O debate sobre a síndrome de borderline vem ganhando atenção por causa da  participação da modelo Raissa Barbosa no reality show A Fazenda 12 , que é diagnosticada com o transtorno. Segundo a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), mulheres são 75% do quadro de pacientes desta doença, que combina sintomas de depressão, ansiedade e transtorno de bipolaridade. 

Por unir traços de diversos transtornos, a síndrome de borderline é de difícil diagnóstico e pode levar anos até que seja identificada por um médico. Foi o que aconteceu com Gabriela Carvalho (23), diagnosticada com depressão aos 15 anos e há dois anos identificada com a síndrome de borderline. 


mulher de cabeça baixa
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Síndrome de Borderline acomete, em sua maioria, mulheres



O transtorno em Gabriela foi agravado por diversos fatores da vida, como um relacionamento abusivo, a perda do emprego e a morte dos avós, dos quais ela era muito próxima. Isso acarretou em 10 tentativas de suicídio e surtos em que ela afirma não ter tido controle sobre todos os seus atos.

Em entrevista ao iG Delas, Gabriela explica que outro traço que marca fortemente a Síndrome de Borderline é a impulsividade. “Você age sem pensar. Tive épocas em que eu saía a semana inteira, começava os rolês na quarta ou na quinta. Bebia demais, fazia  sexo com qualquer um, na maioria das vezes se proteção”, conta. 

Ela afirma que essas ações são feitas inconscientemente e que a pessoa não tem controle de parar o que está fazendo. “Me arrependi muito. Depois que parava para analisar, começava a me culpar e me martirizar, pensar nas pessoas ao meu redor. Pensava: ‘por que estou fazendo isso? Por que estou machucando as pessoas que cuidam de mim?’”, lembra.

Ao telefone, Gabriela explica que existem dois tipos de personalidade  borderline : a explosiva e a implosiva. “O primeiro tipo é o que vai para cima, briga, grita. O implosivo, que é o meu caso, começam a se automachucar. Em alguns surtos eu começo a me bater e a fazer coisas para agredir a mim mesma”, narra.


Foi a intensidades desses comportamentos e o risco que eles ofereciam para a saúde de Gabriela que fizeram com que ela entendesse que precisava de ajuda. Nos últimos dois anos ela chegou a ser internada 11 vezes, desde períodos mais curtos, que variavam entre 7 a 21 dias, até períodos mais longos. Em sua última internação em uma clínica em Itapecerica da Serra, no interior de São Paulo, ficou quase três meses.

Ela explica que o contato com o mundo exterior é zero. “Você não faz quase nada lá, sua vida para totalmente”. Mas ela afirma que o ócio, combinado com as terapias em grupo e consultas individuais, foram primordiais para seu processo de controle da síndrome de borderline .

Falta das redes sociais foi o que Gabriela não sentiu durante esses períodos. "Querendo ou não, as  redes sociais te fazem comparar sua vida com a dos outro. Eu via alguém que estudou comigo e comparava a minha vida com a dele, reafirmando como estou parada sem fazer nada e desempregada há três anos”, diz. “Essa comparação é muito ruim, mas eu estou no meu momento, descobri uma doença e tenho que tratar”, acrescenta.

Vivendo com Síndrome de Borderline

Apesar da dificuldade que é encarar a síndrome de borderline diariamente, Gabriela conta que receber o diagnóstico correto causou alívio. “Isso porque eu pude dar nome para o que eu tenho e soube o porquê de eu ser diferente”, justifica. A doença fez até com que ela se aproximasse do pai, de quem ela afirma ter tido muita mágoa. Gabriela conta que ele chegou a ir em palestras sobre o assunto e fez muito para apoiá-la.

Ela conta que toda família sempre deu muito apoio em seu tratamento e sempre buscou saber o que estava acontecendo. “Tem família que não dá apoio, fala que é frescura, não procura saber. Eu via as pessoas na internação sem apoio e é muito difícil. Logo essas pessoas começam a desistir. Se com apoio a gente já quer desistir, imagina quem não tem”, reflete.

Gabriela explica que é muito importante estar em um ambiente em que a pessoa doente se sinta acolhida. “A gente pensa que está todo mundo contra nós, que estamos fazendo mal para todo mundo. A gente sempre pensa que está fazendo alguma coisa errada, embora não estejamos fazendo nada”, explica.


Devido ao progresso que teve com o tratamento, hoje ela conseguiu controlar os surtos e parar de tomar o medicamento. “Às vezes nem sei o que é ser borderline.” . Gabriela está trabalhando para colocar a vida nos eixos. Hoje, ela está se especializando em desenvolvimento de sistemas e web design focado em marketing. Uma de suas metas é conseguir trabalhos e conquistar uma bela cartela de clientes. 

O importante para ela no momento é fazer com que as pessoas entendam que a síndrome de borderline requer seriedade e que é possível viver com ela. “Quero que as pessoas entendam que a gente não tem culpa. Não estamos loucos, nós temos uma doença mental”, diz.

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