Owen Cooper como Jamie Miller em 'Adolescência'.
Reprodução Netflix
Owen Cooper como Jamie Miller em 'Adolescência'.


Você tem um adolescente em casa que passa mais tempo trancado no quarto, imerso em redes sociais ou jogos, do que com a família? O debate sobre a questão se tornou ainda mais comum entre pais e responsáveis após o lançamento de " Adolescência".

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A produção britânica, lançada em 13 de março, já é a minissérie de maior audiência da  Netflix. Em menos de duas semanas, alcançou 66,3 milhões de visualizações — foram 24 milhões apenas na estreia.

A história gira em torno de Jamie Miller ( Owen Cooper), adolescente de 13 anos acusado de matar uma colega de escola. Ao longo de quatro episódios, os espectadores acompanham a investigação, a dinâmica da interação entre jovens, o impacto familiar e, principalmente, a influência do mundo digital no crime cometido. 

A influência da internet na vida dos adolescentes

Para entender sobre o tema,  iG Delas conversou com a orientadora parental e escritora Anita Cleare, autora de ' Enfurnados: como tirar seu filho adolescente do quarto ', que indica estratégias para ajudar os pais sem precisar recorrer a padrões engessados e autoritários.

Stephen Graham, produtor da série e intérprete do pai do protagonista, teve a ideia da série depois de ouvir no noticiário sobre duas adolescentes que foram assassinadas por homens jovens em poucas semanas
John Nacion
Stephen Graham, produtor da série e intérprete do pai do protagonista, teve a ideia da série depois de ouvir no noticiário sobre duas adolescentes que foram assassinadas por homens jovens em poucas semanas


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E é justamente isso que ela reforça. De acordo com a especialista, os dispositivos digitais exercem um forte magnetismo sobre os jovens, que têm dificuldades em regular o uso de maneira consciente, o que afeta o desenvolvimento deles.

Isso ocorre porque os adolescentes são altamente sensíveis à forma como são percebidos pelos colegas. No ambiente digital, essa resposta é imediata, seja por meio de curtidas, comentários ou outras interações.

"Quando esse feedback é negativo, pode impactar a autoestima dos jovens. No entanto, as redes também podem proporcionar um senso de pertencimento e conexão, o que fortalece a autoconfiança. O efeito, positivo ou negativo, depende do tipo de conteúdo que consomem", explica a britânica.

De qualquer forma, há sinais de alerta que indicam que o uso das redes sociais pode estar sendo prejudicial aos adolescentes. É o caso de alterações no sono e no desempenho escolar e mudanças físicas ou de comportamento.

Pais X internet: aliados ou adversários na educação?

Neste cenário, a função dos pais é balancear a atração pela internet. Mas como fazê-lo? Para Anita, a chave está no equilíbrio entre o apoio familiar, comunicação e regras consistentes sobre o uso da tecnologia.

Anita Cleare, autora de 'Enfurnados: como tirar o seu adolescente a do quarto'.
Divulgação/VR Editora - Latitude
Anita Cleare, autora de 'Enfurnados: como tirar o seu adolescente a do quarto'.


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Isso ajuda os filhos a se desconectarem gradualmente sem a necessidade de proibições rígidas. Afinal, o objetivo é que os adolescentes aprendam a regular sua vida digital de forma saudável, não castigá-los. Algumas estratégias indicadas: 

  • Tente reduzir o uso da tecnologia e criar momentos sem telas no dia a dia;
  • Dê o exemplo desligando o próprio celular;
  • Defina espaços na casa onde não são permitidos dispositivos eletrônicos ou estabeleça horários livres de tecnologia;
  • Também é essencial manter os aparelhos digitais fora dos quartos à noite;
  • Busque atividades offline que seu filho goste e façam juntos.

Outra dúvida comum é sobre a liberdade deles no mundo digital, já que a adolescência é uma fase de transição para a independência. Isso significa que os filhos começam a se afastar dos pais. "É importante respeitar isso, mas sem perder o vínculo", reforça Cleare, que compara a tarefa com ensiná-los a nadar.

No início, precisam de supervisão total com o máximo de precauções. Aos poucos, é possível se afastar um pouco para ver como reagem. Com o tempo, será necessário apenas observá-los enquanto "nadam" sozinhos.  

Com adolescentes mais novos e pré-adolescentes, Cleare recomenda um alto nível de supervisão, como saber as senhas e acompanhar as interações.
Camila Iannicelli
Com adolescentes mais novos e pré-adolescentes, Cleare recomenda um alto nível de supervisão, como saber as senhas e acompanhar as interações.


Porém, vale ressaltar que cada criança tem em seu próprio ritmo. Por isso, só aumente a autonomia quando seu filho estiver preparado e com os meios para pedir ajuda, se necessário: "Vá ajustando os limites aos poucos e mantenha conversas abertas sobre a vida digital", diz a orientadora ao iG Delas.

A chave está na comunicação

Construir uma boa relação com os filhos passa diretamente pela comunicação. E isso também é válido para as redes sociais, assim como acontece com outros assuntos espinhosos, como vida acadêmica ou mesmo sexual. 

Segundo a especialista, muitos adolescentes temem se abrir por achar que os pais não vão entender ou irão reagir exageradamente. "Em vez de impor sua presença, tente abordá-los de forma colaborativa e flexível. O segredo é ouvir mais do que falar. Seja curioso", indica.

Sarah Brito
"Ninguém gosta de conversar com alguém “sabe tudo” e que ensina uma lição de vida a cada diálogo", diz trecho de 'Enfurnados'.


É possível cultivar essa confiança mútua com uma série de atitudes simples, como perguntar mais sobre o ponto de vida deles, demonstrar empatia e curiosidade sobre seus desejos e expertises. 

  1. Se discordar de uma opinião deles, não os corrija de imediato, mas pergunte mais sobre o ponto de vista deles;
  2. Se eles tiverem um problema, não tente resolvê-lo imediatamente, mas demonstre empatia;
  3. Trate-os como especialistas em suas próprias vidas e ajude-os a encontrar soluções;
  4. Se estiverem emocionais, mantenha a calma;
  5. Também pode ser útil abordar certos assuntos de forma indireta, como comentar sobre algo visto na TV ou nas notícias e perguntar o que eles e os amigos pensam sobre isso.

"Continue batendo na porta do quarto e se mostrando disponível. Muitas vezes, os momentos mais valiosos acontecem em pequenas interações, como quando eles estão procurando algo para comer ou pedindo uma carona. Essas são oportunidades para criar conexões e reforçar que você está presente", finaliza Cleare.

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