Ao rolar o feed do TikTok existem grandes chances de você acabar dando de cara com uma figura andrógina -- algo como uma drag queen ou uma travesti --  com a maquiagem bem elaborada, voz grave e uma risada marcante. Há  também grandes chances do vídeo ser uma resposta a uma pergunta ou até um pedido de conselho de algum dos seus muitos seguidores.  A conselheira é Marion Novick .


marion novick
Instagram/@MarionNovick
Marion Novick se tornou uma sensação no TikTok ao fazer vídeos contando sua história e dando conselhos



Marion tem 50 anos, é paulistana e entre as diversas profissões que já exerceu na vida, a  prostituição foi a mais constante. Ela teve uma criação bastante católica, o que não impediu que entendesse logo cedo que era diferente. “Com meus 13 anos eu já tinha certeza que era pelo menos bissexual”, afirma.

Por alguns anos Marion conseguiu esconder esse seu lado para manter a boa convivência com a família. Mas quando tinha em torno de 16 anos seu vizinho fez um convite que acabou determinando grande parte de sua vida: o de passar a noite com ele. “Primeiro eu disse ‘eu não’ bem direto, mas depois ele explicou que seria pago e aquilo me interessou. Ganhar dinheiro e ainda fazer sexo? Decidi ir”, conta.

Nessa época ela estava descobrindo seu prazer por usar maquiagem e vestir roupas consideradas femininas, sempre escondido e fora de casa. Porém, os encontros com o vizinho se tornaram frequentes e aos poucos ela começou a fazer programa com outros homens. Quando a vontade não podia mais ser escondida, a família decidiu romper com Marion.

“Um dia eu cheguei em casa e minha mãe estava chorando, quando perguntei o que tinha acontecido. Ela me disse que meu pai havia dito que ou eu saía de casa naquele dia ou ele que ia sair”, relata. Foi aí que ela entendeu que precisaria correr atrás de dinheiro para se sustentar, levar os programas a sério e foi “fazer rua” (ficar em pontos na rua oferecendo programa).

O trabalho nas ruas

Na rua ela enfrentou todos os tipos de dificuldades. Uma delas era a relação não muito boa que teve com algumas travestis que ficavam nos mesmos pontos que ela. “Eu sofria um pouco de preconceito por também fazer programas vestido de homem, mas eu fazia dinheiro assim também, até com clientes mulheres, então nunca deixei esse meu lado”, diz a tiktoker.

Nos seus dias de rua, ela sofreu agressões sérias de clientes e pessoas que passavam por ela. Uma delas foi tão grave que Marion chegou a ter certeza de que iria morrer. Aconteceu quando estava com 24 anos, fazendo ponto à noite no Parque D. Pedro -- centro de São Paulo -- quando foi abordada por um cliente. Ela topou o serviço e entrou no carro, como de costume, mas quando chegaram ao destino, não era uma casa nem um motel, e sim um tipo de galpão abandonado.

No galpão, dois outros homens a esperavam e um deles estava com um revólver na cintura. Marion se esforçou para agir com naturalidade, mas assume que já estava pensando “ferrou, eu vou morrer”. Eles a prenderam em uma cadeira e um dos homens falou: “que dentes bonitos você tem, mas vamos acabar com esse seu sorriso”. Colocaram uma corrente em sua boca e puxaram com força duas vezes, quebrando cinco dentes da lateral.

Já com muita dor e sangrando, Marion ouviu o barulho de uma moto que assustou os homens que a agrediam. “Mesmo com a corrente na boca eu reuni toda a força que eu tinha e gritei duas vezes. Os homens desapareceram e um grupo de três jovens apareceu”, diz. Ela foi levada ao hospital quase desmaiando, mas conseguiu ser atendida e se recuperar.

De Elizeu à Ted Babado

“Depois disso eu fiquei com muito medo, percebi que não tinha condição de voltar pra rua e então um cliente meu me trouxe para Botucatu, no interior, onde moro hoje”, diz ela. Em Botucatu, Marion teve que voltar a viver como Elizeu, seu nome de registro, e voltou a frequentar a igreja. Ela recebia ajuda dos membros da comunidade, trabalhou fazendo outras coisas, mas sem abandonar o programa -- que fazia, inclusive, com frequentadores e membros da igreja.

Aos poucos, conseguiu estabelecer sua vida e trabalhou por um tempo em uma rádio local, onde criou o personagem Ted Babado para que pudesse resgatar seu lado feminino. Ted Babado usava bastante maquiagem e turbantes. Mesmo que de brincadeira, foi uma forma de dar vazão a essa expressão que sempre fez parte dela. A personagem fez sucesso na cidade e chegou a ir em programas como o do Ratinho e do Silvio Santos.

Marion afirma não saber exatamente com qual gênero se identifica. “Por conta da minha história e a relação com a igreja, nunca consegui deixar esse meu lado masculino ir embora. Eu amo usar roupas femininas e maquiagem, mas tem dia que eu me visto como homem e tudo bem. Hoje em dia, na sigla LGBTQI+ tem o Q que significa “queer”, né? Talvez eu seja isso aí”.

TikTok, uma nova oportunidade

Com a pandemia e a paralisação total do seu trabalho, Marion estava se dedicando a fazer lives no Facebook como Ted Babado, até que conheceu o aplicativo TikTok . A ideia era fazer vídeos contando sua história de vida e falando sobre sua profissão de forma honesta e tranquila. Não demorou muito para que ela conquistasse muitos seguidores e passasse a fazer lives diariamente para conversar com eles.


Atualmente, Marion tem três perfis na plataforma para não ser bloqueada por fazer lives com muita frequência. O mais popular deles está com 148 mil seguidores. “Virou o meu trabalho, não sei como eu estaria me virando nesse momento se não tivesse o TikTok. Desde que eu criei a conta, há três meses, eu ganhei entre 18 mil e 20 mil reais”, conta satisfeita.

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