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Se interessar por namorar é natural, mas tem idade para acontecer; mães ponderam a respeito e psicoterapeuta infantil explica etapas desse processo

Um pesadelo de muitos pais e mães é o primeiro namoradinho ou primeira namoradinha do filho ou filha. Apesar de ser um receio comum, não é um bicho de sete cabeças e faz parte do processo de crescimento e amadurecimento das crianças. O importante é não deixar esse medo impedir de conversar com os pequenos sobre relacionamentos, o que é essencial para garantir que eles cheguem ao primeiro namoro de forma natural e saudável.

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As crianças devem começar sentir interesse e ter o primeiro namoro a partir dos 10, 12 anos, segundo especialista
Shutterstock
As crianças devem começar sentir interesse e ter o primeiro namoro a partir dos 10, 12 anos, segundo especialista


Para a mãe Érica Serni, profissional autônoma, a questão de deixar que o filho de quatro anos, Cauã, chegue naturalmente a essa etapa é muito importante. Ela acredita que a sociedade estimula, principalmente nos meninos, um amadurecimento muito precoce para que comecem a se interessar desde cedo por mulheres, especificamente, e tenham o primeiro namoro .

“Primeiro que acho que uma idade saudável para começar a namorar seria depois dos 15 ou 18 anos, porque é quando a gente começa a ter um pouco mais de noção e discernimento do que queremos. Mas tem outra coisa. Precisa acabar esse estereótipo do ‘menino pegador,’ e a gente precisa entender que têm meninos que vão gostar de outros meninos, não necessariamente de meninas. Por isso que com o Cauã foco no primeiro relacionamento dele, não na primeira namorada, necessariamente”, argumenta.

A mãe ressalta ainda a necessidade de as crianças poderem viver a infância, com interesses de criança antes de começarem a pensar em namorar. "Quando essa criança começar a crescer, ela sozinha, e se tiver uma base familiar em volta que a apoie, vai desenvolver esse interesse", pontua.

Com a gerente comercial Ariane Silva, mãe da Ana Beatriz, de 11 anos, e da Eloá, de nove meses, a questão do namoro infantil já está muito presente. Sua mais velha já deu até um “selinho”. “Eu quase infartei quando ela me contou”, revela a mãe.

Mesmo com o susto, ela não determina uma idade certa para que Ana Beatriz comece a namorar. “Ela que decide, desde que o namorado ou namorada tenha a mesma faixa etária”.

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A psicoterapeuta infantil Paloma Vilhena explica que, apesar de cada criança ter uma maturidade e ritmo diferentes, é a partir dos dez ou 12 anos que começam a surgir aos poucos o interesse natural por namorar, “motivado também pelo desenvolvimento fisico/hormonal que se inicia na adolescência”.

“As crianças mesmo não têm capacidade de entender o que é um namoro. Elas precisam brincar, ter amizades, imaginar e fazer coisas que fazem parte do universo infantil: descobertas naturais sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. As aproximações e demonstrações de afeto entre crianças são apenas descobertas. Os adultos que acabam erotizando esse comportamento e com isso podem contribuir para a sexualização infantil", alerta.

Ela afirma também que, quando chegar a idade, os pais não devem nem proibir, nem incentivar namoros, mas apenas acolher as dúvidas e experiências para orientar os filhos e colocar limites, se necessário.

Seja aliado do seu filho

Érica, mãe de Cauã, de 4 anos, diz querer que o filho aproveite a infância, fazendo coisas de criança, antes de começar a pensar em namorar
Acervo pessoal
Érica, mãe de Cauã, de 4 anos, diz querer que o filho aproveite a infância, fazendo coisas de criança, antes de começar a pensar em namorar


Falar sobre relacionamentos é especialmente importante para saber orientar e ajudar os filhos quando necessário. É também o que garante que as crianças entendam o que é adequado em seus "namoricos", saibam diferenciar abusos e faz com que elas entendam que podem confiar nos pais, que devem, sim, ficar de olho nesse primeiro momento.

“Cedo ou tarde, a criança vai se deparar com nudez,demonstrações de afeto e sexualidade. Pode-se conversar com elas nas pequenas situações do cotidiano, isso é educação sexual. Com as crianças pequenas, é possível conversar sobre cuidados com o corpo, nudez, privacidade, e, conforme forem crescendo, é possível falar sobre relacionamentos e sexualidade", explica Paloma, que reforça que esses temas devem ser abordados ainda que os pais fiquem sem jeito ou não saibam muito bem como abordá-los com os filhos.  

"É uma forma de prevenir vários problemas. Além de ser sempre possível retomar o assunto em outros momentos quando acontecer uma situação pontual, ou quando não souber responder algo na hora. O importante é sempre deixar esse canal de comunicação, informação e aprendizado aberto.”

Érica diz que ainda não teve essa conversa sobre relacionamentos com o filho porque ainda não surgiu nenhuma situação em que ela achasse necessário falar sobre isso. Por outro lado, ela acha importante conversar sobre. 'Gostaria de poder ter uma relação aberta com ele, em que ele pudesse me contar tudo e eu pudesse passar para ele o que eu sei”.

Ela diz também não estar completamente preparada para o primeiro namoro de Cauã, mas quer apenas apoiá-lo para que ele seja feliz da forma que escolher. Ariane partilha dessa mesma opinião, mas confessa que vai sentir ciúmes da filha quando chegar o momento.

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“Acho que vou morrer de ciúmes e calada, porém, ela é meu amor e, como ela diz, eu sou a melhor amiga dela. Desde que ela seja feliz, eu também ficarei feliz”, conta Ariane, que já conversa sobre relacionamentos com a filha, visto que ela mesma não teve esse tipo de apoio dos pais, contando apenas com amigas mais velhas, e, por falta de auxílio e informação, acabou engravidando aos 14 anos.

“Eu sempre converso, acho importante também para que ela não entre em relacionamentos abusivos e para que ela não se torne abusiva, além de ajudá-la a entender caso sofra algum tipo de abuso. A conversa nos previne do sofrimento”, defende.

Ariane diz não acreditar em uma idade certa para a filha começar a namorar, mas exige que o outro tenha a mesma idade
Acervo pessoal
Ariane diz não acreditar em uma idade certa para a filha começar a namorar, mas exige que o outro tenha a mesma idade


Paloma reforça a questão de explicar para as crianças a diferença entre carícias e abusos, até entre adolescentes. Nesse momento, é importante os pais ficarem de olho na diferença de idade que pode haver entre o filho e quem quer que esteja se relacionando com ele, pois existem descobertas próprias de cada idade.

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“É importante orientar tanto os meninos quanto as meninas sobre respeitar o próprio tempo e espaço, assim como respeitarem o do outro, falando também sobre consentimento, especialmente quando for surgindo o primeiro namoro . A sexualidade se inicia na infância com a descoberta do corpo. Para que ela seja saudável, é importante ter respeito, carinho, autocuidado, proteção e prazer. Caso isso não esteja acontecendo, é um sinal de alerta para os pais conversarem com os filhos.”