Comentários e fotos em site de relacionamento podem ajudar a detectar se um jovem está abusando do álcool, aponta nova pesquisa

Perfil no facebook pode auxiliar a detectar jovem que tenham problemas com bebidas alcoólicas
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Perfil no facebook pode auxiliar a detectar jovem que tenham problemas com bebidas alcoólicas
Pesquisadores afirmam que sugestões verbais e visuais em páginas de estudantes no Facebook podem destacar o consumo de álcool e apontar quem está em risco. "Nosso trabalho é fazer a distinção entre beber em um ambiente relativamente seguro, quando não é realmente um problema, e o consumo de bebida alcoólica em ocasiões que poderiam levar a resultados negativos", explicou a principal autora do estudo Megan A. Moreno, professora assistente de pediatria da Universidade de Wisconsin, em Madison.

"Nós levamos em consideração algumas pistas – que são palavras-chave ou indícios que já são usados em questionários padrão de triagem de risco de abuso de álcool, conhecido como AUDIT, em estudos clínicos - e aplicamos isso aos perfis públicos no Facebook", afirmou Moreno. "Descobrimos que os alunos cujos perfis no site de relacionamento social continham essas referências que indicam problemas com álcool em fotos e em comentários são quatro vezes mais propensos a ter problemas com bebidas do que aqueles cujos perfis não continham tais indicativos."

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Até 21 anos
De acordo com os autores do estudo, o abuso de álcool é um grande problema em todos os alojamentos universitários dos Estados Unidos. Mais de 1.700 estudantes universitários morrem a cada ano em incidentes relacionados ao álcool, enquanto cerca de metade dos estudantes que bebem dizem que já experimentaram algum tipo de efeito nocivo do álcool. Estudantes de até 21 anos, em particular, enfrentam um risco maior de sofrer ferimentos provenientes de experiências que envolvam bebidas alcoólicas.

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No entanto, é difícil identificar os alunos em maior risco, disseram os pesquisadores. Isso porque apenas 12% dos estudantes universitários americanos participam de esforços para identificar o uso excessivo de álcool através do questionário padrão AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test).

Por outro lado, de 94% a 98% dos jovens universitários têm algum tipo de perfil em sites de relacionamento e a grande maioria se conecta diariamente. Diante deste cenário, a equipe de Moreno se perguntou se poderia tirar proveito das redes sociais para localizar jovens em risco.

Entre 2009 e 2010 os pesquisadores analisaram perfis na rede social mais popular entre estudantes universitários: o Facebook. Eles primeiro revisaram e “codificaram” perfis de 307 alunos com idades entre 18 e 20.

A maioria dos perfis - quase dois terços – não demonstrava ter referências a bebidas alcoólicas. Cerca de 20% traziam referências, mas os indicadores foram considerados inofensivos. Pouco mais de 16% dos perfis continham referências a embriaguez ou outros indicadores de que a pessoa poderia estar caminhando em direção a problemas com bebidas. Todos os 307 alunos foram eventualmente contatados e 224 deles, posteriormente, preencheram um questionário de triagem padrão AUDIT.

O resultado: pouco mais de 58% dos jovens universitários cujos perfis levantaram preocupações com consumo de bebidas alcoólicas estavam, de fato, suscetíveis a terem grandes problemas com álcool, como foi confirmado pela ferramenta de auditoria.

Além disso, em quase 38% daqueles jovens cujos perfis se pensava conter referências “inofensivas” de consumo de bebidas alcoólicas também foram considerados em risco. O mesmo era verdade para quase 23% daqueles que não tinham referências a álcool em qualquer postagem no Facebook.

"Então, claramente, apenas porque não havia indícios no Facebook não quer dizer que o aluno não estava bebendo", reconheceu Moreno.

Privacidade mais rigorosa
A autora também observou que configurações de privacidade nas páginas do Facebook são mais rigorosas hoje em dia do que quando o estudo foi realizado. "Mas observar dados no Facebook ainda pode ser útil porque a minha maior esperança é que este estudo inicie uma conversa, capacitando amigos e colegas a repararem nos perfis uns dos outros e façam algo quando perceberem que seus amigos estão apresentando algum comportamento preocupante", acrescentou Moreno.

"O ponto é que eu acho que nós temos essa idéia de que a internet ainda é um lugar onde nós colocamos todo o tipo de bobagem que não é real e onde nós tentamos nos tornar algo diferente do que realmente somos", disse Moreno. "Mas na verdade nós precisamos levar um pouco mais a sério porque um monte de gente usa sites de relacionamento para expressar o que são de verdade. Portanto, essas mensagens podem ser uma maneira útil para amigos e familiares detectarem problemas com bebidas."

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Dr. Adam Bisaga, professor associado de psiquiatria na Universidade de Columbia em Nova York e psiquiatra especialista em vício no New York State Psychiatric Institute, descreveu a abordagem que usa o Facebook para identificar abuso de álcool entre os jovens como "interessante", mas advertiu que isso não vai se tornar um substituto para as técnicas de triagem mais rigorosas.

"Eu não acho que essa abordagem, seja conduzida de forma anônima ou com consentimento, seja mais eficaz do que se envolver com as pessoas diretamente", disse Bisaga. "É certamente um método interessante. Mas, sem fazer as perguntas específicas que você precisa perguntar a cada um, você pode acabar usando indicadores enganosos. O que significa dizer que este procedimento poderia levantar mais problemas do que benefícios na prática", observou o professor. Ele, entretanto, acrescentou que, se feita com cuidado e como fonte adicional de rastreamento, a triagem através do Facebook poderia ser útil.

Moreno e seus colegas publicaram suas descobertas na edição online do início de outubro da revista Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine. Parte do estudo foi financiada pelo Instituto Nacional dos EUA de Abuso do Álcool e Alcoolismo e pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos EUA.

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