Aline Caneda, 28 anos, sempre se sentiu diferente, mas nem ela sabia explicar direito o porquê. Por mais que tentasse se encaixar em sua adolescência e começo da fase adulta, as tentativas eram frustradas e ela se isolava.

mulher autista
Arquivo pessoal
Aline sempre buscou explicações para a sua "esquisitice", aos 26 anos encontrou no seu diagnóstico de autismo


“Eu tentava me encaixar, mas não conseguia, não conseguia ter amigas meninas, pois me achavam bruta e os meninos mais ou menos gostavam de mim. Tenho problema em fazer amizades até hoje”, conta a fotógrafa e estudante de pedagogia ao Delas. 

Foi só em 2018, que ela foi diagnosticada com a síndrome de Asperger, o grau mais "brando" do espectro autista. “Não foi fácil receber o diagnóstico, mas explicou tudo o diferente que havia em mim”, diz Aline. 

Após o diagnóstico, Aline se sente melhor pois consegue explicar melhor quem é. “Foi um alento saber que existia uma explicação para a minha esquisitice”, explica. Ela inclusive, pensando que existia outras meninas que também se sentiam “esquisitas” como ela se sentia, decidiu criar um blog e um canal, diariamente aspie, com a ideia de compartilhar as vivências, as experiências para outros autistas e também para pais de autistas. Ela conta que no futuro pretende se dedicar como pedagoga à formação de alunos dentro do espectro.

Transtorno camuflado 

A psicanalista e psicopedagoga Andrea Ladislau explica que a condição chamada espectro autista é um transtorno que afeta o comportamento e a forma de socializar das pessoas. Em geral é uma condição que aparece na infância e acompanha os indivíduos ao longo da vida. 

“O espectro tem vários graus e afeta principalmente as funções cognitivas e intelectuais, comprometendo as habilidades de fala, motoras, entendimento do mundo em que essa pessoa está inserida, a forma de interação com o mundo e ecolalia, que é a repetição de frases ou palavras”, explica Ladislau. 

A psicanalista explica que existia uma estatística errônea que afirmava que o TDA (transtorno do espectro autista) era mais comum em homens do que mulheres, mas que esse estudo está ultrapassado. 

“A verdade é que muitas mulheres e meninas são diagnosticadas com outros problemas que não sejam o autismo, porque os sintomas são diferentes do que nos homens. Elas são mais introspectivas e mais quietas, é isso acaba camuflando o diagnóstico”, acrescenta a especialista. 

Aline comenta em entrevista de ser diagnosticada tardiamente, as pessoas costumam não acreditar que ela tem o espectro autista. Isso acaba dificultando ainda mais seu dia a dia, principalmente quando envolve o ambiente de trabalho. 

“Eu tenho dificuldade de me manter no trabalho, eu não entendo as regras sociais e tal. Houve um incidente em uma escola que eu trabalhava, na época eu não sabia que eu era autista. Mas, mesmo depois que saberem, não me tratavam melhor não”, acrescenta. 

Outro problema que a fotógrafa revela diz respeito aos relacionamentos. “A maioria dos homens não me veem como uma mulher atraente. Fiquei com alguns caras, mas namoro, só um e foi abusivo. Só percebi que era abusivo quando terminou. Eu estava cega e carente”. 

A psicanalista explica que todos os sintomas que Aline apresentava já eram sinais que ela poderia se enquadrar em algum grau do transtorno. 

“O autismo é como um quebra-cabeça de montar, e os sintomas apresentados pelas mulheres podem ser: ansiedade, depressão, uma certa agressividade, choro excessivo e baixa auto estima. Muitas pessoas erroneamente acham que a mulher é tímida, sensível, falam que de ver culpa da tpm, é não é assim, de repente a mulher tem um transtorno e precisa de ajuda e não consegue ser diagnosticada”, esclarece Ladislau.


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