Por consciência ambiental ou pelo desejo de um fim mais digno para os bichos, crematórios para animais crescem

Juliana Padilha e sua cadela Flick, companheira de dez anos
Arquivo pessoal
Juliana Padilha e sua cadela Flick, companheira de dez anos
O relacionamento entre um dono e seu animal de estimação não é muito diferente de qualquer outro. Tem aspectos afetivos, claro, mas também práticos. E, às vezes, quando um e outro se misturam, pode ser difícil administrar. Lidar com a morte de um bichinho é um desses casos: além da perda, que geralmente vem acompanhada de sofrimento (e até muito), muita gente se pega sem saber o que deve fazer em casos assim.

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A cadela Flick viveu durante 10 anos ao lado da família Padilha, e era uma daquelas cachorras que são consideradas um membro do clã. Até festa de aniversário ela tinha, com direito a bolo, velinhas e bexigas. Quando Flick morreu, a família decidiu levá-la para ser cremada em um crematório de animais. “Decidimos pela cremação porque não queríamos passar pelo processo do enterro, que achamos que seria ainda mais doloroso. Não houve cerimônia, nem quisemos ter acesso às cinzas dela, também para evitar mais sofrimento”, conta Juliana Padilha, dona da Flick.

Apesar de ainda encontrar resistência de pessoas que se incomodam com a idéia de dar esse tipo de tratamento a animais, a procura pelos estabelecimentos cresce cada vez mais. Luiz Henrique Guimarães Franco, veterinário responsável pelo Pet Memorial, crematório de animais que fica em São Bernardo do Campo (SP) e é o mais antigo da América Latina e maior do mundo, hoje eles realizam 530 cremações por mês. “E esse número tem aumentado todos os anos”, afirma.

O que fazer

Além da cremação, existem outras três possibilidades legais em caso de morte de um animal de estimação. A primeira é entrar em contato com a prefeitura, que em todos os municípios é a responsável por recolher os animais. A segunda é levar o animal para uma clínica veterinária – que é, na verdade, apenas uma versão mais prática da primeira, já que o recolhimento nas clínicas é realizado pela prefeitura. As outras duas são enterro e cremação, ambas condicionadas ao contrato com um estabelecimento autorizado – não é permitido fazer enterros domésticos por causa do risco de contaminação do solo e de lençóis freáticos.

Entre quem acha um absurdo contratar um serviço funeral para um animal de estimação e quem compra até velório e urna de bronze, há um meio-termo que, não raro, acaba se sensibilizando ao descobrir que o destino que o animal recebe ao ser recolhido pela prefeitura é o tratamento de lixo hospitalar. “Fora o cliente que tem esse carinho e quer dar um fim mais digno para o animal, tem o cliente que se preocupa com o cuidado ambiental”, diz Luiz Henrique. Exatamente por isso, os crematórios acabam sendo mais populares que os cemitérios.

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Os serviços são variados. Vão desde a cremação coletiva, sem cerimônia e para quem não quer guardar as cinzas, até a cremação individual com velório e urna ornamentada. Todas incluem a retirada do animal e atendem 24 horas. Os preços podem variar de R$ 318 a R$ 2.500, dependendo do serviço e do estabelecimento. A oferta é grande: carros climatizados para recolher os animais, velórios ornamentados, urnas de bronze, pedra-sabão, madeira reciclável.

Perda

O cãozinho Bob Marley, que continua sendo lembrado pela família mesmo depois de sua morte
Arquivo pessoal
O cãozinho Bob Marley, que continua sendo lembrado pela família mesmo depois de sua morte
“O relacionamento que muitos de nós estabelecemos com animais de estimação traz uma gratificação emocional. A outra face da moeda é a perda e o luto, que podem ser semelhantes à perda e luto que sentimos quando nos separamos de outras pessoas”, diz o psicólogo experimental da USP César Ades.

Para Ana Carolina Maciel, perder o cachorrinho Bob Marley foi um dos momentos mais difíceis de sua vida. “Mantivemos alguns hábitos, o que para alguns pode ser mórbido, mas é nossa forma de lidar com a saudade e distrair nosso sofrimento. Todos os dias, por exemplo, minha mãe troca a água da tigela, meu pai arruma a caminha dele ao seu lado no quarto e eu e meu irmão damos boa noite, além de conversarmos com sua foto”, diz Ana.

Ades acredita que essa reação pode ser considerada até comum. “Não estranha que as pessoas reajam à perda de um animal de uma maneira semelhante à reação que têm diante da perda de uma pessoa: guardando objetos, fotos, lembrando-se, sentindo falta, etc. A questão de superar, ou não, uma perda afetiva, depende do temperamento das pessoas, de sua história passada: há quem supera e se enriquece afetivamente com a experiência da perda; há quem se sinta preso à tristeza e à falta sem conseguir ir adiante”.

O luto e a necessidade de dar um encerramento ao relacionamento explicam, por exemplo, que donos enviem animais de Brasília até São Paulo para que recebam um funeral. E também comportamentos como o de uma mulher que perdeu o cachorro e resolveu cremá-lo: “Quando ela recebeu a urna, disse que iria guardá-la e queria que fosse enterrada com ela”, conta Luiz Henrique.

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