Página do Facebook com email de jovem em estado terminal faz pensar: o que dizer para alguém que está morrendo?

O que dizer quando não há nada a fazer?
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O que dizer quando não há nada a fazer?
No final de outubro deste ano, o psicólogo Frederico Mattos recebeu um email que mudou sua vida – e a forma como encarava a morte. Sob o título de “PRECISO DA SUA AJUDA, ACHO QUE NÃO ESTOU MUITO BEM”, o email contava a história de R, que aos 28 anos era portador de uma doença rara, fatal e em estado terminal. No final do seu relato, R perguntava o que ele, Frederico, como psicólogo, teria a dizer para alguém que está prestes a morrer.

“Perguntei a mim mesmo, naquele momento, o que eu gostaria de ouvir de alguém numa situação quase inimaginável como aquela”, conta Frederico, que, com seus 31 anos, é apenas um pouco mais velho do que R.

“Em vez de responder falando sobre a morte, decidi falar sobre a vida. Afinal, esse é o tema do meu blog”, diz referindo-se ao blog Sobreavida . E havia sido através do blog que R havia chegado até ele.

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Frederico enviou o email. Mas no dia seguinte, recebe uma mensagem da irmã de R comunicando seu falecimento. R nunca chegou a ler a resposta de Frederico.

“Aquilo me chocou. R havia dito em seu email que talvez minha resposta à sua pergunta, ‘O que você, como psicólogo, diria para alguém que está morrendo ’ pudesse ajudar outras pessoas na mesma situação. Resolvi, então, publicar uma nota no Facebook com os dois e-mails, o primeiro, com a pergunta de R e o segundo com a minha resposta.”

A nota foi postada no dia 21 de outubro. Desde então, já foi compartilhada por quase 1000 pessoas no Facebook e lida por mais de 7 mil pessoas no blog Sobreavida .

Essa história, tocante em muitos aspectos, traz à tona um assunto delicado: Como agir e o que dizer diante da morte? Como confortar alguém cujo prognóstico não permite esperança?

“Lidar com o fim da vida não é algo fácil. Requer a revisão de alguns conceitos e valores”, ensina Patrícia Stanich, 41 anos, Doutora em Neurociências pela Unifesp e que há 18 anos, faz atendimento hospitalar em Unidades de Terapia Intensiva, cuidando, sobretudo, de pacientes portadores da Doença do Neurônio Motor (DNM) ou de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a uma doença até o momento incurável.

“A inevitabilidade do momento da morte precisa ser trabalhada, não só pelo paciente, mas pelos familiares e profissionais envolvidos", adverte.

Tanya Cecilia Bottas tem 60 anos e é psicóloga. Há 4 anos seu marido, Sérgio Oliveira, recebeu o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica. Não bastasse o delicado veredicto, tiveram que lidar com uma situação pela qual ninguém deveria passar. “Nós recebemos a notícia através de um neurologista clínico pouco preparado que simplesmente nos informou da forca e da data da execução”, relata.

O casal foi então procurar profissionais mais esclarecidos e preparados para lidar com esse momento tão difícil. “Buscamos aqueles que nos oferecessem possibilidades – difíceis - mas possibilidades, queríamos razões para lutar, não uma sentença de morte”, conta.

Receber o diagnóstico de forma acolhedora fez efeito: “A doença continuava difícil, mas os caminhos apresentados não eliminavam as expectativas positivas, quem sabe amanhã alguém não descobre uma nova forma de tratamento”.

Hoje, Sérgio apresenta limitações no movimento e na comunicação e a família desenvolveu algumas estratégias para manter a esperança e o bom astral. "Nosso mote nesta caminhada é reconhecer de frente a doença, mas não nos intimidarmos com suas sequelas e limitações", diz Tanya. "Valorizamos ao máximo a relação familiar, o afeto dos filhos, o estar junto com irmãos e parentes mais próximos. É fundamental a família acompanhar cada momento do tratamento com entusiasmo, afinal, a doença não é problema de um só, todos precisam ser envolvidos"

Manter a casa com cara de casa foi outra coisa que Tanya aprendeu. "A casa não pode virar um hospital povoado de cuidadores não identificados com a família", dignostica. E encontrar formas de reintroduzir a intimidade e a alegria na situação é um desafio diário. "Tento incentivar conversas sobre os aspectos que sinalizem melhora, valorizar o esforço dele diante das contingências da doença, conhecer o que o satisfaz, ajudá-lo a recordar aspectos favoráveis da vida e a reviver momentos bons", diz Tanya, antes de concluir: "A gente não pode resumir a vida aos cuidados e terapêuticas curativas e esquecer do amparo afetivo. Isso é o essencial!"

Patrícia Stanich certamente concordaria com Tanya. "Não existem regras absolutas de conduta que ajudem a tornar menos dolorosa a experiência dos pacientes terminais", avalia, mas, de modo geral, “o apoio dos familiares e amigos e a crença em alguma instância maior, parecem amenizar o processo”. E, claro, alguns cuidados podem ajudar muito na hora de conversar com alguém que sabe que vai morrer:

  • Não antecipe os fatos.
  • Apoie e deixe a pessoa falar sobre amor, vida, culpas, raiva, medo, tristeza, desejos.
  • Mostrar que você aceita o processo, que está sofrendo junto e que se dispõe a vivenciar essa despedida ajuda quem vai morrer a sentir-se mais sereno para encerrar o ciclo da vida.
  • Palavras para dizer: tente evitar pensamentos negativos - faça planos - faça e diga tudo o que deseja - não se prenda na posição de vítima - o jogo não acabou.
  • Palavras para não dizer: posso imaginar o que você esta sentindo - você vai se curar - não desista - como você está melhor - não chore - não sofra - não fique triste.


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