Como pedir demissão corretamente

Mesmo com emprego garantido em outro local, não se descuide e mantenha a postura profissional até o último instante

Tatiana Gerasimenko, especial para o iG |

Arquivo pessoal
Luciana se tornou amiga da gestora. Na hora de pedir demissão foi sincera e ganhou o apoio da chefe
Diz o ditado que a primeira impressão é a que fica. Quando o assunto é mercado de trabalho, porém, pode-se dizer que a "última impressão" também é fundamental. Todo cuidado é pouco na hora de pedir demissão. Não é porque surgiu uma oportunidade de trabalho mais interessante - seja do ponto de vista profissional, financeiro ou mesmo pessoal - que vale descuidar da imagem na hora de se desligar de uma empresa. Mas existe uma forma correta de pedir demissão? Como sair de um emprego sem fechar as portas?

10 CUIDADOS NA HORA DE PEDIR DEMISSÃO

"Uma carreira é muito mais do que a posição ocupada e o salário recebido no momento presente, é algo que se constrói ao longo da vida. Por isso, não se deve enxergar apenas os ganhos a curto prazo; na hora de mudar de emprego é muito importante deixar uma boa imagem na empresa anterior ainda que seja para tê-la sempre como referência", frisa Roberto Gandara, consultor em desenvolvimento de pessoas da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com ele, o mercado de trabalho está diretamente relacionado às redes de contato estabelecidas ao longo da carreira. "Ter bons relacionamentos faz toda a diferença e é imprescindível para um bom profissional. Sendo assim, é preciso ter consciência de que o mundo dá voltas, uma vez que não se pode prever o amanhã. E se no futuro você precisar voltar para o emprego anterior? ".

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Gratidão, honestidade e disposição
Para Eliane Franco Figueiredo, diretora da Projeto RH, empresa especializada em Recursos Humanos, na hora de comunicar o desligamento de uma organização o profissional deve sempre procurar seu chefe imediato para uma conversa. "O primeiro passo é agradecer pela oportunidade e pelos aprendizados proporcionados pela função até então desempenhada dentro da empresa", diz. Em seguida, deve-se expor os principais motivos que o levaram a tomar a decisão. "Podem ser inúmeras razões, desde a oferta de um cargo mais desafiador até uma proposta de salário mais atraente. O que muitas pessoas precisam lembrar é que este não é um momento de lavar roupa suja, discutindo situações passadas".

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Por último, é importante colocar-se à disposição da empresa para finalizar projetos em andamento e "passar o bastão" para o profissional que ocupará sua função. "Por mais que o novo empregador diga que precisa do funcionário recém-contratado o mais urgente possível, é necessário negociar com todas as partes envolvidas durante o período de transição", ressalta Eliane. Ela afirma que expor que você precisa de um determinado tempo para finalizar projetos que já estão em andamento no emprego anterior e passar as coordenadas e informações para seu substituto pode, inclusive, causar uma boa impressão para o futuro chefe, uma vez que ele perceberá que está contratando um profissional responsável e sério com os compromissos assumidos anteriormente. "Consequentemente ele concluirá que também não corre o risco de ser abandonado abruptamente por este mesmo profissional amanhã.”

Portas sempre abertas

A publicitária Luciana Sato conta que trabalhou em uma empresa de cosméticos entre 2004 e 2008. "Eu já era consultora antes de entrar para a empresa, ou seja, vendia os produtos e tinha muito interesse pela marca. Quando decidi entrar de fato para o time foi maravilhoso: estar lá dentro me possibilitou inúmeros aprendizados”, afirma. “Trabalhei em várias funções e me tornei muito próxima da minha gestora, ficamos amigas”.

Depois de quatro anos, no entanto, Luciana recebeu uma nova proposta de trabalho. "Outra empresa me convidou para ocupar um cargo de destaque e isso acrescentaria muito para minha carreira. Então o que fiz foi chamar a minha gestora para uma conversa e abrir o jogo. Ela, por incrível que pareça, foi a primeira a me apoiar. Aliás, na minha opinião, o bom gestor é aquele que reconhece e incentiva seu subordinado em momentos como esse, quando surgem oportunidades valiosas e promissoras para seu desenvolvimento profissional”. O desligamento de Luciana foi conduzido de forma tão tranquila que até hoje a publicitária presta serviços para a empresa.

Blefar, jamais!
Miguel Caldas, autor do livro "Demissão: Causas, Efeitos e Alternativas para Empresa e Indivíduo" (Editora Atlas), destaca que muitos profissionais utilizam o pedido de demissão como um recurso para atrair novas propostas dentro da própria empresa. "O indivíduo só deve comunicar o seu desligamento se estiver 100% decidido de que quer deixar o trabalho, jamais arquitetando uma possível contraproposta”, ressalta. “Isso porque esse tipo de comportamento pode comprometer sua carreira futuramente na organização”. Assim, usar a demissão como uma alavanca pode ser interpretado como blefe.

Para ele, caso o profissional esteja buscando reconhecimento profissional ou financeiro dentro da empresa, deve batalhar enquanto ainda é funcionário: "O pedido de demissão só deve ser feito depois que se esgotaram todas as possibilidades e, de fato, houver uma proposta mais atraente em outra instituição". Rodolpho da Silva Souza, mestre em Planejamento e Desenvolvimento Profissional e professor de Gestão de Pessoas no Centro Universitário Leonardo da Vinci, acrescenta que, caso uma contra-proposta seja feita, é preciso ter certeza do que realmente se deseja: “Esteja convicto de que não quer mais fazer parte da empresa, pois se aceitar e se arrepender depois, a situação pode deixa-lo mal”.

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O gerente de projetos Fernando Mortara vivenciou recentemente uma situação delicada na hora de pedir demissão. "Passei um ano dentro de uma empresa desenvolvendo um projeto de tecnologia, no entanto, estava apenas alocado pois era funcionário de uma prestadora de serviços”, lembra. A questão é que a própria empresa quis me contratar”.

Mortara explica que esse tipo de "assédio" de empresas compradoras de serviços com profissionais "alugados" de empresas terceiras é muito comum no mundo corporativo. "Não é um comportamento muito aceitável, porém acontece com frequência. Por isso, assim que recebi o convite fui conversar com meu gestor e expliquei a situação. Ele foi muito receptivo e chegou a dizer que não faria uma contraproposta porque sabia que eu não estava especulando e que se me oferecesse um aumento de salário naquele momento talvez eu me perguntasse o porquê de a empresa não ter me reconhecido anteriormente".

Sem deslizar nos últimos passos
Cumpra o aviso prévio. “Não cometa o erro que muitas pessoas cometem de pedir demissão e, já no outro dia, não aparecer na empresa”, diz Rodolpho de Souza. “Lembre-se que a demonstração de não comprometimento com a antiga empresa pode até fechar portas para novas oportunidades”. Não fale em dinheiro e não fale mal de ninguém: “Falar mal de quem lhe deu uma oportunidade não é legal; seja maduro e respeitoso. Saiba que é só uma quebra de contrato”. Souza aconselha a pessoa a sair pela porta principal, procurando sempre não deixar nenhum mal entendido. “Mostre que você é, antes de qualquer coisa, um profissional”. Dessa forma, todos saberão que você está aberto e procura novos desafios, e por essa razão está agora se desligando da empresa.

Caso a empresa ou algum funcionário demonstre insatisfação com o pedido de demissão, a dica é manter a posição e conduta de bom profissional até o fim. “Não arme o ‘barraco’”, brinca Souza.

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