
Selma tem 57 anos. Recatada, por conta da rígida educação religiosa que teve, o sexo nunca foi uma coisa simples para ela. Muito dedicada aos filhos e ao marido, teve uma grande surpresa quando ele, após 37 anos de casamento, lhe comunicou que desejava se separar e saiu de casa. O ex-marido, feliz com a nova mulher, passou a evitar contatos com ela. “Sofri demais, por muito tempo, cheguei a pensar em suicídio. Quando estava um pouco melhor, conheci um novo vizinho. É um viúvo, gentil e carinhoso. Gostou de mim e saímos algumas vezes. Fiz muitas fantasias de reconstruir a minha vida, mas quando sugeriu que fôssemos à sua casa, o mundo desabou. Fiquei achando que ele estava me confundindo com uma mulher fácil. A partir de então, achei melhor me afastar.”
Muitos, ao lerem o caso de Selma, dirão que isso não existe mais, que atualmente ninguém se comporta dessa forma. Não sei não. Você acredita mesmo que hoje exista liberdade sexual? Que as pessoas busquem desenvolver ao máximo o prazer? Apesar de um grande número de homens e mulheres buscar relações sexuais mais livres, respeitando os próprios desejos, uma grande parcela da população ainda se submete a valores morais anacrônicos, sem nenhum questionamento.
O sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que a maioria não sabe diferenciar o que realmente deseja do que aprendeu a desejar. Quantas vezes você ouviu uma amiga afirmar, após ter ficado de carícias e beijos a noite inteira com um homem, que não foi ao motel porque não sentiu vontade? Ou um amigo dizer que não está a fim de sair com determinada mulher, quando no fundo o medo é de falhar a ereção?
A repressão sexual é um conjunto de interdições, valores e regras estabelecidas pelo social para controlar a sexualidade das pessoas. O maior perigo da repressão sexual é quando, de tão bem-sucedida, não se percebe sua existência. Por meio da educação, os valores e as proibições sociais são assimilados de tal maneira que, depois de internalizados, se expressam sob a forma de culpa e vergonha. E a ideia de que há no sexo algo de pecaminoso é absurda, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora. Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. E dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço. Por conta de todos os preconceitos, se vive como se sexo não existisse, e ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto.
Na verdade, a repressão sexual é um enigma estranho e paradoxal. Se todo ser humano sente prazer com estímulos sexuais, por que então, o tempo todo e em toda parte, sempre existe alguém tentando restringir a liberdade sexual das pessoas? Uma explicação possível está no fato de que, quanto mais se amplia, aprofunda e diversifica a vida sexual, com mais coragem, vontade e decisão se vai vivendo. Transgredir e contestar as regras impostas pode, portanto, tornar as pessoas “perigosas”.
W. Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século XX, vai mais longe ainda. Ele afirma que a repressão sexual da criança torna-a apreensiva, tímida, obediente, “simpática” e “bem comportada”, produzindo indivíduos submissos, com medo da autoridade. O recalcamento — resultado da interiorização da repressão sexual — enfraquece o ‘Eu’ porque a pessoa, tendo que constantemente investir energia para impedir a expressão dos seus desejos sexuais, priva-se de parte de suas potencialidades.
Portanto, conclui Reich, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar indivíduos para se adaptar à sociedade autoritária, se submetendo a ela e temendo a liberdade, apesar de todo o sofrimento e humilhação de que são vítimas. James W. Prescott, respeitado neuropsicólogo e pesquisador americano, concluiu que uma personalidade orientada para o prazer raramente exibe condutas violentas ou agressivas e que uma personalidade violenta tem pouca capacidade para tolerar, experimentar ou desfrutar atividades sexualmente prazerosas.
Ao contrário de outras culturas, em que alcançar o máximo de satisfação no sexo é importante, a nossa cultura judaico-cristã valoriza mais o sofrimento, considerando-o uma virtude. O prazer é visto com maus olhos. Se você quiser comprovar, basta fazer uma experiência. Quando chegar amanhã ao trabalho, conte uma desgraça, daquelas bem cabeludas. Diga como está sofrendo e como viver é difícil. Garanto que todos vão se mobilizar, ficar ao seu lado, tentando ajudar de todas as maneiras. Daqui a uma semana, faça o oposto. Conte como está feliz, diga que teve uma noite maravilhosa, de intenso prazer sexual. Mas se prepare. Seus colegas vão tentar disfarçar, mas se afastarão com risinhos irônicos e passarão a te olhar diferente, de um jeito meio crítico.
Não é de admirar, portanto, que tanta gente renuncie à sexualidade ou que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura seja de tão baixa qualidade. Na maioria das vezes ela é praticada como uma ação mecânica, rotineira, desprovida de emoção, com o único objetivo de atingir o orgasmo o mais rápido possível. Resulta daí ser o desempenho bastante ansioso, podendo levar a um bloqueio emocional e a vários tipos de disfunção, como impotência, ejaculação precoce, ausência de desejo e de orgasmo, sem falar nos casos mais graves de enfermidades psíquicas. É preciso descomplicar o sexo.
Há algum tempo, perguntei a diversas pessoas o que elas pensavam a respeito da repressão sexual. Aí vão algumas respostas.
João Ubaldo Ribeiro (escritor)
Ainda existe muita repressão. Essa frase do Nelson Rodrigues, muito citada, ilustra bem isso: “Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém.” O grau de repressão é altíssimo, inclusive da pessoa com ela mesma.
Elza Soares (cantora)
Fui muito atacada durante a minha relação com o Garrincha, mas não me arrependi de estar amando, não. Mas eu fazia comparações. As sociedade foi muito preconceituosa por eu ser mulher, negra e pobre, e denunciar a hipocrisia.
Lula Vieira (publicitário)
O sexo é reprimidíssimo, por ser uma coisa muito libertária. As religiões e os poderosos acham que sem reprimir o sexo não há possibilidade de domínio político ou social. A primeira preocupação de qualquer religioso é cuidar do sexo. A repressão sexual é uma forma de dominar.
Luiz Mott (antropólogo, fundador do Grupo Gay da Bahia)
Há pesquisas rigorosas que comprovam grandes semelhanças psicológicas entre pessoas racistas, machistas e homofóbicas. Todas ostentam personalidade do tipo autoritária, com graves dificuldades em conviver com a "alteridade". Em termos de religião, via de regra tendem ao fanatismo; em política são fascistóides. O Brasil é o campeão mundial em assassinatos de homossexuais!
José Ângelo Gaiarsa (psicoterapeuta e escritor)
Bom, a pedra de toque na repressão sexual é: “mãe não tem xoxota”. Veja bem, fala-se em liberação sexual, mas mãe não tem xoxota.
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Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro
Ficamos revestidos por esta casca fragil e ao mesmo tempo opressora, onde massacramos nossos impulsos, criando uma nação de insatisfeitos, que via de regra focam suas frustrações na comida, no trabalho, na violência .
Sexo, deve ser feito com vontade entre as partes, se por amor ou por desejo, isto não e o mais relevante e sim a oportunidade de realizar seu interior .
- O que sempre achei um ABSURDO é que a grande maioria existente de HOMENS e MULHERES, podem ser desonestos , mentirosos, não sinceros na área financeira , andarem naturalmente de cabeça erguida e não estão nem aí. De um outro lado, se falar ou fazer sexo com a maior naturalidade, o que deveria ser, êsse ou essa estão enrolados. A sociedade nem aceita serem visitados êsses. Isso vai mudar , mas vai demorar . Enquanto isso a mulherada , principalmente, vão sofrer .
Responder comentário | Denunciar comentárioAcredito que a repressão sexual tenha começado pelas tribos guerreiras, que por serem guerreiras eram também patriarcais. O treinamento de guerra exige a repressão do prazer, uma vez que prazer e dor fazem parte de um mesmo caminho, o da sensibilidade. Precisa-se reprimir o prazer para que o soldado também não sinta dor e assim possa guerrilhar por mais tempo.
Responder comentário | Denunciar comentário- Excelente texto. Bem escrito e muito claro na sua proposição. Um texto útil. Dentre os melhores momentos, ressalto este: "O maior perigo da repressão sexual é quando, de tão bem-sucedida, não se percebe sua existência." Grande Regina. Continue, garota... continue...
Responder comentário | Denunciar comentárioÓtimo texto!
Ver a repressão sexual por esse viés da dominação realmente ajuda a entender mellhor nossa estrutura social baseada no autoritarismo e na submissão passiva, e também o quanto nossa libertação individual pode contribuir para a libertação coletiva.
Obrigada, Regina, por nos ajudar nesse trabalho árduo que é desaprender tantas bobagens aparentemente inofensivas, mas absurdamente opressoras, que nos enfiaram goela abaixo...
Apesar de toda dificuldade ate de imaginar como seria, creio que viveriamos de forma muito mais verdadeira e honesta para conosco mesmos e poderiamos ser mais felizes com o corpo que Ele nos deu com capacidade de sentir prazer e plenitude.
Responder comentário | Denunciar comentárioSempre pensei dessa forma. Terminei um relacionamento com uma pessoa maravilhosa em parte pela forma estigmática com que ela lidava com o sexo. Apesar de aparentar ser uma pessoa de mente aberta, de preocupações feministas inclusive, ela não conseguia se soltar totalmente quando estávamos a sós.
Responder comentário | Denunciar comentárioO sexo é uma coisa importante sim, mas para ser guardado para a hora certa. As pessoas tem sim o instinto, o impulso sexual, mas depois disso, no sexo sem compromisso, desregrado, fácil, o que resta é o sentimento de vazio, de ter sido usado ( e ter usado a outra pessoa) como objeto de prazer. Separar o sexo do compromisso e do amor, é uma das causas da existência de tantas pessoas em depressão e desacreditadas no amor. O ser humano se diferencia dos outros animais por ser pensante e ter sentimentos mais detalhados que os outros animais, então ajamos como tal. Se a humanidade continuar agindo como uma criança mimada se permitindo fazer o que quizer ( drogas, sexo, violencia, ganancia) chegará ao seu fim muito antes do que imaginamos. Não banalizem o sexo, voces nasceram dele, enquanto ainda era feito com amor! pense nisso...
Responder comentário | Denunciar comentárioParabéns pelo post Regina. Tenho 26 anos e nunca tinha visto com esses olhos a repressão sexual como forma de dominar ou de tornar pessoas "submissas" a preceitos da sociedade.
Responder comentário | Denunciar comentárioSempre leio seus artigos no O DIA. Acho muito interessantes os artigos, e aborda os temas com muita propriedade. Existem muitas pessoas "travadas" em relação ao sexo, eu mesmo ainda sou muito reprimido, mas das leituras dos seus textos, cada dia me convenço que a repressão sexual é inerente ao dominio social das elites, que para si, não impõem nenhum limite, tudo se permitindo, ainda que escondam isso de nós. Haja hipocrisia! Parabens e obrigado pela enorme contribuição e conhecimento que nos traz....
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