A infância é período de aproveitar a vida sem apreensões. Quanto mais a vaidade for estimulada, maiores as chances da criança se sentir inadequada no meio social

Pintar as unhas de vez em quando, não tem problema. Mas o hábito não deve se tornar uma obsessão da criança
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Pintar as unhas de vez em quando, não tem problema. Mas o hábito não deve se tornar uma obsessão da criança

Alisamento químico, unhas postiças, depilação, lingeries sensuais. Que mulher nunca se rendeu à vaidade para se sentir mais feliz com o próprio corpo? Até aí, nada de novo. Porém, o que chamou a atenção de pais e especialistas no último mês foi o lançamento de uma linha de lingerie para meninas com idade a partir de oito anos, conforme definição encontrada na página de comércio eletrônico.

As peças parecem ter sido criadas para mulheres, não crianças. Os sutiãs, vestidos por uma menina bem maquiada, têm bojo, rendas e detalhes de costura mais sofisticados. Nada de figurinhas ou desenhos infantis, típicos da infância.

“A indústria trabalha para estimular o consumo cada vez mais precoce de seus produtos, não só sobre estética. Ela também vende um estilo de vida. Permitir que crianças consumam esse produto é minar a autoestima delas. Você exclui uma parte bonita da infância, que é a ausência de preocupações, a visão não sexualizada das relações”, observa a psicóloga e pesquisadora Rachel Moreno, autora do livro “A beleza impossível – Mulher, mídia e consumo” (Editora Ágora).

A coordenadora de treinamentos Valeria Nakamura e mãe de Samara, de oito anos, também se espantou com a existência de uma linha de lingeries para meninas.

“A criança que usa uma lingerie como essa não entende porque as mulheres as usam. Ela não compreende o que é a sensualidade. Na sua visão, é uma brincadeira de imitação de adultos, sem nenhuma malícia. A menina quer se parecer com a mãe e vai perdendo sua inocência, desejando conhecer aspectos não relacionados à infância”, diz Valeria.

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Para Rachel, uma das coisas mais fantásticas da infância, da qual todos sentem falta ao chegar à fase adulta, é a inocência. Os pequenos têm o direito de levarem a vida do jeito que quiserem, amparados justamente no fato de serem crianças e sem amarras estéticas.

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“É absurdo que uma menina não queira brincar e correr com os amigos porque está usando um sapato de salto e tem o risco de se machucar. Criança tem que brincar, se sujar, experimentar coisas novas e vivências que a preparem para a fase adulta”, critica Vera Ferrari Rego Barros, psicanalista e presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Beleza e diversidade

A vaidade, porém, vai além do uso de peças íntimas ousadas. É cada vez mais comum que as crianças e adolescentes estejam com a aparência do próprio corpo, recorrendo a dietas, exercícios físicos e até procedimentos cirúrgicos.

“Fiquei assustada quando vi que, do ano passado para cá, triplicou o número de cirurgias plásticas entre adolescentes. Se a gente permite que esses ideais sejam reproduzidos pelas crianças, a inocência delas é utilizada a favor dessa realidade taxativa, causando problemas graves mais tarde”, opina Rachel Moreno.

Bojo e renda: detalhes dessa lingerie infantil lembram peças íntimas de mulheres adultas
Reprodução/site
Bojo e renda: detalhes dessa lingerie infantil lembram peças íntimas de mulheres adultas

Entre eles, estão os transtornos alimentares. Segundo ela, bulimia e anorexia são as doenças do século XXI, impulsionadas pela busca de um padrão de beleza impossível.

“Isso está refletido até nas bonecas. Antes, a ideia era reforçar o instinto materno nas meninas. Hoje, elas reforçam padrões estéticos, em que as crianças se espelham. Mas se todos fossem como uma Barbie, magra, loura e com os olhos claros, o mundo seria extremamente monótono”, opina Rachel Moreno.

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Essa é a melhor saída para proteger os pequenos das obsessões com estética e beleza: reforçar a importância da diversidade. Nem todo mundo tem o mesmo tom de pele, textura de cabelo, largura dos quadris ou o formato das sobrancelhas. E não existe nada de errado com isso.

Do mesmo jeito, a vida não precisa se limitar à importância da aparência das pessoas. É normal querer se sentir bem com a própria imagem. O único cuidado é: isso deve acontecer jeito mais natural o possível, sem elementos artificiais e que possam comprometer a saúde das crianças.

“Quando a aparência se transforma na coisa mais importante do mundo, a criança fica angustiada. Ela não consegue se enxergar parte de um grupo social, porque não é igual aos amigos da escola. Pais e educadores devem reforçar a importância de outros valores, como o respeito ao próximo e a tolerância às diferenças”, ressalta Vera Ferrari.

“Não é não”

Como será a resposta do organismo de meninas que estão acostumadas a usar cosméticos, tinturas artificiais e alisamento químico? Qual será a relação delas com a própria vaidade no futuro? Esses são questionamentos que devem ser levados em conta pelos adultos

Como tudo na vida, é importante saber dizer não. Os pequenos ainda não têm discernimento para entender o que não é natural na fase em que estão vivendo. Por isso, os pais devem exercer sua autoridade, com firmeza e carinho.

O segredo é mostrar que “estar bem” tem relação com outros setores da vida, mais importantes do que a aparência. A felicidade e um sorriso sincero continuam sendo os melhores acessórios. Principalmente para as crianças.

“Minha filha vai às festas dos amigos de bermuda, camiseta e tênis porque diz que vai se divertir. Ela acredita que se estiver muito arrumada, não vai conseguir brincar. Por enquanto, o que mais quero é que ela possa curtir a infância e se lembrar de como aproveitou e foi feliz”, acredita a mãe Valéria Nakamura.

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