
Você tem um adolescente em casa que passa mais tempo trancado no quarto, imerso em redes sociais ou jogos, do que com a família? O debate sobre a questão se tornou ainda mais comum entre pais e responsáveis após o lançamento de " Adolescência".
A produção britânica, lançada em 13 de março, já é a minissérie de maior audiência da Netflix. Em menos de duas semanas, alcançou 66,3 milhões de visualizações — foram 24 milhões apenas na estreia.
A história gira em torno de Jamie Miller ( Owen Cooper), adolescente de 13 anos acusado de matar uma colega de escola. Ao longo de quatro episódios, os espectadores acompanham a investigação, a dinâmica da interação entre jovens, o impacto familiar e, principalmente, a influência do mundo digital no crime cometido.
A influência da internet na vida dos adolescentes
Para entender sobre o tema, iG Delas conversou com a orientadora parental e escritora Anita Cleare, autora de ' Enfurnados: como tirar seu filho adolescente do quarto ', que indica estratégias para ajudar os pais sem precisar recorrer a padrões engessados e autoritários.

E é justamente isso que ela reforça. De acordo com a especialista, os dispositivos digitais exercem um forte magnetismo sobre os jovens, que têm dificuldades em regular o uso de maneira consciente, o que afeta o desenvolvimento deles.
Isso ocorre porque os adolescentes são altamente sensíveis à forma como são percebidos pelos colegas. No ambiente digital, essa resposta é imediata, seja por meio de curtidas, comentários ou outras interações.
"Quando esse feedback é negativo, pode impactar a autoestima dos jovens. No entanto, as redes também podem proporcionar um senso de pertencimento e conexão, o que fortalece a autoconfiança. O efeito, positivo ou negativo, depende do tipo de conteúdo que consomem", explica a britânica.
De qualquer forma, há sinais de alerta que indicam que o uso das redes sociais pode estar sendo prejudicial aos adolescentes. É o caso de alterações no sono e no desempenho escolar e mudanças físicas ou de comportamento.
Pais X internet: aliados ou adversários na educação?
Neste cenário, a função dos pais é balancear a atração pela internet. Mas como fazê-lo? Para Anita, a chave está no equilíbrio entre o apoio familiar, comunicação e regras consistentes sobre o uso da tecnologia.

Isso ajuda os filhos a se desconectarem gradualmente sem a necessidade de proibições rígidas. Afinal, o objetivo é que os adolescentes aprendam a regular sua vida digital de forma saudável, não castigá-los. Algumas estratégias indicadas:
- Tente reduzir o uso da tecnologia e criar momentos sem telas no dia a dia;
- Dê o exemplo desligando o próprio celular;
- Defina espaços na casa onde não são permitidos dispositivos eletrônicos ou estabeleça horários livres de tecnologia;
- Também é essencial manter os aparelhos digitais fora dos quartos à noite;
- Busque atividades offline que seu filho goste e façam juntos.
Outra dúvida comum é sobre a liberdade deles no mundo digital, já que a adolescência é uma fase de transição para a independência. Isso significa que os filhos começam a se afastar dos pais. "É importante respeitar isso, mas sem perder o vínculo", reforça Cleare, que compara a tarefa com ensiná-los a nadar.
No início, precisam de supervisão total com o máximo de precauções. Aos poucos, é possível se afastar um pouco para ver como reagem. Com o tempo, será necessário apenas observá-los enquanto "nadam" sozinhos.

Porém, vale ressaltar que cada criança tem em seu próprio ritmo. Por isso, só aumente a autonomia quando seu filho estiver preparado e com os meios para pedir ajuda, se necessário: "Vá ajustando os limites aos poucos e mantenha conversas abertas sobre a vida digital", diz a orientadora ao iG Delas.
A chave está na comunicação
Construir uma boa relação com os filhos passa diretamente pela comunicação. E isso também é válido para as redes sociais, assim como acontece com outros assuntos espinhosos, como vida acadêmica ou mesmo sexual.
Segundo a especialista, muitos adolescentes temem se abrir por achar que os pais não vão entender ou irão reagir exageradamente. "Em vez de impor sua presença, tente abordá-los de forma colaborativa e flexível. O segredo é ouvir mais do que falar. Seja curioso", indica.

É possível cultivar essa confiança mútua com uma série de atitudes simples, como perguntar mais sobre o ponto de vida deles, demonstrar empatia e curiosidade sobre seus desejos e expertises.
- Se discordar de uma opinião deles, não os corrija de imediato, mas pergunte mais sobre o ponto de vista deles;
- Se eles tiverem um problema, não tente resolvê-lo imediatamente, mas demonstre empatia;
- Trate-os como especialistas em suas próprias vidas e ajude-os a encontrar soluções;
- Se estiverem emocionais, mantenha a calma;
- Também pode ser útil abordar certos assuntos de forma indireta, como comentar sobre algo visto na TV ou nas notícias e perguntar o que eles e os amigos pensam sobre isso.
"Continue batendo na porta do quarto e se mostrando disponível. Muitas vezes, os momentos mais valiosos acontecem em pequenas interações, como quando eles estão procurando algo para comer ou pedindo uma carona. Essas são oportunidades para criar conexões e reforçar que você está presente", finaliza Cleare.