Nesta segunda-feira, 26, bombou no Twitter um caso de um motorista de aplicativo que trocou um cachorro-quente gourmet que deveria entregar para uma cliente por um famoso “podrão”, o tipo que pode ser encontrado em barracas nas ruas. O homem ficou conhecido como “Ian Comilão”.

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Reprodução/Rebecca Cury
Rebecca Cury relata as agressões e o abuso que o irmão fez com ela


Como nada passa batido nas redes sociais, logo descobriram que o tal motorista já tinha viralizado nas redes sociais anteriormente. Em 2013, Ian Cury publicou um vídeo no qual trollava a namorada dizendo que queria terminar. O vídeo tem mais de 20 milhões de visualizações no Youtube.


Assim que viu o nome de seu irmão de novo entre os assuntos mais falados nas redes sociais, a fotógrafa carioca e MC, Rebecca Cury, de 18 anos, decidiu que era a hora de falar sobre os abusos que sofria nas mãos dele, em entrevista exclusiva ao Delas.


“O nome do Ian nunca deixou de ser falado, só foi abafado. Mas de dois em dois meses o vídeo dele viralizava de novo. Todas as vezes que entrava no Twitter e via o vídeo eu entrava em crise, passava mal. Ontem acordei e vi a thumb do vídeo e achei que ia ser mais um dia horrível, quando li que ele estava sendo cancelado e quanta gente tinha ali. Eu sabia que era a única chance que eu tinha, estou tentando expor desce 2017, era minha única chance.”

Abuso e agressões

Rebecca conta que os abusos teriam começado quando ela tinha 8 anos e Ian tinha 20. O irmão estava muito bêbado com a namorada da época. Os dois estavam gritando e a criança decidiu ver o que estava acontecendo.

“Ele levantou e veio na minha direção e eu comecei a fugir, morrendo de medo. Eu cai no sofá e ele começou a me agarrar, não colocou a mão nas minhas partes íntimas nem nada mas me tocava de um jeito estranho e eu pedia pra ele me soltar e gritava e ele ficava me alisando e falando coisas aleatórias. Depois de um tempo comigo gritando a ex-namorada apareceu e falou: bem feito eu mandei você não ir lá. E tirou ele de cima de mim”.

Rebecca conta que antes disso eles tinham uma relação perfeita, mas depois daquele primeiro abuso, Ian, que antes era um herói para ela, acabou virando o seu pior pesadelo na vida.

“Ele foi da água pro vinho da noite pro dia. Eu sentia como se tivesse perdido uma parte de mim, meu irmão era meu ídolo, tudo que eu mais amava e se tornou o meu maior ódio. Meu maior medo. Tudo que ele sempre disse pra mim era que a culpa era minha, que eu destruí a vida dele. Eu me senti culpada por anos, mas não mais.”

Segundo Rebecca, foram dez anos de agressão físicas contra ela e a mãe. Até o pai dela, que tentava separar os rompantes de raiva de Ian, acabada sendo agredido. “Uma das vezes, nós trancamos dentro do carro de madrugada e minha mãe me cobria com os braços, ele dava cotoveladas no vidro pra tentar quebrar e pegar a gente, nunca consegui esquecer. Parecia o próprio demônio.”


“Era como morrer todos os dias”

Rebecca conta que depois das primeiras brigas os pais conversaram com o irmão, que sempre prometia mudar, procurar tratar o alcoolismo. Na época ela até o tinha perdoado.

Ian foi expulso de casa em 2014 e, depois disso, Rebecca nunca teve contato direto com ele. “Eu o expulsei de novo, depois disso nunca mais tive contato direto, só esbarrei com ele algumas vezes e na maioria delas deu problema. Era como morrer todos os dias que eu o encontrava”.

Em 2019, a mãe deles achava que o filho tinha mudado, tanto que deixava Ian lavar as roupas na casa da família. “Afinal, desde 2015 não tivemos problema com agressão, ela achou que ele tinha mudado. Mas eu não. Eu nunca quis ele de volta na minha vida. Nesse dia eu estava no estúdio de tatuagem do meu amigo que meu namorado trabalhava. Minha mãe me ligou perguntando se eu ia pra casa, de uma forma bem estranha”, lembra.

Ela chegou no portão de sua casa e percebeu que o irmão estava lá. Quando viu um carro desconhecido na vaga na frente da casa e seu pai parado, Rebecca conta que não tinha ideia do que estava acontecendo.

“Fiquei ali brincando quando olhei lá pra dentro e v/i um homem saindo da casa, pelo jeito de andar sabia que era ele. Na mesma hora falei pro meu pai. Nisso o Ian chegou e ouviu eu falando e começou a gritar comigo. Eu coloquei a mochila no chão e ele começou a me xingar, me chamava de piranha, pirralha e vagabunda, que eu era uma filha da puta, que não tinha o direito de falar nada com ele. Ele veio pra cima de mim e segurou meu pescoço de lado e começou a me enforcar.”

Rebecca conta que tentou se defender, o que deixou Ian ainda mais incomodado, passando a aplicar nela um golpe conhecido como "mata leão". “Gastei todas as minhas forças tentando me debater ou machucar ele pra me soltar, foi tudo em vão. Ele gritava ‘não estou machucando ela, ela está fingindo, para de ser maluca’. Por um milagre quando eu estava apagando, já tinha perdido todas as forças, eu me soltei e consegui correr pra rua. Ele foi atrás de mim e gritou: se você chegar perto de mim eu vou te matar, te quebro na porrada até a morte, eu juro que te mato. Os policiais chegaram e ele tentou fugir, mas não conseguiu.”

No dia seguinte, ela e os pais foram à delegacia e uma ordem de restrição foi feita, impedindo Ian de se aproximar dela novamente.

Não vou mais me calar

Rebecca escondeu essa história por muito tempo, só os amigos íntimos e familiares sabiam das agressões que ela sofria. Mas, depois do irmão viralizar novamente, ela viu que era a chance de não ter mais a voz silenciada pelo medo.

“Passei o dia todo chorando, tanto de felicidade como por medo. Só Deus sabe o quanto eu tive medo quando soube que ele já tinha descoberto, achava que ele viria atrás de mim”.

A carioca recebeu muita ajuda dos internautas, anônimos e famosos. O youtuber Felipe Neto prontamente entrou em contato com ela para fornecer ajuda. Foi ele, inclusive, quem fez com que ela não apagasse o relato por medo.


“Eu estava prestes a apagar tudo e me avisaram que o Felipe Neto tinha me respondido. Fiquei horas chorando sem acreditar. Não parecia ser real, não era possível que finalmente alguém tinha me escutado. Ele me perguntou se eu precisava de algo urgente, se eu estava correndo perigo”, revela.

Rebecca também conta que seu irmão chegou a entrar em contato com o empresário, dizendo que ela estava mentindo, que não era pra ele acreditar nela. “O Felipe Neto me mandou um print do Ian dizendo que eu sou mentirosa, que 90% da minha história era mentira e que tinham vídeos que minha própria mãe tem que provariam isso.”

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Reprodução
A esquerda, a ordem restritiva de Rebecca contra o irmão e a direita o print da conversa com Felipe Neto


Rebecca conta que o apoio que tem recebendo nas redes sociais é a única coisa que a tem mantido forte, que a culpa estava a consumindo há anos, estragando sua vida.

“Me afetou em todas as áreas possíveis. E agora ter gente que finalmente acredita em mim e luta por isso, é a coisa mais gratificante do mundo. Ninguém merece viver com medo, ninguém merece ter o direito sobre o corpo e a vida violado. Não se calem nunca.”

*Tentamos entrar em contato com o Ian Cury, mas até o fechamento dessa reportagem não tivemos retorno

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