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Atualmente, não é difícil encontrar pessoas que falam sem medo sobre seu desgosto por crianças, e as mães pedem por mais empatia pelos pequenos

A dona de casa Anna Rebeca Albuquerque, de 42 anos, planejava uma viagem em família quando ouviu do hotel que pensava em se hospedar que, ali, não eram aceitas crianças . Mãe de quatro filhos, não seria esse o estabelecimento a recebê-la.

Choro, birra e bagunça das crianças é o principal motivo de algumas pessoas dizerem que não as querem nem perto
Pixabay
Choro, birra e bagunça das crianças é o principal motivo de algumas pessoas dizerem que não as querem nem perto

O que Anna passou está sendo sentido por diferentes mães nos últimos anos, e não apenas quando o assunto é encontrar um hotel. Hoje, há restaurantes que também não aceitam crianças e adolescentes de determinadas idade s , e também cresce o número de pessoas que não veem problema em dizer abertamente que odeiam crianças por perto.

Existem até páginas nas redes sociais que reúnem pessoas que não querem nem se ver perto dos pequenos seres humanos, seja pelo barulho ou pela bagunça que eles podem fazer ou pelo fato dessas pessoas mesmo não saberem se portar perto dos pequenos. Mas e para as mães, como é criar um filho em um mundo que está cada vez menos paciente com nossos filhos?

Revolta

A designer de moda e estudante de administração Anabel Martins, de 25 anos, já usou sua rede social para criticar as pessoas que acham que tudo bem falar que odeiam criança. Para ela, estas pessoas se esquecem que já foram pequenos um dia e também se esquecem que cada criança é também um ser humano.

A jovem, mãe de um menino de quatro anos, acredita que falta entender um pouco o lado do outro. “Criança chora, grita, e as pessoas têm de ter empatia. Elas não sabem lidar com os próprios sentimentos ainda, estão aprendendo, e para aprender precisam conviver com outras pessoas [de idades diferentes].”

Ela conta que muitas pessoas que a veem na rua com o filho comentam que o menino é muito bonzinho, mas a própria mãe afirma que não é bem assim. Se em um dia ele está um verdadeiro anjinho, no outro, pode ser que algo o incomode e ele faça, sim, os escândalos que tanta gente critica.

Outro assunto polêmico, segundo Anabel, é de quem é a responsabilidade sobre educar uma criança. “Educação vem de casa, eu concordo, mas a escola tem seu papel de ajudar, assim como o resto da sociedade. As pessoas não enxergam essa função que têm.”

Vale lembrar que as crianças são os melhores observadores e repetem muitas das coisas que veem nas ruas também, independentemente se conhece a pessoa que está vendo ou não.

Papel dos pais

Anabel e o filho, Lorenzo – o pequeno, apesar de bonzinho na maior parte do tempo, também tem seus dias difíceis
Arquivo pessoal
Anabel e o filho, Lorenzo – o pequeno, apesar de bonzinho na maior parte do tempo, também tem seus dias difíceis

Muitas das pessoas que concordam com o fato dos empreendimentos ou eventos negarem a presença de crianças afirmam que isso é pensar no bem estar da criança também. Mas será que este já não seria o papel de um pai ou de uma mãe? Para Anabel, os pais devem, sim, ter consciência de onde podem levar ou não o filho.

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“Tenho uma amiga que comemorou o aniversário dela em um bar. Claro que eu gostaria da presença do meu marido comigo, mas eu não levaria o meu filho. Então meu marido disse que ficaria com ele para eu aproveitar a festa, e eu fui.”

Anna conta que os pais também devem pensar na hora dos eventos. Ela sabe que, se for em uma festa que vai passar das 23h, os filhos menores vão ficar com sono, já que é uma hora em que eles já estariam dormindo.  Entretanto, ela reforça a importância da convivência das crianças com os adultos.

“Acho importante para você educar o seu filho. Em público, ele vai precisar respeitar algumas regras. Terá de ficar quieto, não poderá sair correndo ou gritando. É importante ter o contato com outras pessoas para desenvolver o respeito também. Claro que, hoje, muitas crianças estão sendo criadas de uma forma em que acham que podem fazer tudo, mas nós somos pais, e a gente tem de educar.”

Um ponto a ser considerado é que nem sempre é possível deixar os filhos com alguém. No caso de Anna, que é carioca, mas mora em São Paulo, toda sua família continua no Rio de Janeiro. Não dá para simplesmente pedir uma ajudinha dos avós ou tios, por exemplo, e sair para um jantar romântico com o marido. Além disso, ela não gosta de deixar os filhos com outras pessoas.

Pais convidados, filhos não

Há também os casamentos que estão surgindo em que os pais são convidados, mas os filhos não. Anna não vê problema nisso, já que é o dia dos noivos e são eles que estão pagando pelo evento. Entretanto, a festa, com certeza, teria alguns convidados a menos.

Tanto Anna quanto Anabel afirmam que não iriam a uma festa com esse tipo de restrição. Primeiro porque não teria com quem deixar os filhos, e segundo porque, se os pequenos não são bem vindos, elas também não se sentem bem-vindas. As duas mães também são muito ligadas aos filhos e acham difícil essa separação.

O outro lado

Além de mãe, Anna já foi professora de educação infantil. Ela conhece bem a realidade das crianças e concorda que não é fácil para algumas pessoas ter contato com os pequenos justamente quando algo mais tranquilo, como um jantar, foi planejado.

“Entendo as pessoas quererem ficar sossegadas, aí vem aquela família com quatro crianças [como a de Anna mesmo]. Deve ser incômodo. Esses dias mesmo, fui em um restaurante com parquinho e tinha um monte de criança. Gente, que coisa enlouquecedora, mas eu não vou virar a cara.”

Anna tem quatro filhos, de idades bem diferentes, então sabe como é conviver de perto com crianças
Arquivo pessoal
Anna tem quatro filhos, de idades bem diferentes, então sabe como é conviver de perto com crianças

Ela conta também que sempre teve o costume de levar os filhos, de idades diferentes, ao cinema. E reconhece que esse é mais um assunto polêmico. Anna fala que os mais velhos querem assistir os filmes de heróis, que não fazem sucesso apenas com os fãs mirins, mas adultos também. Não é por isso que ela vai deixar a pequena sozinha.

“Desde os quatro meses ela vai no cinema comigo, e os outros foram também. Ela já chorou? Sim. Mas quando começava, eu saia da sala, a acalmava, às vezes fazia dormir, e aí voltava. Hoje, com dez meses, não chora mais. Mas é treino, educação. E os pais tem de ter controle, não podem ficar desesperados. Se a criança fica berrando, e os pais não fazem nada, nada foi ensinado.”

Da mesma forma que deve haver empatia com os pais e filhos, Anna também acredita que os pais devam entender o lado das outras pessoas. No caso de um cinema, por exemplo, silêncio é quase algo sagrado. “Viver em sociedade é ter equilíbrio, tentar entender o lado dos outros”

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Mas sabe o hotel que não aceita crianças? Aquele que Anna ligou tentando reservar para a viagem com família? Bem, mesmo entendendo a posição do empreendimento, a mãe afirma que jamais iria no hotel, mesmo para uma viagem apenas com o marido. Uma dica para os empresários: nunca chateie uma mãe indo contra seus filhos.