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Brincar com qualidade ajuda a trabalhar o equilíbrio motor, a cognição, além de questões emocionais, psicoafetivas e sociais. Para isso, os pais precisam reservar um tempo para os filhos e especialistas dão dicas de atividades

Quem é pai sabe que conciliar o trabalho, as tarefas domésticas e a criação dos filhos não é uma tarefa simples. Com a correria do dia a dia, é complicado pensar em brincadeiras que, além de divertir, possam estimular os pequenos. Uma alternativa para mudar isso pode ser apostar em um novo conceito de “ academia ” para crianças – um espaço que propõe atividades físicas lúdicas que auxiliam no desenvolvimento infantil com a participação efetiva dos pais.

Baby Gym é uma espécie de academia focada no desenvolvimento infantil que estimula e ensina e aproxima pais e filhos
William Amorim/iG Delas
Baby Gym é uma espécie de academia focada no desenvolvimento infantil que estimula e ensina e aproxima pais e filhos


Já ficou claro que atualmente as crianças já nascem conectadas, e isso meio que “facilita” a vida dos pais, que geralmente querem que a criança fique entretida para conseguir realizar outras tarefas ou apenas descansar um pouco. O problema é que a criança precisa gastar energia e brincar, pois isso colabora com o desenvolvimento infantil já que trabalha equilíbrio motor e cognição, além de questões emocionais, psicoafetivas e sociais.

“Existem dados da neurociência que indicam o quanto a estimulação precoce é importante. Não é hiperestimular o bebê, é diferente, é estimular com qualidade. Já foi constatado que o cérebro de um bebê na primeira infância [que vai até os seis anos] é como uma esponja que vai absorvendo todas as informações que recebe”, explica a fisioterapeuta especialista em psicomotricidade Lilian Fernanda Chateau ao Delas .

A especialista, que estudou desenvolvimento infantil e trabalha com isso há 16 anos, sabe que os pais não têm tempo para  brincar com qualidade com seus filhos, e isso é preocupante. “Os pais não conseguem sentar e falar: ‘hoje, vamos brincar de tinta’, porque eles sabem que vai sujar a casa inteira e, depois, além de limpar, eles terão de lavar, passar, cozinhar... Dar conta do trabalho e da família é difícil, por isso, acabamos privando nossas crianças”, afirma.

Pensando nisso, Lilian resolveu se juntar com a fonoaudióloga e psicopedagoga Gabriela Frias Padredi, também especialista em desenvolvimento infantil, e abrir a primeira unidade de uma franquia de “academia” para crianças, chamada “Baby Gym”, em São Paulo.

Para que o desenvolvimento infantil aconteça de forma natural e não forçada, tudo é feito no tempo da criança
William Amorim/iG Delas
Para que o desenvolvimento infantil aconteça de forma natural e não forçada, tudo é feito no tempo da criança

“Queríamos um espaço como esse porque sempre trabalhamos em consultórios individualmente com as crianças e sentíamos a necessidade de fazer algo em grupo. Também nos tornamos mães e começamos a notar as dificuldades dos pais”, conta a fisioterapeuta.

A proposta do local é levar os pais a terem um tempo para brincar de forma construtiva com filhos, deixando o celular de lado. A ideia é propor e ensinar atividades que estimulem a criança a gastar energia, brincar, aprender, socializar e se desenvolver. Para isso, em todas as aulas os pais têm uma participação efetiva, algo que é algo proposital.

“A Baby Gym não é um espaço de recreação ou lazer, onde o familiar deixar a criança e fica esperando ou vai fazer outra coisa. Nós profissionais temos o papel de mediar, propondo brinquedos e atividades e mostrando como é possível estimular as crianças. Depois, saímos de cena para que os pais possam interagir com filhos”, diz Lilian.

Geralmente, as crianças fazem duas aulas por semana que duram cerca de 50 minutos cada, mas tudo acontece no tempo deles, nada é imposto. “Os primeiros 25 minutos da aula é o circuito, e os deixamos livres porque não adianta fazer algo ‘militarizado’, no qual eles precisam cumprir as tarefas.

"As crianças precisam do brincar livre, algo que é mais importante nessa idade do que o brincar dirigido. Depois começamos a inserir os estímulos sensoriais”, fala a fisioterapeuta.

Dicas de como trabalhar o desenvolvimento infantil em casa

Como o desenvolvimento infantil pode ser estimulado em casa, os pais tem participação efetiva nas aulas com as crianças
William Amorim/iG Delas
Como o desenvolvimento infantil pode ser estimulado em casa, os pais tem participação efetiva nas aulas com as crianças


Mesmo sendo algo mais livre, participar dessa “academia” cria uma rotina para criança. Todas as aulas são pensadas de acordo com cada faixa etária, e os pais, além de passar esse tempo com filhos, aprendem formas de estimular a criança através de brincadeiras. As especialistas explicam como são divididas as faixas etárias e dão dicas de atividades para fazer em casa:

» Pitocos: de dois a oito meses

“Basicamente, é trabalhado o vínculo materno, pois nessa idade a proximidade com a mãe é muito importante. Estimulamos o tato, o contato físico, os sons, o contato com a face – os bebês gostam disso. São atividades mais curtinhas e sempre no tempo deles, pois, às vezes, os bebês precisam parar, trocar, mamar”, fala Lilian.

Em casa, Gabriela fala que os pais podem usar tecidos, buchinhas e outros objetos diferentes para que os pitocos toquem e sintam diversas texturas. Outra indicação são os brinquedos com variados sons e luzes, pois isso estimula a procura pela via auditiva e visual. Danças (com o bebê no colo), abraços e beijos também são importantes para o desenvolvimento infantil.

» Exploradores: de nove a 18 meses

Como estão aprendendo a andar, os itens espumados (usados para fazer os circuitos) tem uma altura de 10 a 15 cm, Lilian explica que isso é necessário porque o desnível pode ajudar a criança a andar. Nesse grupo, há bebês que engatinham, outros que andam segurando em um apoio e alguns que já aprenderam a andar e começam a superar esses desníveis.

Em casa, os pais podem trabalhar com atividades com desafios motores levando a criança a subidas e descidas, escorregadores e rampinhas, para isso, uma ida a um parquinho pode ajudar ou ser criativo e fazer isso dentro de casa. Outra sugestão é apostar em atividades com tintas usando pincel ou esponja. Brincadeiras com massinhas também são uma boa.

Atividades lúdicas ajudam no desenvolvimento infantil, então as profissionais pensam em estratégias de atrair as crianças
William Amorim/iG Delas
Atividades lúdicas ajudam no desenvolvimento infantil, então as profissionais pensam em estratégias de atrair as crianças


» Artistas: de 19 a 36 meses

Para as crianças dessa faixa etária, a fisioterapeuta fala que os espumados (usados para fazer os circuitos) são mais altos e mais desafiadores para trabalhar o equilíbrio, pois já sabem andar e precisam de desafios. Também há atividades mais cognitivas apresentando formas, cores e tamanhos para os pequenos irem associando.

Em casa, a fonoaudióloga indica compor atividades em que a criança necessite encontrar cores e formas iguais. Para trabalhar as formas, os pais podem brincar de fazer "minhocas" de massinha, alinhavo (que é como uma "costura") com cadarço em uma tampa de isopor que deve ser previamente furada para formar um desenho, e assim por diante.

» Gênios: de três a quatro anos

Nessa idade, já é possível trabalhar com circuitos com função executiva, envolvendo atenção e memória. As atividades feitas para essa faixa etária já preparam a criança para a alfabetização.

Em casa, os pais podem  pensar em atividades que envolvam a questão da criação, e uma sugestão dada por Gabriela é fazer massinhas caseiras com farinha, água, sal e corante. “É uma experiência bárbara, pois nessa fase eles estão percebendo como as coisas se transformam”, acrescenta.

Pais buscam de alternativas para estimular o desenvolvimento infantil

Para trabalhar o desenvolvimento infantil de forma geral, são propostas para as crianças atividades físicas e cognitivas
William Amorim/iG Delas
Para trabalhar o desenvolvimento infantil de forma geral, são propostas para as crianças atividades físicas e cognitivas

A analista de sistemas Daniela Lenharo, de 39 anos, é mãe do Matheus, de um ano e meio, e em uma pesquisa na internet conheceu a Baby Gym. Ela foi conhecer o espaço, fez uma aula experimental e matriculou seu pequeno. “Meu filho está no processo de começar a andar e, agora, ele deu uma soltada. Eu não sei dizer ainda se isso está atribuído a essas atividades porque é algo novo, mas acredito que ajudou sim”, afirma a mãe.

Daniela estava em busca de algo que ajudasse no desenvolvimento infantil e, depois que o Matheus começou nessa “academia kids”, ela passou a deixar o menino menos tempo em frente à televisão e mais tempo livre para brincar. “Esse tipo de atividade é diferente do que podemos oferecer em casa, até na questão do espaço. Aqui, as profissionais têm métodos e materiais diferentes e dá para a gente pegar as ideias e adaptar em casa.”

O filho da analista de sistemas ainda fez poucas aulas no espaço recém inaugurado no Tatuapé, zona Leste de São Paulo, mas ela já notou uma melhora no sono dele. “Nas duas últimas noites, ele dormiu melhor, não acordou nenhuma vez, espero que seja um resultado e que se prolongue por muito tempo”, diz a mãe aos risos.

O analista de sistemas Diogenes Dorete, de 38 anos, também conheceu o espaço de desenvolvimento infantil pela internet ao procurar algum tipo de circuito para a filha Gabrielle, de um ano e nove meses, que possui um atraso motor. “O legal é que aqui ela pode socializar com outras crianças, minha filha fica muito no celular, temos até que esconder dela e isso pode ajudar ela a se soltar mais”, conta o pai.

Diogenes buscou uma alternativa para estimular o desenvolvimento infantil da filha Gabrielle, que tem atraso motor
William Amorim/iG Delas
Diogenes buscou uma alternativa para estimular o desenvolvimento infantil da filha Gabrielle, que tem atraso motor


Lilian explica que a Baby Gym estimula o desenvolvimento infantil, mas também dá apoio aos pais que muitas vezes só tem o pediatra para tirar dúvidas. “Como é um trabalho em grupo, é muito comum os pais começarem a comparar seus filhos com outras crianças porque é muito aflitivo quando um pai vê uma proposta de atividade que todo mundo está fazendo, saber que seu filho tem capacidade para fazer aquilo, mas ele não quer.”

Esse tipo de situação é comum, ainda mais porque as crianças não são obrigadas a nada durante a aula, mas a fisioterapeuta ressalta que todas as pessoas têm dias bons e dias ruins, e as crianças também. “A cobrança nas crianças é muito grande, isso é ruim para elas e também gera ansiedade nos pais. Aqui é um espaço diferente, lúdico, tem pessoas diferentes falando, então os pequenos precisam de um tempo para se ambientar.”

Para estimular o desenvolvimento infantil , é importante brincar com os filhos e tornar esse momento prazeroso para todos, mas na prática não é tão simples, por isso, ter um auxílio como esse pode ajudar muito. “Na escolinha, a criança faz muitas coisas, mas sem os pais, então esse espaço vem para ensinar a olhar o bebê de forma diferente. Como mãe, sei que nenhuma criança vem com manual, e criar um filho é um desafio diário para os pais”, conclui Lilian.   

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