Samantha aos 24 anos e agor, após vencer a luta contra o câncer
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Samantha aos 24 anos e agor, após vencer a luta contra o câncer

Buscando uma melhoria na qualidade de vida, a chef Samantha Laurindo se mudou do Espírito Santo para Búzios, no Rio de Janeiro. Seis anos após chegar em terras fluminenses, a capixaba foi diagnosticada com um  câncer no ovário. No começo, os médicos não contaram para a paciente o seu verdadeiro laudo, deixando Samantha no escuro sobre o que seria a causa de suas  dores e inchaço abdominal.

Internada e desacreditada pelos médicos, a chef chegou a escutar que seria ‘deixada para morrer’. Após ser buscada por familiares, Samantha se recuperou do câncer. Ela encontrou dificuldade para se reestabelecer no mercado de trabalho, devido sua aparência pós quimioterapia e foi fazendo bicos que se apaixonou pela gastronomia. A volta por cima veio e hoje ela é dona de um buffet e bistrô de luxo, no Rio de Janeiro, além de ajudar pessoas que descobrem estar com  câncer. Conheça a história de Samantha exclusivamente para o iG Delas:

"Eu morava no interior do Espírito Santo e vim para Búzios para poder tentar a vida aqui. Lá eu era bancária, e quando terminou meu contrato eu me vi sem trabalho, sem ter o que fazer e vim pra cá através de uma amiga que já morava aqui na cidade. Quando eu cheguei em Búzios, eu trabalhei em várias coisas. Eu trabalhei em loja, comércio, fiz várias coisas. 

Depois de seis anos que eu já morava em Búzios, eu comecei a sentir umas dores durante a relação sexua, comecei a ficar também um pouco inchada, meu abdômen um pouco estendido, e aí as pessoas começavam a falar que eu estava grávida, que eu podia estar grávida. Só que eu sabia que eu não estava grávida porque tinha dois, três meses que eu não tinha relação sexual com meu marido porque eu sentia muita dor."



"Por alguns momentos também meu próprio marido começou a questionar muito isso porque homem tem essa coisa do machismo, de você dizer não. A gente começou a ficar preocupado também, de que tinha alguma coisa de errado. Depois de um certo momento eu comecei a sentir dor fora da relação sexual e a barriga começou a ficar muito inchada. 

Fiz exames e eu fui procurar o médico nesse dia. Quando chegou lá, o médico olhou meu exame e aí ele falou para mim que eu não deveria estar andando, porque eu tinha uma massa muito volumosa. Ele já tinha visto ali que era um câncer, que era uma coisa bem grave assim, mas ele não quis falar nesse dia, eu fui sozinha.

Voltei pra casa, me arrumei, organizei minhas coisas, só que eu não tinha muita noção da gravidade das coisas. Fiquei em casa, fiz meu cabelo, fiz minha unha e só voltei a noite para o hospital para me internar. Imagina que se eu soubesse que era um câncer, que era uma coisa tão grave eu ia me preocupar de fazer cabelo, fazer unha, sei lá.

Durante 15 dias eu fiquei internada no hospital de Búzios e nesse tempo sem saber o que eu tinha. Era um tumor muito grande, já em estágio avançado, não tinha muito recurso e eu também não tinha muita condição financeira. Eles sabiam disso e eles ficaram quietos. Depois que passou eu fiquei sabendo que eles iam me deixar morrer, porque eu não tinha familiar por perto, não tinha dinheiro pra sair daquele hospital. Sendo que, na verdade, eu fiquei o tempo todo me guardando, ligando pra minha família e falando ‘eu tenho uma doença ginecológica, um mioma, vai ficar tudo bem’. Por isso eles não vieram me pegar. 

Comecei a ver os médicos cochichando, as enfermeiras… tinha enfermeira que falava para mim: ‘você tem fé? Se tem, faz uma oração pra você sair daqui e ficar bem’. Esses 15 dias foram longos. Eu tinha o abdômen muito inchado e os braços e pernas muito inchadas, já não ficava bem nem deitada, nem sentada, nem ajoelhada por causa da distensão do abdômen, que tinha muito líquido.

Um dia eu vi um médico falar que eu tinha ascite. Foi aí que a chave virou. Quando esse médico falou, foi quando eu liguei para uma amiga minha, minha comadre que fazia medicina. Eu falei: ‘olha, o médico falou se eu tenho ascite’. Quando eu falei ascite, ela se ligou que é um líquido que dá, que o tumor produz e é um líquido que mostra que você está em estágio muito grave assim. 

Ela falou para minha mãe e ela veio e me pegou no hospital. Era um caso tão grave que os médicos mandaram todos os meus documentos para o hospital, pela minha mãe, até as observações deles. Nos documentos que a médica mandou estava escrito que era uma corrida contra o tempo. Fui enviada pra um hospital no meu estado natal.

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Os primeiros médicos a tratarem Samantha não informaram sobre o câncer
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De volta a cidade natal

Na minha cidade eu sempre fui muito querida porque eu trabalhava em banco. Eu sempre tive um lado social muito aflorado em mim e no banco recebia muito idoso. Eu sempre me dei muito bem com essas pessoas e com a cidade inteira porque é pequena, todos se conhecem. Antes de descobrir o câncer, eu tinha acabado de ir na minha cidade e a notícia correu. ‘Ai, Samantha, a filha de fulano está muito mal, está com câncer, está chegando aqui pra morrer na cidade dela’. Quando eu cheguei no hospital eu via cidade inteira, minha família inteira. Eu vi meus amigos de infância, todo mundo lá querendo me ver pela última vez.

Eles sabiam que eu estava chegando mal, que talvez não me veriam depois. E eu olhava aquela multidão de gente e eu falava: ‘gente, mas eu só tenho uma doencinha ginecológica, só tenho mioma. Por que está todo mundo?’. Minhas amigas de infância, minhas melhores amigas chorando. Eu achava que era só um exagero de uma cidade pequena. Isso em São José do Calçado, que é a minha cidade.  Eu fiquei lá três dias até conseguir vaga no hospital que é em Cachoeiro de Itapemirim que é um hospital de referência.

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No dia que saiu a vaga, eu fui pro hospital de referência. Logo quando eu cheguei lá eles tiraram oito litros de líquido da minha barriga e eu fiquei no setor de oncologia, mas ninguém tinha me falado nada ainda que era um câncer. Em um determinado momento eu fui ao banheiro e vi na porta do quarto escrito oncologia, e comecei a me perguntar por que eu estava lá. Foi quando a médica que me atendia me falou que eu tinha um câncer, que era uma doença que já estava muito avançada e que eles iam fazer de tudo para tentar salvar a minha vida, mas que era um caso que pela medicina era muito difícil.

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Eu fiz uma cirurgia, fui para casa um determinado período e começou a sair um líquido, tive que começar a usar fralda. Quando eu comecei a fazer as quimioterapias, parou de sair esse líquido e eu tinha múltiplos nódulos. Cada vez que eu fazia quimioterapia, qeu ia para as consultas e um desses nódulos tinha sumido. Nesse processo as pessoas começavam a me chamar quando eu estava bem para visitar outras pessoas. Pessoas que estavam com câncer, porque eu virei uma inspiração.

Eu acho que dentro desse momento o mais importante é a questão que Deus faz todas as coisas. Ele pode todas as coisas e o câncer ele é uma doença muito espiritual. Ele te conecta com o seu espiritual, te conecta com Deus, te conecta com o seu próprio corpo de você respeitar o seu tempo.

Fiz um ano de quimioterapia, um ano muito sofrido, muito dolorido, porque meu marido ficou em Búzios, eu fiquei lá, foi um período bem difícil. Eu fiz histerectomia total, então ainda tive esse processo de não poder ter filho. Não podia ter filho aos vinte e quatro anos, e eu com meu marido, foi meu primeiro namorado, a gente queria ter um filho e teve um momento que a gente decidiu que não ia ter, mas quando eu descobri que eu não podia ter, isso mexeu muito comigo. Foi um processo muito difícil, mas que eu tive muita fé que ia dar certo e eu encarei o câncer como se fosse um momento meu com Deus, um momento meu comigo mesma."

A chef agora é dona de um buffet e bistrô de luxo
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A chef agora é dona de um buffet e bistrô de luxo


A volta por cima 

"Quando eu terminei a quimioterapia, com 15 dias o INSS me negou o benefício. Logo quando isso aconteceu, uma amiga que sabia que eu precisava de dinheiro me ligou e falou: 'olha tem um ‘extra’ para fazer numa casa para 15, 20 pessoas pra cozinhar. Você quer?’. E eu não sabia fazer um arroz. Eu fui, levei a comida. Pensei: ‘se der errado ,eu jogo tudo fora’. Eu tinha um dinheirinho, compro outro e faço outro prato. Eles adoraram o prato e começaram a me indicar pra outras pessoas nesse condomínio. 

Por ser um condomínio de gente muito bacana, de alto poder aquisitivo, eu fui traçando esse público. Fui vendo que era pra eles que eu queria trabalhar. Fui me especializar e fazer gastronomia. Quando eu fui cozinhar para essas pessoas eu não tinha cabelo, não tinha sobrancelha, ainda estava muito debilitada, mas eu ia. Eu sempre fui muito grata, sempre fui uma pessoa que sempre corri muito atrás, sempre acreditei muito em mim assim, sabe? E sempre acreditei que se eu tivesse fé, que se eu determinasse que Deus ia fazer alguma coisa, aquela coisa ia acontecer. 

Comecei a estudar, me formei em gastronomia em uma escola pública federal e comecei a cozinhar  para 20, 30, 40 pessoas e as coisas foram acontecendo. Dentro de muito que eu fiz, sempre tinha alguém que teve um câncer que se identificava com a minha história, um familiar, alguém que estava passando que pedia pra eu fazer chamada de vídeo. ‘Olha aqui a chefe que está fazendo o nosso buffet, teve câncer, está super bem’. A minha história é muito viva. 

Dentro disso aconteceu o meu projeto social que ajuda mulheres com câncer, tem acesso rápido e eficaz ao tratamento ou diagnóstico precoce, porque o diagnóstico precoce é muito importante, salva muitas vidas. No outubro rosa a gente doa mamografias com ajuda de empresários, ajuda de pessoas anônimas que se identificam com a minha história, se identificam com a minha causa, então tem ajudado muitas pessoas porque eu virei essa referência. 

Nasceu o projeto que chama ‘Abraçando Mulheres’. Ele ficou mais focado nos nossos eventos, dos encontro com essas mulheres, mas ele não deixou de ajudar as pessoas porque muitas ficaram resguardadas em casa durante a pandemia, com medo do vírus e um tumor simplesmente crescendo. Quando foi ver, não sabia pra que lado ir e através do projeto a gente conseguiu intervir, conseguiu ajuda para essas pessoas. Eu falo mulheres, mas é um grupo. São pessoas no geral, homens, mulheres, crianças, mas a gente atende mais mulheres. 

Hoje tem 11 anos que eu venci e 11 anos que eu estou nessa luta com essas pessoas. A médica que me tratou se tornou uma amiga pessoal, a gente troca figurinha, me ajuda no projeto, aí é palestrante do projeto, me ajuda com os pacientes. É essa a minha história, essa sou eu."

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