A comemoração da Páscoa escapa do consumismo quando os pais valorizam a fantasia e o significado da festa

Davi e a mãe, Viviana: tradição de Páscoa envolve três gerações
Guto Kuerten/ Fotoarena
Davi e a mãe, Viviana: tradição de Páscoa envolve três gerações
Quando a consultora de marketing Viviana Baptistella Tancredi era criança, a família toda se reunia no domingo de Páscoa, na casa da tia Lúcia, para uma caça aos ovos de chocolate. Os doces ficavam escondidos entre arbustos e árvores do imenso quintal. Hoje com 28 anos, Viviana vai levar o filho Davi, de cinco, para participar da tradição. O que inicialmente era uma pequena festa das crianças acabou se tornando a “corrida dos ovos”, envolvendo três gerações da família: avôs, filhos e netos.

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Conforme meus primos e eu fomos crescendo, começamos a comprar ovos de Páscoa para nossos pais também”, conta Viviana. Com o nascimento de Davi e de outras crianças da família, a “corrida dos ovos” reúne anualmente por volta de 50 pessoas. E, para Davi e as outras crianças menores, além dos ovos da corrida, há outros “trazidos pelo coelhinho”.

Mariana Tichauer é psicóloga infantil da EDAC (Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico), em São Paulo. Segundo ela, a essência de datas comemorativas como a Páscoa é este: valorizar o momento em família, determinando a memória e o significado daquele período para a criança. “Não pode ser uma coisa forçada, com a família se encontrando por obrigação, senão a criança não terá nada a ganhar com isso”, diz.

Uma Páscoa por família

Ida Bechelli, do Setor de Saúde Mental do Departamento de Pediatria da Unifesp, concorda: é importante explicar às crianças, conforme elas vão crescendo, o significado de toda celebração. “O mundo é voltado para o consumismo e, às vezes, as histórias se perdem e resta somente um ovo de chocolate”, diz. Independentemente da religião à qual se pertence, a Páscoa é uma festa bem tradicional e cheia de valores. “Cada família pode aproveitar as crenças, histórias e tradições existentes sobre a Páscoa, o significado presente em tudo isso, e passá-los para os filhos”.

São estes os planos da naturóloga Mariana Garrido, de 25 anos. Este ano, ela vai comemorar a Páscoa com a filha pela primeira vez. Sofia tem dois anos e a mãe quer introduzi-la ao significado da data, a começar pela figura fantástica do coelhinho. “Gosto dessa parte da cultura e das histórias para as crianças, mas não me interesso muito pelo lado do ovo de chocolate”, afirma. Marina planeja colocar patinhas pela casa, como se o coelho tivesse passado por ali, e comprar um ovo de alfarroba (espécie de vagem que pode substituir o cacau; veja outros ovos sem lactose ) para Sofia. “Ou daremos frutas secas, que ela adora. Quem falou que precisa ser chocolate?”, questiona.

Coelhinho da Páscoa, que trazes para mim?

A Páscoa – assim como o Natal – envolve uma experiência fantasiosa para as crianças: a existência de um personagem associado ao espírito da data. Mas até quando os pais devem alimentar a fantasia do Coelhinho da Páscoa? “As crianças pequenas vivem num mundo de ilusões e a crença no coelhinho pode ajudá-las a ser mais espontâneas”, diz Ida. E se o ambiente familiar propiciar a fantasia, melhor ainda.

Não existe uma idade certa para a descoberta da verdade. A pedagoga Angelina Francescchini, diretora da Prima Escola Montessori de São Paulo, observa que as crianças menores, de até seis anos, ficam muito empolgadas com a busca pelos ovos promovida pela escola no último dia de aula antes do feriado. Mas depois disso, não faz mais sentido deixar a criança acreditando em uma ilusão: “A idade certa para contar a verdade depende da observação da família e da decisão sobre como se prefere comemorar a data”.

O mais comum é a criança, sozinha, começar a questionar se o Coelhinho da Páscoa existe mesmo ou não. A pergunta costuma surgir a partir dos cinco anos, quando um amiguinho da escola ou o irmão mais velho dão pistas de que o Coelhinho de verdade são os pais. “Quando isso acontece, não se deve insistir na ilusão”, sugere Ida. “Algumas crianças ficam bravas, outras mais chateadas. Mas o lado lúdico da data pode continuar presente, transformado em outros valores”.

É o que Viviana pretende fazer quando Davi começar a desconfiar. “Sempre cultivei essa fantasia com o Davi e ele gosta muito”, conta. Quando o filho crescer, Viviana planeja mostrar a ele que é possível acreditar, apenas de outra maneira: “Quero ensinar que cada um tem um coelhinho da Páscoa dentro de si, capaz de presentear e trazer todo esse clima de alegria para os outros”. É uma maneira de fazer com que o sentimento ligado à data não se perca. Mas a mãe, apaixonada pela Páscoa e por suas tradições, confessa torcer para que isto demore a acontecer: “Ainda espero que ele continue acreditando por bastante tempo”.

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