Verão e praia são praticamente sinônimos.  Porém, o tempo de fugir da rotina e descansar pode se tornar uma preocupação, especialmente para as mulheres, por uma razão: o corpo. A ideia de vestir um biquíni, para muitas, é inconcebível e a pressão estética de se encaixar em um "padrão" faz com que a vergonha seja maior do que a vontade de se refrescar no mar.

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Alexandra Gurgel
Reprodução/Instagram/alexandrismos
Alexandra Gurgel é uma influenciadora digital e youtuber que fala sobre positividade corporal e gordofobia na internet

Mas, afinal, como perder essa vergonha do verão e curtir o calor livre, leve e solta (dos padrões)? Para responder essa pergunta, o Delas conversou com a influenciadora e youtuber Alexandra Gurgel , do canal Alexandrismos, que fala sobre gordofobia e positividade corporal nas redes. Ela, inclusive, tem os projetos #CorpoLivre e #NãoPasseCalor para incentivar mulheres a não sentirem vergonha do verão.

Porém, a resposta não é tão simples quanto dizer "se ame e se aceite" - e nem funciona da mesma forma para todo mundo. "É um exercício diário. Primeiro a gente para de se odiar, se maltratar, se machucar, para depois começar um processo de autoamor, onde a gente aprende quem a gente é e a lidar com isso", diz Alexandra. 

Quando a gente se aceita, só a gente está tentando se desconstruir, não o mundo

Ok, mas o que fazer se não dá para se amar de uma hora para outra?  Na realidade, tudo depende de um outro processo: descontrução interna.

"A mulher precisa entender que odiar o corpo dela, não conseguir colocar um biquíni, um maiô ou sequer pisar na praia, às vezes pisa na praia, mas não conseguir levantar e ir até o mar, porque não consegue de jeito nenhum se mexer de biquíni ou maiô - e isso é uma coisa que independe do corpo que você tem -, não é culpa dela", destaca.

Segundo ela, é o machismo enraizado na sociedade patriarcal que perpetua uma ideia de que a mulher precisa ser "perfeita", não só na aparência, mas nos comportamentos. "Impuseram sobre a gente que precisamos ser dessa forma, que isso é saudável, que isso é bonito. O saudável está sempre relacionada à magreza, ao corpo magro, a uma estética magra", diz. 

"O 'padrão' de beleza foi criado para vender uma ideia. Se a gente parar para pensar, a indústria da dieta e da beleza não quer você emagreça, quer que você tente emagrecer, porque quanto mais você tenta e se mantém satisfeito, mais você gasta dinheiro. Se você se aceita, você para de consumir e o mercado não gira", completa. 

Depois de se descontruir, pare de se comparar

Alexandra Gurgel e Caio Cal
Reprodução/Instagram/alexandrismos
Segundo Alexandra, se cercar de uma rede de apoio que entenda esse processo de desconstrução e autoaceitação é ideal

Entendendo que esse "padrão ideal' de corpo foi criado socialmente, você consegue notar as questões que te envolvem e as que envolvem outras pessoas - e como isso pode se relacionar de alguma maneira. "A nossa relação com o nosso corpo está muito relacionada ao outro. Como o outro me vê, vai se sentir atraído por mim, o que pensa sobre mim", pontua.

"A gente liga tanto para o que o outro pensa da gente que não nos percebemos, não temos noção do nosso físico, da nossa presença, do espaço que nosso corpo ocupa. A gente se ignora, porque gente está acostumado a olhar para o outro, se comparar ao outro", diz ela.

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Toda essa comparação gera um sentimento de inferioridade e, quando menos perceber, você é quem está fazendo isso consigo e com os outros. "A gente mesmo se sabota. O Instagram está aí para ser a maior arma, mesmo que as pessoas não postam só a realidade, mesmo assim você se compara", comenta. O mesmo acontece com comentários inconvenientes. 

Como driblar isso? Ressignificando seu olhar e se cercando de um grupo de apoio. "Segue quem tem o  cabelo igual ao seu, porque a gente não naturaliza o que não vê. Se você é gorda, segue outras pessoas gordas e para de seguir a influenciadora magra que quer enfiar dieta em você. Só assim a gente vai conseguir ser mais a gente e menos o outro, porque quando a gente se aceita, só a gente está tentando se desconstruir, não o mundo", afirma a influenciadora. 

"A grande verdade é que independentemente do seu formato de corpo sempre vai ter alguém que vai querer comentar e sempre vão comentar, a diferença é como você vai lidar com isso e a importância que você dá a isso", continua.

"Entender quem são os outros que estão do seu lado e criar uma rede de apoio também ajuda. Eu ter feito amigos que estão nesse processo também me fez visualizar o meu corpo e os das outras pessoas. Comecei a viver o meu corpo e a minha aceitação, porque quando eu andava na rua e tinha mais coragem para usar um cropped porque tinha três pessoas comigo", diz.

A autoaceitação de quem aceitou a si mesma (e o próprio corpo)

Alexandra Gurgel
Reprodução/Instagram/alexandrismos
O processo de autoaceitação de Alexandra tem relação com sua carreira como youtuber e o canal que tem na plataforma

O Alexandrismos tem 467 mil inscritos no YouTube e 403 mil seguidores no Instagram. Isso significa que, hoje, o alcance da influenciadora para "pregar a palavra da positividade corporal" é grande. Mas nem sempre foi assim, já que ela foi a primeira a falar sobre esse tema no Brasil - e isso teve uma relação direta na forma como ela aceitou o próprio corpo. 

"Quando comecei a ganhar um alcance, fui vendo como a gordofobia é uma realidade e como a pressão em cima do corpo da mulher é gigante. E eu não fazia ideia. Só percebi o quanto isso é grande quando vi cada vez mulheres falando ‘Também passo por isso’", diz.

Você prefere passar a vida inteira tentando se encaixar no padrão ou tentando se aceitar e ser quem você é?

O canal foi criado em dezembro de 2015, mas só um ano depois, em 2016, gravando um vídeo da paródia da música "Deu Onda", que Alexandra percebeu que a experiência teve impacto na própria liberdade.

"Fomos às 6 horas da manhã para a praia do Arpoador, no Rio de Janeiro, e foi a primeira vez que eu usei um biquíni. Em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu estava de biquíni. Quando acabou a gravação, umas 11 horas, percebi que eu estava lá ‘de boa’ e eu pensei que estava tudo bem. Até ali foram 26 anos me odiando", lembra. 

"Eu pensava ‘É muita pretensão eu achar que vou viver muito, porque também é o que os médicos me falam por ser gorda, então vou morrer logo'. Quando você escuta isso, você não faz nem planos para o futuro. Então, comecei a pensar ‘Vamos viver’", completa.

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"A pergunta que eu sempre me faço é 'Você prefere passar a vida inteira tentando se encaixar no padrão ou tentanto se aceitar e ser quem você é?'. Vá viver. É muito melhor você fazer as coisas que está afim de fazer do que ficar esperando ter um corpo x, y, z, a barriga perfeita, a virilha cavada, porque você acha que você vai ter outras oportunidades de viver experiências que você está vivendo só agora. Se você não viver, vai deixar de viver", concluí.

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