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"Faculdade muito exigente", estagiária é demitida sem nenhum aviso prévio





Sou aluna do quinto ano de Arquitetura e Urbanismo da USP e comecei a estagiar em uma empresa de engenharia que faz reformas de alto padrão. Há dois meses e meio, fui demitida sem nenhum aviso prévio, sob a justificativa que a minha faculdade era muito exigente e eu não tinha me adaptado à cultura da empresa.

Documentação

A empresa desde o início foi muito resistente em assinar os meus papéis do estágio, sendo que a minha faculdade tinha prazo para recebê-los.Quando eu pedi os documentos, eles falaram que não tinham tempo, que tinham outras prioridades acima das minhas e que ninguém iria parar 50 minutos para atender a minha demanda. 

Precisei falar com várias pessoas todos os dias até conseguir os papéis, que vieram pela metade, pois faltou o seguro de vida. Nisso, eles disseram que eu precisaria que me virar pra fazer o seguro e eles só fariam o reembolso. Minha faculdade pediu uma justificativa da empresa sobre o atraso dos documentos.

A empresa justificou, mas minha faculdade foi bem dura com eles, dizendo que sem a documentação do estágio poderia se caracterizar como vínculo empregatício. Eles deveriam me contratar como CLT ou poderiam ser multados pela falta de documentação. Depois disso, essa pessoa da empresa me enviou um e-mail enorme, dizendo que minhas exigências não estavam sendo nada saudáveis e que ali na empresa todos deveriam compreender as necessidades uns dos outros, pois "todos ali eram uma família".

Não respondi. Acredito que esse tenha sido o fator principal da demissão, pois eles alegaram que a minha faculdade era exigente demais. 


Mão de obra barata

Quando cheguei na obra a engenheira residente tinha acabado de sair, então me colocaram no lugar dela trabalhando oito horas por dia. Logo em seguida, o mestre de obras também saiu da empresa. Recentemente, contrataram outro mestre de obras e um engenheiro residente. Agora eles disseram que estão reduzindo o quadro de funcionários, começando pelos estagiários. 

Dores nas costas

Outro fato que atenuou a tensão foi o fato de eu não querer levar computador todos os dias, pois não era necessário e eu estava sentindo muita dor nas costas por esse motivo. Eu até comprei outra mochila pra ver se diminuía a dor, mas não adiantou. Meu coordenador disse que todo mundo ali já tinha sido estagiário e tiveram que levar computador. Apesar de eu não ter carro naquele momento, eu deveria levar assim mesmo, independente da minha dor nas costas.

A empresa não se esforçava para fazer um simples seguro de vida e muito menos haveria de providenciar um plano de saúde para me assegurar de problemas na coluna, de forma que eu disse que levaria o computador duas vezes na semana (o que supria todas as necessidades de usar o Excel)".

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Compra de insumos para obra

Desde que eu entrei na empresa não havia bebedouro na obra, então toda semana eu tinha que comprar 2 galões de água e outras coisas para obra com o meu dinheiro e depois pedir reembolso.

Eles faziam o reembolso, mas pra mim tornava-se difícil me organizar financeiramente com um salário de estagiária, sabendo que eu tinha que gastar aproximadamente 300 reais por mês só com a empresa. Desde que eu fui contratada, sugeri outras possibilidades para resolver o problema, mas ninguém me respondia.

Semana passada, fui falar com o pessoal do financeiro novamente sobre isso e fiquei esperando a resposta, que não veio. Nesse meio tempo, a água da obra estava acabando. Meu supervisor chegou falando alto, dizendo que eu não podia deixar faltar água na obra. Eu disse que estava buscando uma solução, mas ele afirmou que eu deveria comprar a água (com meu dinheiro) e pronto.

Hierarquia

No meu último dia de trabalho o engenheiro coordenador se reuniu comigo, com o engenheiro residente e o mestre de obras me repreendendo, dizendo que a empresa tem hierarquia. Se meu superior dissesse para eu fazer alguma coisa eu deveria acatar, ainda que não houvesse tipo nenhum tipo de acordo ou negociação de que eu seria a responsável por fazer aquilo.

Depois disso, o coordenador falou para o engenheiro residente se tornar o responsável pelas compras da obra e fazer um pedido formal de compra de
bebedouro (o que foi uma atitude inédita feita só depois do meu posicionamento). 

Mesmo eu procurando ser atenta e prestativa, estagiando por oito horas diárias, o coordenador (que deveria ser o meu supervisor e meu orientador no processo de aprendizado) não dialogava comigo, apenas me cobrava querendo saber se eu estava por dentro da obra, dos prazos, se eu sabia o cronograma de cor.

No entanto, não havia data definida para as demandas que ele me perguntava e o cronograma havia perdido a validade. Ou seja, ele ficava me testando e me colocando em situações que me deixavam insegura o tempo todo. 

Demissão

No mesmo dia que recebi essa advertência, a pessoa encarregada pelo RH
disse pra eu ir no escritório no dia seguinte. O que vale comentar aqui, é que eu já não via nenhuma perspectiva de crescimento dentro dessa empresa e já estava procurando outros estágios. Porém, o meu contrato era de seis
meses e eu não queria quebrá-lo, pois não desejava deixar a empresa na mão.

Nesse meio tempo, eu estava assistindo alguns vídeos sobre a formação de construtoras. Em um deles é dito que o escritório é o local onde se admite e onde se demite. Por isso, já fiquei imaginando qual era o motivo de ter sido chamada no escritório. 

Finalmente, fui ao escritório e a pessoa do RH disse que a minha faculdade é muito exigente, que eu não estou me adaptando à cultura da empresa e me dispensou sem explicações ou aviso prévio. Eu questionei que tipo de exigências eram essas e ela comentou sobre a documentação do estágio. Eu disse que o que minha faculdade estava solicitando era o mínimo que toda faculdade solicita, e o que ela fez estava respaldado pela lei.

Ela disse que por esse motivo ela estaria demitindo todos os estagiários já que a empresa não estava adequada à lei, mas o meu caso foi onde houve maior exigência. Moral da história: eu não queria deixar a empresa na mão e quem foi deixada na mão fui eu. 

"Somos uma família"

Algo que sempre me incomodou foi o fato de empresas usarem o jargão 'somos uma família'. Nunca acreditei nisso. Infelizmente essa era uma fala muito presente no cotidiano dessa empresa. Acho desnecessário e até falso esse tipo de fala, no fundo parece que a empresa quer fazer um apelo emocional e fazer o empregado trabalhar de forma passional.

Encaminhamentos

Ao relatar a minha história para diversos profissionais, eles falaram muito em expor o nome da empresa e processá-la. Confesso que no fundo era o que eu queria fazer, mas de uma forma mais ponderada. Procurei a minha faculdade e um advogado para relatar o caso e ambos disseram que a lei do estágio é branda e não protege o estudante de nenhuma forma.

No caso de estágio obrigatório, como era o meu, pela lei a empresa não é obrigada nem a pagar salário e nem a dar aviso prévio para demissão. Ou seja, legalmente não há nada que possa ser feito.

Possibilidades

Penso em falar com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e com demais entidades da classe, em busca de um posicionamento sobre esse tipo de situação enfrentada por tantos outros estagiários e até mesmo profissionais formados".

Também cogito realizar uma avaliação ruim da empresa no Google e fazer uma reclamação dela no site Reclame Aqui. Essa foi a possibilidade que vislumbrei, pois ao menos isso pode impactar na imagem deles na internet e alertar outros estagiários e até funcionários sobre otipo de postura que a empresa possui. 

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