Condenado a 9 anos de prisão em primeira instância por estupro pela justiça italiana, o atacante Robinho foi recentemente contratado pelo Santos e está apto para jogar pelo clube. A contratação de um condenado gerou polêmica nas redes sociais , muitas torcedoras sentiram que o clube está sendo hipócrita com as inúmeras campanhas contra agressões às mulheres. Diariamente 180 mulheres são estupradas por dia no Brasil, segundo o 13º Anuário de Segurança Pública, de 2019.


O Delas conversou com torcedoras do Santos para entender qual é a sensação de ter um condenado por estupro jogando pelo seu time do coração. Elas relatam o desgosto de ver um time que prega a igualdade realizar este tipo de contratação e não responder os questionamentos das mulheres que apoiam a equipe.


Uma torcedora anônima, que vamos chamar de Fernanda*, pensa que o futebol não foi feito para as mulheres e que a luta é constante. "Sinto que é feito para excluir as mulheres. É um ambiente hostil e cheio de preconceitos. Ficar, consumir o futebol é quase um ato de resistência, frente a tantos desafios que impõe para as mulheres", diz.

Robinho
Reprodução
A contratação de Robinho gerou polêmica entre torcedores do Santos


Para a jornalista do Deus me Dibre, Naty Andrade, as campanhas contra o feminicídio e a agressão contra mulheres feitas pelo clube são hipocrisia. "A campanha é feita pelo marketing, mas só serve quando se alinha aos princípios do clube. O Santos fazendo isso mostra que não se importa de verdade com essas pautas, se ele se importasse nomes como esse não seriam cogitados", diz.

Ela diz que casos como esse mostram o porquê das mulheres não denunciarem os agressores. "Mesmo denunciando e incentivando [as denúncias], temos um jogador que está passando ileso. É hipocrisia pura", aponta.

Desgosto

Fernanda* diz que sente desgosto. "O Santos tem fingido que nada acontece, o que gera uma grande frustração. O mínimo era o clube se posicionar, falar sobre o assunto. Mas não, a posição institucional é ignorar. Não é um jogador qualquer, é um dos maiores ídolos do clube e volta com esse mesmo status, mesmo sendo acusado de um crime tão, tão grave", afirma.

Paolla Garcia, estudante de pedagogia e torcedora do Santos, sente que foi desrespeitada. "A gente se sente no lugar da vítima, ver isso acontecendo no time do coração, tão perto e ver a diretoria não pensar nas mulheres da torcida e na bancada feminina da torcida, é horrível. Não ligaram para o nosso sentimento e para o desrespeito, é inadimissível conviver com isso", diz.

A professora Marilu Pamc, de 36 anos diz que não é possível pensar que se comemore gols e jogos com um jogador com este tipo de condenação no clube. "Como nós, mulheres, podemos torcer para um time vencer tendo como atacante um jogador condenado por estupro?! Sai da esfera de torcedora, isso é muito maior", diz.

Naty aponta que a sensação é de revolta. "É como se os times dissessem que a nossa vida não importa. Não é questão de acusação, ele é condenado. É como se nada tivesse acontecido. Imagino a dor da mulher em ver o abusador dela sendo adorado... Além de voltar, ele volta como ídolo. Quem teve a vida destruída foi ela, mas as pessoas acham que foi algo normal", diz. 

Na hora do gol, tristeza

Muitas não sabem como vai ser quando o atacante marcar um gol. Paolla diz que é um pouco assustador pensar na possibilidade. "Ver isso se tornar realidade é absurdo. No jogo contra o Grêmio que o Marinho fez a comemoração do gol fazendo uma pedalada em alusão ao Robinho não me deu nem vontade de comemorar, imagine se for ele? Me dá nojo, não tenho que tratá-lo como ídolo, não é normal", diz.

Fernanda*  pensa que é praticamente impossível não comemorar um gol. "Não é uma opção para mim. É meu time do coração e não acho que deixarei de torcer, até porque, ser torcedora é algo pouco racional. Mas, sem dúvidas, não vou ter a mesma admiração que tenho por outros jogadores do elenco. Não vou compartilhar fotos nas redes, mesmo os gols, ou qualquer tipo de "brincadeira" que o clube faça com ele", diz.

Mau exemplo

Paolla tem primos pequenos e se preocupa com o patamar de ídolo de Robinho. "Eu tenho uma preocupação porque mesmo eles não entendendo muito, acho que a contratação vai manchar a história do clube e no futuro eles irão perceber, mas é preocupante tê-los comemorando sem saber a real situação", diz.

A polêmica gerou violência

A torcedora Fernanda* optou por não divulgar a identidade por ter sido fortemente contra a contratação de Robinho nas redes sociais. Além dela, diversas jornalistas sofreram com agressões e ameças na internet de defensores da contratação. "Acredito que as pessoas, quando não têm argumentos, partem para a agressão. Não é a imprensa que é acusada de cometer um crime, é o jogador", diz.


Naty Andrade aponta que o hate à jornalistas fere muito. "Eu mesma estou sofrendo muito hate, defender um condenado por estupro não é ético. Estamos falando de um crime que aconteceu e que foi julgado. É um desrespeito gigante inclusive ao nosso trabalho de jornalista", aponta.

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