Mirian Goldenberg , antropóloga, é  Doutora pelo programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional e Professora do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora dos livros O corpo como capital; Infiel: notas de uma antropóloga; De Perto Ninguém é Normal; A Outra; Toda mulher é meio Leila Diniz; A revolução das mulheres, Nu e Vestido, Os Novos Desejos, A Arte de Pesquisar, entre outros.

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