Medicamento que mudou a sociedade e deu liberdade às mulheres chega à maturidade

Em 2010 a pílula anticoncepcional completará 50 anos. Os pesquisadores que desenvolveram o medicamento buscavam um anticoncepcional seguro, barato e que pudesse ser engolido facilmente. Com certeza não imaginavam o sucesso que a pílula alcançaria. Hoje, o comprimido que permitiu à mulher decidir quando engravidar e causou uma revolução nos costumes sociais e sexuais da época é um método contraceptivo usado por cerca de 100 milhões de mulheres ao redor do mundo. A facilidade de administração, o custo, a disponibilidade do medicamento, além da eficácia (está entre os métodos mais confiáveis), fizeram da pílula um sucesso absoluto no ramo dos anticoncepcionais.

Prestes a se tornar uma "cinquentinha", a pílula segue firme como uma opção segura para evitar a gravidez, e os especialistas já têm diante de si um novo desafio: a busca por uma versão com efeitos colaterais cada vez menores.


O Começo

A primeira marca de pílula anticoncepcional, batizada de Enovid, ganhou as prateleiras das farmácias americanas no final do verão de 1957, mas com uma função bem mais prosaica do que evitar a gravidez: era vendida como um regulador da menstruação.

Neste mesmo ano, os russos surpreenderam o mundo enviando ao espaço seu primeiro satélite, o Sputnik 1. Longe dos palcos da Guerra Fria, milhões de mulheres iniciaram uma revolução discreta e silenciosa, mas de grandes proporções. Antes que a farmacêutica Searle & Company obtivesse a aprovação das autoridades de saúde para comercializar o Enovid como contraceptivo – o que só ocorreu em maio de 1960 – cerca de 500 mil americanas já faziam uso do medicamento, certamente cientes de suas propriedades anticoncepcionais.

Como Funciona

A pílula contém hormônios sintéticos semelhantes à progesterona e ao estrogênio produzidos nos ovários. Em condições normais, a mulher tem oscilações hormonais naturais que regulam o ciclo menstrual. Ao tomar o medicamento diariamente, os níveis de hormônio ficam estáveis, o que inibe a ovulação.

As primeiras pílulas continham doses muito elevadas de hormônios. Na metade da década de 60, os laboratórios começaram a reduzir gradativamente essas quantidades para, nos anos 70, lançarem a segunda geração de pílulas: com menos da metade das quantidades de hormônio usadas nas primeiras versões. A segunda geração de anticoncepcionais só perdeu sua hegemonia no início dos anos 90, com o surgimento da terceira geração: as pílulas de baixíssima dosagem.

Pílula: o comprimido permitiu à mulher decidir quando engravidar e causou uma revolução nos costumes sociais e sexuais da época
Divulgação
Pílula: o comprimido permitiu à mulher decidir quando engravidar e causou uma revolução nos costumes sociais e sexuais da época

“Algumas marcas de hoje chegam a ter quantidades 160 vezes menores de hormônio em relação às primeiras pílulas”, explica o ginecologista Nilson Roberto de Melo, presidente das federações latino-americana e brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

Benefícios Diversos

Além de evitar uma gestação indesejada, a maioria das mulheres que tomam pílula tem benefícios importantes: redução dos pelos do corpo, diminuição da oleosidade da pele e dos cabelos e diminuição das cólicas e do fluxo menstrual. O método também é facilmente reversível: quem deseja engravidar em geral só precisa parar de tomar o medicamento. Outra vantagem já comprovada por estudos realizados ainda na década de 90, pela Harvard Medical School: mulheres que tomam pílula por cinco anos têm 50% menos chances de desenvolver tumores de ovário e de endométrio.

O comprimido também auxilia na redução da TPM (Tensão Pré-Menstrual), ajuda a reduzir o aparecimento de cistos nos ovários e nas mamas, diminui o fluxo e as cólicas do período menstrual e é usado com sucesso no tratamento de quadros relacionados ou agravados com a menstruação – como a adenomiose (anemia derivada da menstruação), a dismenorréia (menstruação associada a dores fortes) e a endometriose (crescimento do tecido que reveste a parede interna do útero para fora da cavidade uterina).

O contraceptivo ainda deu origem à pílula do dia seguinte. Usada em situação de emergência, ela é composta pelos mesmos hormônios da pílula em cartela. A diferença está nas altas quantidades presentes em um comprimido.

Algumas Desvantagens

Pouca gente lembra, mas a pílula não protege contra doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, é preciso tomá-la todo dia, regularmente, e qualquer “esquecida” reduz a eficácia do medicamento. Desde o surgimento dos primeiros anticoncepcionais, os efeitos colaterais do uso contínuo da pílula se acumulam. Quem usa tem mais risco de ter trombose – nas fumantes o risco é ainda mais elevado – acidente vascular cerebral (AVC), ganho de peso, retenção de líquido, mudanças de humor, sensibilidade nas mamas, náuseas e dores de cabeça. Muitas reclamam também de uma redução na libido, especialmente entre as usuárias das pílulas com baixa dosagem de hormônios.

Ainda não existe, no entanto, nenhum estudo realmente conclusivo sobre o assunto. Mesmo entre os especialistas, o tema é controverso: “Tem mulheres que começam a tomar pílula e relatam um aumento da libido, pois se sentem mais livres, sem medo de engravidar. Por outro lado, algumas são mais sensíveis às alterações hormonais. Como, a longo prazo, a pílula diminui a testosterona, elas podem sentir uma pequena alteração no desejo sexual”, revela Carolina Ambrogini, ginecologista e coordenadora do Projeto Afrodite – programa de atendimento multidisciplinar do Ambulatório de Sexualidade da UNIFESP.

Evolução?

Ao longo de meio século de história, a pílula anticoncepcional alternou os papéis de mocinha e vilã, mas seu uso segue sendo indicado e defendido pela maioria dos ginecologistas. Das mais antigas, que eram verdadeiras “bombas hormonais” às de baixíssima dosagem, as opções são muitas – há algumas que prometem atuar até mesmo nos sintomas depressivos da TPM. A melhor opção varia de forma individualizada e vai depender de uma boa conversa com o médico.

Em 2010, devem entrar no mercado brasileiro dois novos anticoncepcionais feitos com hormônios naturais. Em vez de conter etinilestradiol (substância semelhante ao estrogênio), essa nova geração de pílulas contém estrogênio mesmo, aquele igualzinho ao produzido naturalmente pelo corpo. Sintetizada em laboratório, essa molécula é exatamente igual à molécula de estrogênio que o corpo da mulher produz. E qual a vantagem disso? “Por enquanto, os aspectos clínicos observados em estudos publicados até agora mostram pouquíssima diferença entre os efeitos colaterais dessas pílulas e daquelas feitas com baixíssimas doses de etinilestradiol. Com o tempo elas se mostrarão melhores ou piores opções. É preciso esperar mais estudos”, afirma o ginecologista Nilson Roberto de Melo.

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