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Denúncias de assédio sexual e debate sobre a cultura do estupro motivam desabafo de leitora do Delas: "Falar é preciso e que exigir direitos é urgente"

Coleciono algumas histórias de assédio - e estupro. Nunca falei sobre, mas o momento pede que a gente não fique calada!  Estamos todas orgulhosas da repórter do iG que denunciou o constrangimento que passou durante entrevista com o cantor Biel por não se achar privilegiada por ser cantada por um famoso - e por dar rosto para a discussão do assédio. Ela parte de todos os lados. E não deixa de ser assédio porque é um homem famoso, porque é um homem branco, porque é um homem que tem dinheiro... Permanece sendo sujo!

Denúncias de assédio sexual e debate sobre a cultura do estupro motivam desabafo de leitora
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Denúncias de assédio sexual e debate sobre a cultura do estupro motivam desabafo de leitora


Estupro aos 5 anos

Fui estuprada aos 5 anos. Eu havia acabado de sofrer um acidente e precisava de curativo diariamente. Minha mãe trabalhava fora e me deixava sob os cuidados de uma tia, cujo filho era enfermeiro e por isso ficou encarregado de cuidar de mim até que os ferimentos sarassem. Ele tinha 23 anos. Era um rapaz que não levantava suspeitas. Aliás, me tratava com tanto carinho na frente das pessoas, que jamais alguém desconfiaria daquele monstro. Ele começou colocando as minhas mãos em suas partes íntimas. Me acariciava também. Não demorou muito para que ele consumasse os fatos.

Ele começou colocando as minhas mãos em suas partes íntimas. Me acariciava também. Não demorou muito para que ele consumasse os fatos. Não foi uma vez. Foram várias. Os abusos duraram até meus 9 anos"

Não foi uma vez. Foram várias. Os abusos duraram até meus 9 anos. Eu consigo lembrar exaramente da sensação que sentia naqueles dias escuros. Eu ficava estática. Congelada. Tinha medo de gritar. Fui educada para sentir medo dos meus pais, então aquela situação me deixava completamente desprotegida – porque eu achava que estava fazendo “uma coisa feia” e proibida. Meu estuprador é meu primo. Nunca ninguém soube do segredo dele. Ele nunca foi punido pela desgraça que me causou. Olho pra ele e me pergunto qual o sentimento que ele tem quando me vê.

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Abusador aos 14 anos

Eu tinha 14 anos. Meus pais estavam separados. Um vizinho se aproximou de mim. Era um cara mais velho, tinha seus 50 anos. Todos os dias passava pelo meu portão e com muita simpatia me deixava algum presente. Um dia era torta, no outro eram uns cd´s de umas bandas que eu gostava, revistas, livros. Nasceu ali uma 'amizade'. Ele me dizia: "Pode me ter como pai. Vou cuidar de você de agora em diante". E com esse discurso foi ganhando a minha confiança. Um certo dia ele me disse: “Vou te fazer sentir a melhor sensação do mundo, tenho um compromisso com a sua felicidade. Mas você não vai poder contar pra ninguém”.

Acompanhando todos esses relatos de abuso e todo esse movimento em defesa da mulher, começo finalmente a compreender que a falha não está e nunca esteve em mim"

Ele era um cara místico, cheio de conversas sobre numerologia, astrologia e outras coisas mais. Então, na minha cabeça, ele iria praticar algum ritual para eu me sentir feliz. Um dia ele chegou com um remédio e me disse: “pra você sentir a melhor sensação do mundo, precisa preparar seu corpo pra isso...”.

Eram anticoncepcionais – coisa que na época eu não sabia. Eu não tomei porque sempre tive pavor de remédio e menti pra ele que estava tomando. A minha desconfiança só surgiu quando ele me deu uma calcinha vermelha. Achei aquilo um grande desrespeito vindo de um “amigo”. Comecei a me afastar, bloquear as ligações dele – e nessa ele não se conformou. Começou a me perseguir. A primeira loucura dessa perseguição foi comprar vários chips de celulares com o mesmo final do meu telefone fixo – número que ele dizia que era a junção das nossas datas de aniversário. No meu aniversário, enviou flores secas, caveiras, cruzes, fotos de mulheres mortas. Fiz uma denúncia na delegacia da mulher e o que eu ouvi da polícia foi: o que posso fazer é rezar por você, ele não apresenta ameaça real, pelo visto ele só é um louco, moça!
Outro abusador que nunca pagou pelo mal que me fez.

Vergonha e medo são alguns dos sentimentos mais comuns entre as vítimas de assédio sexual no trabalho. Leia mais
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Chefe assediador aos 17 anos; perseguidor aos 20

Eu tinha 17 anos. Trabalhava como secretária numa produtora de vídeos. Certa vez tivemos uma gravação que varou a madrugada e meu chefe dispensou toda a equipe para o dia seguinte, garantindo uma folga quase que geral – exceto para mim. Naquela manhã, ele ligou no meu ramal e pediu que eu levasse um café para ele. Quando cheguei na sala o encontrei tocando violão, duas taças de vinho postas sobre a mesa e uma ordem: "Senta aí que hoje eu sou só seu, dispensei todo mundo pra gente ficar mais a vontade". Eu só tinha 17 anos, uma criação vertical onde eu respeitava a hierarquia e simplesmente não sabia o que fazer. Inventei que estava passando mal, fui embora e nunca mais voltei para o meu trabalho.

Já me senti impura. Por vezes até culpada. Minha roupa será que não era adequada?! Será que dei liberdade?! Já foram tantos os questionamentos que me fiz nessa vida"

Aos 20 fui trabalhar numa escola de inglês. Um rapaz completamente descompensado passava lá todos os dias para perguntar sobre o curso de inglês para as consultoras. Achávamos aquilo estranho demais e isso ativou o nosso estado de atenção. Certa manhã, quando cheguei para trabalhar, ele entrou junto comigo. Me segurou a força, me prendeu na parede e começou a me beijar forçadamente. Gritava que queria se casar comigo, que havia traçado o nosso mapa astral e que eu era a mulher da vida dele. O homem estava completamente descontrolado e nervoso. Ele era gordo e tinha muito mais força que eu, acabou me machucando. Por sorte, um grupo de rapazes ouviu meus gritos e entrou para desgrudar o rapaz de mim.

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Já me senti impura. Por vezes até culpada

Eu demorei muito para conseguir escrever essas linhas. Fiz e refiz esse texto inúmeras vezes. Com um certo custo, entendi que eu estava querendo deixar a minha história mais bonita, mais legível. Mas com esse enredo, será que é possível enfeitar meu passado?!

Tenho vergonha de ter passado por tudo isso. Contudo, falar é preciso e que exigir direitos é urgente!

*A leitora, que pediu para não ter o nome revelado, é publicitária, tem 29 anos e enviou espontaneamente sua história para o Delas