Estudo brasileiro mostra que familiares são determinantes para o sucesso na luta contra doença

Família pode ajudar ou atrapalhar o tratamento contra a obesidade
Getty Images/Stockbyte Silver/John Foxx
Família pode ajudar ou atrapalhar o tratamento contra a obesidade
A história de uma paciente mudou a trajetória profissional da nutricionista Ana Flávia Nascimento Otto. Quando se consultou pela primeira vez com Ana Flávia, a paciente pesava 160 kg. Insatisfeita com o próprio corpo, como a maioria das mulheres, queria perder peso. Além da obesidade, ela enfrentava episódios diários de compulsão alimentar: não se alimentava direito durante o dia e, no início da noite, comia exageradamente.

O que intrigava Ana Flávia nesse caso era o comportamento da família da paciente, que dizia cooperar com o tratamento da jovem, mas, na prática, adotava posturas contrárias: oferecia quitutes para a moça o tempo todo. A jovem, com isso, se sentia dividida entre dispensar a comida e com isso frustrar a família e furar a dieta, contrariando as recomendações da nutricionista. A culpa provocava ainda mais compulsão por comida.

A vontade de ajudar a paciente levou Ana Flávia à psicologia e à pesquisa. Primeiro, a nutricionista fez um curso de terapia familiar para compreender melhor esse tipo de dinâmica e, depois, se matriculou no Programa de Mestrado em Psicologia na Universidade Católica de Brasília (UCB).

No mestrado a nutricionista estudou as relações familiares de pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar e entrevistou 45 pacientes com obesidade grave que eram acompanhados em um hospital público do Distrito Federal. Depois, fez visitas domiciliares – com a presença de toda a família.

O estudo mostrou que o ambiente familiar está bastante relacionado à obesidade e ao transtorno compulsivo alimentar. Em geral, as famílias de pacientes obesos praticam poucas atividades de lazer, evitam conflitos e expressam poucos sentimentos. Na maioria dos casos, a alimentação é o grande laço de afetividade entre essas pessoas.

“A família exerce um papel fundamental na formação e manutenção dos hábitos alimentares. A alimentação agrega os valores, os significados e as regras do grupo. Para algumas, torna-se a principal expressão de vínculo entre os seus membros. Nesse sentido, mudanças no padrão alimentar influenciam diretamente a dinâmica da família, podendo gerar resistência dos familiares a mudanças individuais de dieta”, analisa Ana Flávia.

Compulsão X adaptação

Para a orientadora da pesquisa, professora Maria Alexina Ribeiro, uma das principais conclusões do estudo é a forte relação entre o grau de compulsão alimentar e a capacidade de adaptação da família às novas regras impostas pelo tratamento. Muitas têm dificuldades em manter ou mudar regras e limites.

Os dados recolhidos pela nutricionista mostram que 49% dos pacientes entrevistados tinham, além da obesidade, transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP). Isso significa que quase metade dos pacientes sofre de angústia após a ingestão de grandes quantidades de alimentos. De uma só vez, uma pessoa com esse tipo de transtorno pode ingerir até 5.000 calorias.

A vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, Leila Maria Batista Araújo, ressalta a importância da adesão da família ao tratamento. “Em 45% dos casos, a obesidade é genética. No restante, a explicação é comportamental, hormonal. Nesses fatores, podemos mudar as coisas, mas é preciso modificar comportamentos culturais e de educação. Por isso, a família é essencial”, diz.

Leila lembra que os dados do último censo feito em 2003 mostraram que 10% da população brasileira sofrem com a obesidade. Metade tem excesso de peso. Ela acredita que as mudanças de comportamento ocorridas na sociedade nos últimos anos – trabalho em excesso, pouca atividade física e lazer – tornaram as pessoas ansiosas.

“Essa ansiedade, muitas vezes, é compensada na alimentação”, afirma. Ela admite que tratar a obesidade infantil e nos adolescentes é ainda mais difícil do que nos adultos, justamente por causa da família. “O boicote é muito comum. Por isso, temos de cuidar dos pais também. Já recomendamos a terapia familiar nos tratamentos”, ressalta.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.