Desempregada desde março deste ano, Bárbara Aires, 36 anos, fez uma publicação no Twitter dizendo que estava procurando emprego. Ela destacou algumas experiências do currículo, como a produção de programas na Globo e no canal GNT, além de três anos como assessora parlamentar, mas garantiu que não tem nenhuma restrição, o importante é trabalhar. “Não estou escolhendo vaga, já fiz até faxina!”, escreveu.

mulher loira
Reprodução/Instagram
Bárbara já trabalhou como produtora na TV Globo, mas hoje precisa recorres às redes sociais para conseguir emprego

O tweet viralizou e Bárbara recebeu algumas mensagens com propostas de trabalho. Entre uma conversa e outra, alguém falou: “Vou ser bem sincero: não sabia que você era trans. Eu me comprometo a te indicar de boa, mas sinceramente não sei como o dono da imobiliária reagiria”. Em entrevista ao Delas, Bárbara conta que receber respostas como essa faz parte do dia a dia.

Segundo ela, o fato de ser uma mulher transexual é visto como um empecilho para muitas empresas, antes mesmo de ter o currículo analisado. “Todos os meus documentos já foram alterados. Se eu não quisesse, nem precisaria falar que sou trans. Essa questão não deveria ser colocada em xeque para eu ser contratada ou não”, fala.

 “A gente acha que não serve para nada”

Bárbara lembra que sentiu os entraves do mercado de trabalho logo no primeiro mês pós-transição. Na época, trabalhava no bar de uma boate na região central de São Paulo. “Quando me contrataram, eu estava no início da transição. Não falei nada, porque achei que não cabia. Quando eu já estava oficialmente como Bárbara, tentei respeitar a condição que eles haviam me contratado e me vestia de menino para trabalhar. Na hora de ir embora, colocava a minha roupa de mulher. Eu consegui fazer isso por três domingos. No quarto, a gerente me dispensou e disse: ‘A casa não comporta um funcionário como você. Os clientes não vão entender alguém assim servido eles no bar’. Foi o meu primeiro baque.”

Desde então, já perdeu a conta de quantas vezes deixou de ser contratada. “Eu me formei em cabeleireira, mas nunca consegui uma colocação por ser trans. Não falo isso de achismo, eu já ouvi isso. Já fui contratada para trabalhar em um salão de beleza e quando levei a carteira de trabalho para assinarem, falaram que não sabiam que eu era trans e, por isso, não contratariam”.

Bárbara diz que percebe que os contratantes não estão abertos a conhecer o seu trabalho, já que colocam a transexualidade como um problema. “É por isso que a gente acha que não serve para nada”, fala. Além disso, ela conta que já ouviu inúmeras vezes justificativas de que a marca ou a empresa não poderia ser associada a uma imagem “como a dela”.

Ao ser questionada sobre como reage ao ouvir comentários como esse, Bárbara diz que não pode fazer nada. “Você está procurando emprego e falam que a sua condição não te possibilita trabalhar. É uma situação de vulnerabilidade. A minha reação é ficar inerte e em choque”.

Prostituição como única saída para pagar as contas

Ela ainda comenta que uma das dificuldades enfrentadas por transexuais e travestis é quebrar certos estereótipos para conseguir empregos em áreas e funções diversas. “As pessoas automaticamente nos empurram para a prostituição, moda, maquiagem ou cabelo. Acham que a gente só sabe fazer isso e qualquer outra função que buscamos não conseguimos. Não associam a nossa imagem a outro tipo de função”.

Com o mercado formal fechado para as trans, Bárbara diz que a saída está na prostituição. De acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% das mulheres transexuais e travestis precisam recorrer à prostituição como fonte de renda. Ela fala que já teve a prostituição como única fonte de renda, mas, até hoje, se um ou outro cliente antigo a procura, ela não recusa, já que o valor vai ajudar a pagar a conta de luz atrasada ou completar o valor do aluguel.

“Nós nos prostituímos contra a vontade própria, seja porque estamos desempregadas ou para complementar a renda porque o emprego formal não possibilita se sustentar de forma digna. É preciso entender que as trans e travestis são sozinhas. Não tem pai ou mãe. A gente não tem aquela pessoa que podemos contar no fim do mês. Não temos essa realidade”.

“É difícil sonhar”

Ao pensar no futuro, Bárbara diz que gostaria de voltar a trabalhar na televisão, seja como atriz, produtora ou consultora de diversidade de gênero, mas confessa que tem dificuldade em olhar para os próximos anos. “É muito difícil dizer algo que eu quero, porque esse horizonte sempre nos foi negado, principalmente para mim que estou na casa dos 30 anos. A gente não tem perspectiva ou referência. É difícil sonhar”. Dados da União Nacional LGBT apontam que a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos, enquanto da população em geral é 75,5 anos. Bárbara tem 36.

Retomar a faculdade de jornalismo também está nos planos. Bárbara conta que fez a prova do Enem em 2015, o que a permitiu concluir o Ensino Médio e ingressar no ensino superior. Ela cursou quatro períodos, mas trancou o curso após um professor fazer piadas transfóbicas em sala de aula. “Quando eu fazia jornalismo, até cheguei a sonhar: ‘Imagina ser a primeira repórter trans contratada do Brasil?’”.

Enquanto não retoma os estudos e encontra uma recolocação no mercado, Bárbara segue com seu ativismo nas redes sociais. "Se eu não falar sobre as minhas questões, ninguém vai", pontua. Tanto no Twitter quanto no Instagram, onde soma mais de 21 mil seguidores, ela faz críticas ao modelo de mercado excludente.

Para Bárbara, falta para as empresas e contratantes um olhar mais cuidadoso e oportunidades coerentes à realidade da população transexual. “Tem vaga que exige inglês, espanhol e pós-graduação. Quase não existe trans com essa qualificação. As empresas deveriam fazer um programa de inclusão e capacitação.”

Números da Antra também apontam que 80% das mulheres trans e travestis não terminaram o Ensino Médio. Além disso, dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), publicado em maio de 2019, mostram que só 0,2% de estudantes de graduação das universidades federais são trans.

“É preciso humanizar e entender que podemos sim trabalhar e desenvolver uma função. O que deve ser analisado são as nossas qualidades, não a transexualidade”, finaliza.

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