Eles encaram jornadas de trabalho intensas, trajes polares no calor de dezembro e cantadas inesperadas. Saiba como é a vida dos atores que trabalham como Bom Velhinho

Com a chegada de dezembro, uma leva de papais noéis invade a paisagem cotidiana, seja no shopping, na televisão ou fazendo visitas em casas, escolas e afins. Para quem vê de fora, o trabalho pode parecer fácil. Mas não é bem assim.

Não basta colocar uma fantasia e sair distribuindo presentes. Paulo Mendes, da Cia. do Bafafá, tem 20 anos de experiência na função. Ator profissional, ele estreou na carreira de bom velhinho para ter renda no mês de dezembro, quando as peças de teatro saem de cartaz e muitos atores ficam sem emprego.

“O ator tem essa condição de ser espontâneo, de estudar o personagem”, diz Mendes, que hoje comanda uma empresa com cerca de 50 noéis no casting.

Atores também podem contar com mais ferramentas para contornar situações imprevisíveis. “Certa vez, cheguei fazendo ‘hohoho’, interagindo com as crianças menores e com a família, mas uma menina de uns 12 anos, muito desconfiada, puxou minha barba. Ator experiente que sou, disfarcei que tinha caído um presente, recoloquei no lugar e segui”, ilustra ele.

Mas não só as crianças obrigam os papais noéis profissionais a ter jogo de cintura. Silvio Ribeiro, o Papai Noel com mais tempo de atividade no Brasil, com 45 anos de profissão, conta que já foi cantado por uma mulher quando estava trabalhando em um shopping. “Ela mandou o motorista me oferecer dinheiro para sair com ela. Mas neguei, é claro”, diz o ator, que fundou o primeiro curso para papais nóeis do Brasil, em 1976, e comanda uma agência não por coincidência chamada Claus Produções.

Além de jogo de cintura, há outros pré-requisitos para um bom Papai Noel. Ser amável, carinhoso e paciente estão na ordem do dia. E também ter disponibilidade para gastar todas estas qualidades em confraternizações de uma família que não é a sua: muitos papais noéis abrem mão de passar o Natal com a própria família para dar expediente em pleno 24 de dezembro.

“A maratona de trabalho é intensa. Na véspera, entrego os presentes nas casas de família e também percorro viadutos distribuindo presentes e doces para crianças carentes. E no dia 25 visito asilos, orfanatos e hospitais. Minha família compreende, festa só no Ano Novo”, conta Silvio.

Natal tropical

Contornar situações difíceis, improvisar, ter paciência com crianças e adultos e disposição para trabalhar intensamente não são o bastante. Ainda que estejam em terras tropicais, os papais noéis brasileiros ainda precisam fazer tudo isso usando uma indumentária desenhada para um personagem que mora no gelado Pólo Norte.

Todos os detalhes contam na hora de convencer a clientela. “As crianças de até seis anos acreditam piamente no Papai Noel. Já os mais velhos, por volta dos 12 anos, querem mostrar para os menores que ele não existe”, explica Paulo.

Silvio Ribeiro se orgulha de ser o Papai Noel mais antigo na profissão
Divulgação/Silvio Ribeiro
Silvio Ribeiro se orgulha de ser o Papai Noel mais antigo na profissão

Papai Noel de carreira

Um candidato a Papai Noel deve estar bem preparado para administrar este e outros conflitos. Por isso, as agências selecionam e treinam os aspirantes a Bom Velhinho com rigor.

Na Cia do Bafafá, o aspirante passa por uma entrevista detalhada. "Começo perguntando se o candidato tem filhos e netos, para perceber como ele se relaciona com as crianças", conta Paulo.

Depois, seguem as perguntas mais complicadas, como "se uma criança pedir um presente muito absurdo, você diz que vai dar?". Paulo explica que a sutileza nesta hora é tudo. "O Papai Noel tem que perceber e ter jogo de cintura para procurar o olhar do pai, ou até para perguntar 'papai, você acha que vai dar pera gente encontrar esse presente no Pólo Norte?'", explica.

Os candidatos também devem comprovar boa saúde. Uma vez aprovado, o neo-noel vai para o cabeleireiro dar um trato na barba – no caso dos que têm barba natural – e depois para a costureira, de onde sai com uma roupa sob medida. E ainda recebe noções básicas de bom comportamento, como evitar bebida e cigarro antes do expediente e caprichar na higiene bucal e corporal.

Depois de treinar muito o ‘hohoho’, o novato começa fazendo visitas em escolas. Com a experiência adquirida, o próximo passo são as casas de família. Mas o filé mignon da profissão é mesmo o shopping, onde os ganhos são maiores e o ar-condicionado, garantido.

Paulo totalmente caracterizado para viver o Bom Velhinho
Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Paulo totalmente caracterizado para viver o Bom Velhinho


Uma visita de 20 minutos custa em média R$ 770. Já os papais noéis que trabalham para os shoppings, em contratos de 40 dias, podem ter ganhos de R$ 5 mil a R$ 18 mil.

Ao contratar um Papai Noel para sua festa de final de ano, cheque as referências dos candidatos. Procure saber se eles são atores profissionais e quanto tempo têm de experiência. Cheque também o site da empresa. As agências mais sérias fazem contrato com tudo descrito e orientam o contratante sobre como receber o Papai Noel em casa.

“É preciso tomar cuidado. Nessa época do ano, as pessoas procuram muito esse tipo de serviço e aparecem aqueles que vão na 25 de Março [rua de comércio popular em São Paulo], compram uma roupa qualquer e colocam um anúncio na internet”, alerta Mendes. Fique de olho para não contratar algum espertinho e acabar com a festa.

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Serviço

Cia do Bafafá: www.ciadobafafa.com.br

Claus Produções: www.papainoel-claus.blogspot.com.br

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